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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Renzo: Em busca do Horizonte (Parte 1 de 7)

Minha primeira missão está cumprida. No último post terminei o livro de poesias e meditações que disse que colocaria para apreciação pública. Agora vamos começar uma nova etapa. Não quero cansar meus dois leitores com mais poesia. Sim. Ainda há muito mais, entretanto vou postar a partir de hoje um pequeno conto. Ele era inicialmente uma História em Quadrinhos cuja ideia me foi inspirada na época que eu fazia a faculdade . O roteiro original que eu elaborei nunca saiu do papel, então resolvi passar para o formato de conto. É um conto curto em 7 capítulos que acho ideal para o formato de um blog. Nem muito grande, nem muito pequeno senão vira Twitter. Bem... Lá vai.

Renzo: Em busca do Horizonte

 

Capítulo 01

 O Serviço

Uma rua estreita e deserta próxima do centro da cidade, muito suja e molhada como se tivesse acabado de chover. Caixotes e pedaços de papel solto esvoaçam pelo ar em meio a paredes e postes escuros de sujeira que emolduram o emaranhado de fios da rede elétrica suspensos dos dois lados.
Um homem caminha pela calçada do lado direito fumando um cigarro. Veste uma calça e jaqueta jeans, sobre uma camisa de malha e botas de alpinista. Tem estatura mediana, não usa barba, nem óculos, tem cabelos pretos e olhos castanhos. Atrás dele, rente ao meio-fio, um carro de polícia aproxima-se com um mínimo de ruído sem que ele perceba.
Sozinho com seus pensamentos o homem reflete sobre sua vida:
O carro de polícia emparelha e pára bruscamente ao seu lado, acendendo todas as luzes e ligando a sirene, assustando e chamando a atenção dele.
O motorista sozinho no carro, um homem grande, de óculos escuros, sobrancelhas grossas, nariz adunco, cabelo curto cortado em "escovinha" e bigode ficando grisalhos.
- E aí Renzo, vai matar alguém hoje?
Ele continua fumando o seu cigarro sem se abalar e reage com desdém a pergunta do policial
- Não estou entendendo o que está falando, Guerra. Você sabe que sou um cidadão honesto e cumpridor dos meus deveres.
O policial retira os óculos escuros e retruca ironicamente.
- Sei... E eu sou a Branca de Neve. Só estou esperando você dar um passo em falso, Renzo, e quando isso acontecer, eu te pego.
- Vê se larga do meu pé, Guerra - Gesticula com o cigarro aceso entre os dedos - Você não tem nada contra mim. Estou indo até o Bar. Não quer me pagar uma cerveja?
Guerra repõe os óculos.
- Você sabe que eu não bebo em serviço, talvez em uma outra ocasião... Isso se eu não te meter na cadeia antes.
O policial arranca com o carro e parte em direção ao fim da rua e Renzo continua de pé. Lança fora a guimba e pisa na brasa do cigarro que acabou de jogar no chão.
O carro de polícia ainda some na distância quando um homem enorme aparece a sua frente barrando-lhe a passagem; é louro, com o cabelo cortado em estilo militar e veste um terno escuro mal cortado.
- O chefe quer falar com você!
Renzo recua sobre a calçada e atrás dele surge um outro homem que ele não percebe, negro, tão alto e forte como o louro e com a cabeça raspada, vestindo um terno do mesmo modelo de seu colega e tão mal cortado quanto o dele.
- Só que eu não quero falar com ele. Diga ao Nicolletti que eu vou pagar o que devo assim que arranjar um trabalho legal. É só uma questão de tempo e eu....
Renzo não completa a frase porque recebe uma violenta joelhada que faz com que se dobre de dor.
- Acho que você não entendeu...
O homem louro agora ostenta um sorriso maquiavélico no rosto
- O chefe mandou te levar... Mas não falou nada sobre em que estado...
O homem negro segura Renzo por trás, pelos braços, levantando-o e fazendo-o virar-se enquanto o homem louro atinge-o novamente, desta vez no estômago.
Renzo geme e pensa caído no chão apoiado na mão esquerda e comprimindo o abdome com a direita.
“Tinha mais um... Caí como um patinho. Preciso tomar mais cuidado.”
Para completar o serviço, o homem negro chuta violentamente as costelas de Renzo, fazendo seu corpo arquear com o impacto e fala para o louro:
- É isso que eu gosto no chefe, ele nunca complica nosso serviço.
Ajoelhado com ambas as mãos no abdome e dobrados pelas dores ele não perde a lucidez.
“Acho que quebrou uma costela, isso é mau.”
- Eu adoro o meu trabalho!
O homem louro fala com um sorriso malvado enquanto chuta o rosto de Renzo violentamente, arremessando-o para o alto e para frente, fazendo-o desmaiar sentindo um gosto de sangue na boca.
Horas mais tarde ao voltar a si, Renzo está caído sobre um carpete. Seu rosto tem um hematoma e da sua boca contra o chão corre um filete de sangue. É um luxuoso escritório com o chão e as paredes cobertas por tábuas corridas envernizadas, obras de arte em bronze e quadros caros nas paredes. À esquerda há uma grande janela com vidros quadrados guarnecida por pesadas cortinas escuras mostrando uma paisagem campestre como de uma fazenda.
À frente dele, encostado na grande escrivaninha de madeira escura com vários objetos em cima, está um homem branco, grande, vestindo um impecável terno Armani de seis botões, sapatos de cromo alemão, anéis e um alfinete de gravata de ouro, não tem barba, é forte e com cabelos na altura dos ombros muito bem tratados e empastados com creme, de modo a ficarem colados a sua cabeça.
Por trás de Renzo os homens que o trouxeram estão de pé à espera de ordens.
- Não foi uma boa idéia deixá-lo aí, rapazes, está sujando todo o meu tapete persa de sangue. Sabem quanto custa lavar essa porcaria?
Renzo começa a levantar-se apoiando-se nos joelhos.
- Você é mais durão do que eu pensava, Renzo.
- A vida me fez duro, Nicolletti - Diz Renzo levantando-se e retirando o sangue do canto da boca com a ponta do dedo médio da mão direita - Não precisava ter mandado seus gorilas atrás de mim. Como eu tentei explicar a eles, não vou te dar o calote. Assim que pintar um bom trabalho, vou pagar cada centavo do que eu te devo.
Nicolletti abre uma caixa de madeira colocada sobre a escrivaninha.
- Aquela vaca te estrepou mesmo! Aceita um charuto?
Renzo apalpa suas costelas.
- Não acredito que você tenha me trazido aqui para falar da minha vida particular. Já lhe disse que vou te pagar o que devo. Me diga o que quer ou me deixa ir embora.
Nicolletti tem um grande charuto entre os dedos e o oferece ao jovem.
- Como é que é, homem, vai querer o charuto ou não? Esse é dos bons, faz nascer cabelos no peito.
Renzo se senta numa cadeira posta por um dos homens a sua esquerda.
- Eu não fumo charutos, eles matam muito lentamente, eu prefiro os cigarros, são mais rápidos.
Nicolletti acende o charuto.
- É. E devo admitir que disso você entende... Eu não fumo mais cigarros. Charutos são mais finos, exigem todo um ritual para sua degustação. Não é assim Benneti? "degustação"?
O homem louro que atacara Renzo se surpreende com a pergunta. Ao seu lado o homem negro permanece calado olhando para ele.
- Não sei, chefe, eu não fumo, faz mal a saúde.
Nicolletti solta uma baforada de fumaça do charuto
- Pior para você. Não sabe o que está perdendo... Mas, isso não importa, estou precisando que faça um trabalho para mim.
Renzo acende um cigarro que tirou do bolso sentado na cadeira
- Quem você quer que eu apague?
Nicolletti está com o charuto fumegante entre os dedos.
- Gosto de você, Renzo, é um homem direto. Sendo assim: quero que elimine o Delegado Adhemar Guerra.
- Sem chance. O Guerra é muito importante no departamento. Ele é um símbolo. Se alguma coisa acontecer com ele, o responsável vai ser caçado como um cão raivoso.
Nicolletti fala batendo o charuto no cinzeiro que tem a sua frente.
- Aquela garota te deixou mesmo fora de circulação... Quanto tempo faz? Dois anos? Deixa eu te contar uma coisa: o Delegado Guerra, como metade da polícia desta cidade está na minha folha de pagamento. Quem você pensa que dá cobertura as minhas transações com drogas e prostituição? Não seja ingênuo!
- Então porque quer eliminá-lo?
- A Corregedoria está no pé dele. E eu não posso correr o risco de que ele dê com a língua nos dentes. Há muito em jogo aqui, compreende? Ele sabe demais.
- Tudo bem, mas a grande maioria das pessoas lá fora vai querer a pele de quem tocar num só fio do cabelo do Guerra. Jamais vai passar pela cabeça de alguém que foi uma queima de arquivo.
Nicolletti fica de pé, apoiado com as duas mãos no tampo da mesa enquanto fala. Do charuto entre seus dedos sobe uma fina coluna de fumaça.
- Você não está entendendo... Eu não te escolhi para esse trabalho porque é o melhor. Eu te escolhi porque você me deve dinheiro, e muito. E também porque parece que tem um dom de sair sempre limpo dos trabalhos que faz.
- A discrição é um dos meios de se ter vida longa na minha profissão. Mas, mesmo assim, eu...
- Você não tem escolha, Renzo, se não aceitar, eu vou contratar outro para o serviço. Terei que pagar mais, porque afinal de contas, serão dois ao invés de um, mas o que se pode fazer? A vida é assim.
Nicolletti vira-se olhando pela janela de costas para Renzo com as mão unidas às costas.
- Infelizmente Não posso esperar que você me pague "quando tiver condições". No meu ramo, esse tipo de coisa não é bom para os negócios. Abre precedentes perigosos. É preciso dar exemplos, sabe? Um homem não chega na minha posição sem alguns esqueletos no armário. E então o que me diz?
Renzo apaga o cigarro no cinzeiro em cima da mesa e levanta-se.
- Me dê trinta dias. Até o final desse prazo terá o que quer.
(Continua) 

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