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terça-feira, 10 de abril de 2012

"Quando o Discípulo Está Pronto, O Mestre Desaparece"


"Permaneçam fiéis à Terra, meus irmãos, com todo o poder da sua virtude. Devotem seu amor incondicional e seu conhecimento para que tenham um significado aqui na Terra. Assim vos rogo, e a isso vos conjuro. Não deixem vossa virtude bater asas, fugindo das coisas terrestres para ir se chocar contra paredes eternas. Ah, e tem havido sempre tanta virtude extraviada!

Conduzam, assim como eu, a virtude extraviada de volta pra Terra; Sim, restituam-na ao corpo e à vida, para que dê à Terra o seu sentido, um sentido humano. Deixem seu espírito e sua virtude serem devotados a um sentido terrestre, meus irmãos: deixem o valor de tudo ser determinado novamente por vocês! Para isso devem ser lutadores! Para isso devem ser criadores!

Há mil caminhos que nunca foram trilhados; mil fontes de saúde e mil ilhas de vida ainda escondidas. Inesgotável e desconhecido ainda é o ser humano e o mundo do ser humano.

Agora, meus discípulos, vou-me embora sozinho! Partam sozinhos, também! Assim o quero.
Com toda a sinceridade vos dou este conselho: Afastem-se de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda: tenham vergonha dele! Talvez ele os tenha ludibriado.

O homem de conhecimento não só deve amar os seus inimigos, mas também odiar os seus amigos. Mal corresponde ao mestre aquele que nunca passa de discípulo. E por que não quereis tomar minha Coroa?
Venerais-me! Mas que aconteceria se sua veneração um dia acabasse? Tome muito cuidado para que uma estátua não te esmague!

Vocês dizem crer em Zaratustra? Mas que importância tem Zaratustra? Sois crentes em mim; mas que importam todos os crentes?! Vocês ainda não procuraram em vocês mesmos: por isso me encontraram. Assim fazem todos os crentes: por isso que toda a crença é de tão pouca importância.

Agora vos ordeno que me percam e encontrem a vocês mesmos; e só quando todos vocês tiverem me negado, retornarei para vós.

Em verdade, meus irmãos, buscarei então as minhas ovelhas desgarradas com outros olhos; vos amarei então com outro amor. E novamente sereis meus amigos e filhos de uma só esperança; então quero estar a vosso lado, pela terceira vez, para festejar com vocês o grande meio-dia."

Trecho do capítulo Da Virtude Dadivosa, do livro Assim Falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche.

A frase do título acima foi citada por Paulo Coelho num outro post com a mesma temática desse que pode ser lido aqui: http://abcimaginario.blogspot.com/2012/01/quando-o-discipulo-esta-pronto.html


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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sobre a Falta de Amor no Mundo


Por: Nestor Lampros
 A falta de amor é um problema que requer muitas explicações, até científicas. Os animais têm uma tendência a se agruparem, muitos deles desenvolvem um tipo de percepção que poderíamos chamar de rudimentos do amor. Contudo, o homem tem a possibilidade de evoluir no tocante de suas afeições, afetos e isso que chamamos de amor. Não é uma coisa piegas, e sim, algo muito necessário em nossas vidas.

O amor como os filósofos concebem é uma emoção sublime. Acompanha desde o nascimento e até o fim há a possibilidade de desenvolvimento no que toca nos relacionamentos humano. Porém, há amores e amores: predileções exclusivistas, ciúmes, e até uma tomada de posição narcisíaca frente a si mesmo.

A doença que muitos autores românticos tinham (além da tuberculose...) , poderíamos dizer o amor mal resolvido, acrescido a isso o fato de não terem uma visão clara do amor como algo sublime, celestial, até, mas de forma prática e necessária. Podemos dizer que o amor é colocado na nossa sociedade como um bem cultural e emocional que aprendemos ao crescermos, ao nos desenvolvermos como gente. O projeto de vida, que resultou em nós, acompanha com todo o desenvolvimento humano de certas condições, sem as quais deixa de se desenvolver, abrindo lacunas na vida das pessoas. Valores éticos e morais são frutos da experiência humana em seu desenvolvimento, e uma pessoa sadia, podemos dizer, é que ela que tem consigo mesmo um pacto inteiriço desses valores e noções apreendidos.

Não custa dizer de modos com que as pessoas vêem o amor, algumas acham uma grande bobagem, outras se afeiçoam, não com pessoas reais, e sim, com a imagem que fazem delas. É o mito de Narciso em sua plenitude que vai fazer da pessoa enamorada de sua imagem um doente. Narciso na mitologia, se enamorou de sua imagem na superfície de uma lago,e definhou, pois era impossível capturar o objeto virtual. Ele mesmo. E morreu por isso.

Podemos dizer ainda há certas pessoas que confundem amor com esta torrente que é a paixão. Na verdade os  adolescentes têm que descobrir essa comporta imensa que gera as paixões. A vida nos mostra que isso é diferente do amor, que nasce com a calma, tranquilidade e se desenvolve com duas pessoas imbuídas num pacto, onde o diálogo é necessário e seu resultado desenvolve uma maneira harmoniosa de relacionarmo-nos com o outro.

Vivemos num mundo onde  a banalização da palavra amor é o resultado de uma vida onde fatores objetivos colocaram  as emoções longe de seu panteão natural. E assim, crescemos envoltos numa espessa nuvem que cobre nossos olhos, por conta do medo, da insegurança, da competição a todo custo. Nunca o sexo, que deveria ser o resultado natural do amor, em sua forma corpórea e prazerosa, foi tão instigado, sendo usado com isso de exemplo a ser colocado em prática e desenvolveu-se um poderoso  marketing para satisfação de maneira a alijar os jovens de não se imiscuírem por causa da atração física. Amor é uma atitude global, nada compartimentada, e sim, para não dizerem que sou um caxias, tem no relacionamento íntimo um dos resultados, não somente um objetivo. Não somente o único objetivo.

O amor foi jogado para o escanteio dos relacionamentos. Seria melhor lermos o que acontece na vida das pessoas para raciocinarmos em função do objeto do amor, mas de forma conscientes para vivermos o amor em sua plenitude, sem querermos fazer-nos uma impropriedade em relação esta emoção que determina o que nós somos, para onde vamos e o que seremos. Ilusão? Não, estou sendo bem sincero, por conta própria, por experiência própria. E deveríamos falar na falta do amor, que geram o pior dos males; o ódio, o olho por olho, dente por dente. Este tipo de ação vai no extremo oposto do amor. Pode ser algo que inclua uma determinação quanto a um posicionamento em face da vida e das coisa. É na verdade um procedimento doente e que cria as consternações. O melhor do amor é como disse certa vez Paulo, em sua epístola( carta) aos Coríntios:” o amor é paciente, benigno, não quer o mal”. E se ficarmos longe do amor, poderíamos dizer, estaremos em uma nuvem que obscurece a alma e os sentimentos- sem a alegria de viver, de mal com o mundo- e consigo mesmo.


Dica da professora Kátia Rodrigues: http://katiamusic.blogspot.com/

domingo, 8 de abril de 2012

Eu, Ego, Mente e Consciência


É engraçado... A discussão aponta para um lado, mas a meu ver acerta em outro. Os budistas e taoístas dizem a mesma coisa que foi colocado como resultado dessa pesquisa à séculos. Só agora os cientistas acreditam que eles estão certos. Veja esses dois trechos: O primeiro retirado do corpo do texto e o segundo do livro "A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen":

"Em outras palavras: quando você para, pensa e toma decisões pontuais, tem a sensação de que um eu consciente e racional, separado do cérebro, segura as rédeas de sua vida. (...) A sensação de que existe um eu, que habita e controla o corpo, é apenas o resultado da atividade cerebral que nos engana."
***
“Como o disparo [com o arco e flecha] pode ocorrer, se não for eu que o fizer acontecer?’
‘Algo dispara’, respondeu-me.
‘Já ouvi essa resposta outras vezes. Modifico, pois, a pergunta: como posso esperar pelo disparo, esquecido de mim mesmo, se eu não posso estar presente?
‘Algo permanece na tensão máxima’.
‘E o que é esse algo?’
‘Quando o senhor souber a resposta, não precisará mais de mim. E se eu lhe der alguma pista, poupando-o da experiência pessoal, serei o pior dos mestres, merecendo ser dispensado. Por isso, não falemos mais! Pratiquemos!”.

Como se pode ver, não se trata de livre-arbítrio aqui, mas da verdadeira essência que nos forma e que não é o que se entende como ego/mente. É "Algo" que não temos como discernir conscientemente porque está além da consciência. Dizer que o Livre-arbítrio não existe está errado. "Algo" toma as decisões. O problema é como caracterizar esse "Algo" se ele está fora da consciência? Pergunte aos Zen-budistas e Taoistas, eles sabem, embora duvido que possam explicar com palavras...

***

O Livre-Arbítrio não Existe, Dizem Neurocientistas.
Por Aretha Yarak, da Revista Veja
Novas pesquisas sugerem que o que cremos ser escolhas conscientes são decisões automáticas do cérebro. O homem não seria, assim, mais do que um computador de carne. Como nem sempre é o caso com os temas filosóficos, a crença no livre-arbítrio tem reflexos bastante concretos no "mundo real"

São Paulo - Saber se os homens são capazes de fazer escolhas e eleger o seu caminho, ou se não passam de joguetes de alguma força misteriosa, tem sido há séculos um dos grandes temas da filosofia e da religião. De certa maneira, a primeira tese saiu vencedora no mundo moderno. Vivemos no mundo de Cássio, um dos personagens da tragédia Júlio César, de William Shakespeare.

No começo da peça, o nobre Brutus teme que o povo aceite César como rei, o que poria fim à República, o regime adotado por Roma desde tempos imemoriais. Ele hesita, não sabe o que fazer. É quando Cássio procura induzi-lo à ação. Seu discurso contém a mais célebre defesa do livre-arbítrio encontrada nos livros. "Há momentos", diz ele, "em que os homens são donos de seu fado. Não é dos astros, caro Brutus, a culpa, mas de nós mesmos, se nos rebaixamos ao papel de instrumentos."

Como nem sempre é o caso com os temas filosóficos, a crença no livre-arbítrio tem reflexos bastante concretos no "mundo real". A maneira como a lei atribui responsabilidade às pessoas ou pune criminosos, por exemplo, depende da ideia de que somos livres para tomar decisões, e portanto devemos responder por elas. Mas a vitória do livre-arbítrio nunca foi completa.

Nunca deixaram de existir aqueles que acreditam que o destino está escrito nas estrelas, é ditado por Deus, pelos instintos, ou pelos condicionamentos sociais. Recentemente, o exército dos deterministas – para usar uma palavra que os engloba – ganhou um reforço de peso: o dos neurocientistas. Eles são enfáticos: o livre-arbítrio não é mais que uma ilusão. E dizem isso munidos de um vasto arsenal de dados, colhidos por meio de testes que monitoram o cérebro em tempo real. O que muda se de fato for assim?

Mais rápido que o pensamento — Experimentos que vêm sendo realizados por cientistas há anos conseguiram mapear a existência de atividade cerebral antes que a pessoa tivesse consciência do que iria fazer. Ou seja, o cérebro já sabia o que seria feito, mas a pessoa ainda não. Seríamos como computadores de carne - e nossa consciência, não mais do que a tela do monitor.

Um dos primeiros trabalhos que ajudaram a colocar o livre-arbítrio em suspensão foi realizado em 2008. O psicólogo Benjamin Libet, em um experimento hoje considerado clássico, mostrou que uma região do cérebro envolvida em coordenar a atividade motora apresentava atividade elétrica uma fração de segundos antes dos voluntários tomarem uma decisão – no caso, apertar um botão. Estudos posteriores corroboraram a tese de Libet, de que a atividade cerebral precede e determina uma escolha consciente.

Um deles foi publicado no periódico científico PLoS ONE, em junho de 2011, com resultados impactantes. O pesquisador Stefan Bode e sua equipe realizaram exames de ressonância magnética em 12 voluntários, todos entre 22 e 29 anos de idade.

Assim como o experimento de Libet, a tarefa era apertar um botão, com a mão direita ou a esquerda. Resultado: os pesquisadores conseguiram prever qual seria a decisão tomada pelos voluntários sete segundos antes d eeles tomarem consciência do que faziam.

Nesses sete segundos entre o ato e a consciência dele, foi possível registrar atividade elétrica no córtex polo-frontal — área ainda pouco conhecida pela medicina, relacionada ao manejo de múltiplas tarefas. Em seguida, a atividade elétrica foi direcionada para o córtex parietal, uma região de integração sensorial. A pesquisa não foi a primeira a usar ressonância magnética para investigar o livre-arbítrio no cérebro. Nunca, no entanto, havia sido encontrada uma diferença tão grande entre a atividade cerebral e o ato consciente.

Patrick Haggard, pesquisador do Instituto de Neurociência Cognitiva e do Departamento de Psicologia da Universidade College London, na Inglaterra, cita experimentos que comprovam, segundo ele, que o sentimento de querer algo acontece após (e não antes) de uma atividade elétrica no cérebro.

"Neurocirurgiões usaram um eletrodo para estimular um determinado local da área motora do cérebro. Como consequência, o paciente manifestou em seguida o desejo de levantar a mão", disse Haggard em entrevista ao site de VEJA. "Isso evidencia que já existe atividade cerebral antes de qualquer decisão que a gente tome, seja ela motora ou sentimental."

O psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade da Vírginia, nos Estados Unidos, demonstrou que grande parte dos julgamentos morais também é feito de maneira automática, com influência direta de fortes sentimentos associados a certo e errado. Não há racionalização. Segundo o pesquisador, certas escolhas morais – como a de rejeitar o incesto – foram selecionadas pela evolução, porque funcionou em diversas situações para evitar descendentes menos saudáveis pela expressão de genes recessivos. É algo inato e, por isso, comum e universal a todas as culturas. Para a neurociência, é mais um dos exemplos de como o cérebro traz à tona algo que aprendeu para conservar a espécie.

A mente como produto do cérebro — Como o cérebro já se encarregou de decidir o que fazer – e o ato está feito —, é preciso contextualizar a situação. É aí que entra a nossa consciência. Ela também é um produto da atividade cerebral, que surge para dar coerência às nossas ações no mundo. O cérebro toma a decisão por conta própria e ainda convence seu 'dono' que o responsável foi ele.

Em outras palavras: quando você para, pensa e toma decisões pontuais, tem a sensação de que um eu consciente e racional, separado do cérebro, segura as rédeas de sua vida. Mas para cientistas como Michael Gazzaniga, coordenador do Centro para o Estudo da Mente da Universidade da Califórnia e um dos maiores expoentes da neurociência na atualidade, não existe essa diferenciação.

Segundo ele, somos um só: o que é cérebro também é mente. A sensação de que existe um eu, que habita e controla o corpo, é apenas o resultado da atividade cerebral que nos engana. "Não há nenhum fantasma na máquina, nenhum material secreto que é você", diz Gazzaniga, que, em seu mais recente livro, Who’s in Charge – Free Will and the Science of the Brain (Quem está no comando – livre-arbítrio e a ciência do cérebro, sem edição em português), esmiúça a mecânica cerebral das decisões.

Segundo Gazzaniga, o cérebro humano fabula o tempo todo. A invenção de pequenas histórias para explicar nossas escolhas seria uma maneira sagaz de estruturar nossa experiência cotidiana. Essa estrutura narrativa, segundo Patrick Haggard, tem um significado importante na evolução humana.

"Criar histórias sobre as nossas ações pode ser útil para quando nos depararmos com situações similares no futuro. É assim que iremos decidir como agir, relembrando resultados anteriores", diz. Ou seja, funcionamos na base do acerto e do erro, e da cópia do comportamento de pessoas próximas – principalmente nossos familiares. "Por isso a educação das crianças é tão importante. É um momento em que o cérebro absorve uma grande carga de informações e está sendo moldado, criando parâmetros para saber como se portar, como viver em sociedade."

Dúvidas — Em artigo publicado no periódico Advances in Cognitive Psychology, o pesquisador W. R. Klemm coloca em xeque a metodologia usada em diversos dos experimentos recentes da neurociência. Segundo Klemm, que é professor na Universidade do Texas e autor do livro Atoms of Mind. The 'Ghost in the Machine' Materializes (Átomos da mente. O fantasma da máquina se materializa, sem edição no Brasil) alguns estudos sugerem que não é possível medir com precisão o tempo entre o estímulo cerebral e o ato em si. O que poderia colocar abaixo toda a tese da turma de Gazzaniga.

O argumento principal do pesquisador, no entanto, recai sobre a generalização dos testes. "Não é porque algumas escolhas são feitas antes da consciência em uma tarefa, que temos a prova de que toda a vida mental é governada desta maneira", escreve no artigo. Klemm defende ainda a tese de que atividades mais complexas do que apertar um botão ou reconhecer uma imagem devem ser feitas de maneiras muito mais complexas. "Os experimentos feitos são muito limitados."

Ainda que as pesquisas estejam corretas, os próprios neurocientistas reconhecem que a ideia de um mundo sem livre-arbítrio provoca estranhamento. Eles se esforçam, sobretudo, para conciliar sua teoria com o problema da responsabilidade pessoal. "Mesmo que a gente viva em um universo determinista, devemos todos ser responsáveis por nossas ações", afirma Gazzaniga. "A estrutura social entraria em caos se a partir de hoje qualquer um pudesse matar ou roubar, com base no argumento simplista de 'meu cérebro mandou fazer isso'."

Para o cientista cognitivo Steven Pinker, a solução talvez seja manter a ciência e moralidade como dois reinos separados. "Creio que ciência e ética são dois sistemas isolados de que as mesmas entidades fazem uso, assim como pôquer e bridge são dos jogos diferentes que usam o mesmo baralho", escreve ele no livro Como a Mente Funciona. "O livre-arbítrio é uma idealização que torna possível o jogo da ética."

Continuaríamos, assim, a viver no mundo descrito por Cássio em Júlio César. "Há momentos em que os homens são donos de seu fado", diz ele. Neurocientistas como Pinker estão prontos a concordar com isso - desde que se entenda o livre-arbítrio como uma ilusão necessária para o jogo das leis e da ética - e desde que se ponha o cérebro o lugar dos astros, como o grande condutor de nossos atos.

Retirado de:





Leia mais sobre o Arqueiro Zen:

sábado, 7 de abril de 2012

Uma Benção Celta


“Que o caminho venha ao teu encontro.
Que o vento sopre sempre às tuas costas,
e a chuva caia suave sobre o teu campo.
e até que voltemos a nos encontrar,
que Deus te sustente suavemente
na palma de Sua mão.
Que vivas todo o tempo que quiseres,
e que sempre vivas plenamente.
Lembra sempre de esquecer
as coisas que te entristeceram,
e não esqueça de se lembrar
das coisas que te alegraram.
Lembra sempre de esquecer os amigos
que se revelaram falsos,
mas nunca deixes de lembrar
daqueles que permaneceram fiéis.
Lembra sempre de esquecer
os problemas que já passaram,
mas não deixes de lembrar
das bençãos de cada dia.
Que o dia mais triste do teu futuro,
não seja pior que o mais feliz do teu passado.
Que o teto nunca caia sobre ti,
e que os amigos debaixo dele nunca partam.
Que sempre tenhas palavras cálidas
em um anoitecer frio,
uma lua cheia em uma noite escura,
e que um caminho se abra sempre à sua porta.
Que vivas cem anos,
com um ano extra para arrepender-te.
Que o Senhor te guarde em Suas mãos,
e não aperte muito Seus dedos.
Que teus vizinhos te respeitem,
que os problemas te abandonem,
os anjos te protejam,
e o céu te acolha.
E que a sorte das colinas celtas te abrace.
Que as bençãos de São Patrício te contemplem.
Que teus bolsos estejam pesados,
e o teu coração leve.
Que a boa sorte te persiga,
e a cada dia e cada noite
tenhas um muro contra o vento,
um teto para a chuva,
bebida junto ao fogo,
risadas que consolem aqueles a quem amas,
e que teu coração se preencha
com tudo o que desejas.
Que Deus esteja contigo e te abençoe,
que vejas os filhos dos teus filhos,
que o infortúnio te seja breve
e que te deixe cheio de bençãos.
Que não conheças nada além da felicidade
deste dia em diante.
Que Deus te conceda muitos anos de vida.
Com certeza Ele sabe
que a Terra não tem anjos suficientes.
E assim seja a cada ano, para sempre! “

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Propaganda

Por Adorno & Horkheimer
Propaganda para mudar o mundo, que bobagem! A propaganda faz da linguagem um instrumento, uma alavanca, uma máquina. A propaganda fixa o modo de ser dos homens tais como’ eles se tornaram sob a injustiça social, na medida em que ela os coloca em movimento. Ela conta com o facto de que se pode contar com eles. No íntimo, cada um sabe que ele próprio será transformado pelo meio num outro meio, como na fábrica. A fúria que sentem quando se deixam levar por ela é a velha fúria dirigida contra o jugo, reforçada pelo pressentimento de que a saída indicada pela propaganda é uma falsa saída. A propaganda manipula os homens; onde ela grita liberdade, ela se contradiz a si mesma. A falsidade é inseparável dela. É na comunidade da mentira que os líderes (Führer) e seus liderados se reúnem graças à propaganda, mesmo quando os conteúdos enquanto tais são correctos. A própria verdade torna-se para ela um simples meio de conquistar adeptos para sua causa, ela já a falsifica quando a coloca em sua boca. Por isso, a verdadeira resistência não conhece nenhuma propaganda. A propaganda é inimiga dos homens. Ela pressupõe que o princípio segundo o qual a política deve resultar de um discernimento em comum não passa de uma façon de parler (maneira de falar).

Numa sociedade que sabiamente impõe limites à superabundância que a ameaça, tudo o que é recomendado a todos por outras pessoas merece desconfiança. A advertência contra a publicidade comercial, que chama a atenção para o facto de que nenhuma firma dá nada de graça, vale em toda parte e, depois da moderna fusão do mundo dos negócios com a política, vale sobretudo para esta. Quanto maiores os elogios, menor a qualidade; diferentemente de um Rolls-Royce, o Volkswagen depende ,da publicidade. Os interesses da indústria e dos consumidores não se harmonizam nem mesmo quando aquela tem algo de sério a oferecer. Até mesmo a propaganda da liberdade pode engendrar confusão, na medida em que deve necessariamente nivelar a diferença entre a teoria e os interesses particulares daqueles a quem se destina. O fascismo defraudou os líderes trabalhistas assassinados na Alemanha da verdade de sua própria aço, porque desmentia a solidariedade através da selecção da vingança. Quando o intelectual é torturado até a morte no campo de concentração, nem por isso os trabalhadores do lado de fora precisam passar pior. O fascismo não foi o mesmo para Ossietzky e para o proletariado. A propaganda enganou a ambos.

É bem verdade que o que é suspeito não é a representação da realidade como um inferno, mas a exortação rotineira a fugir dela. Se o discurso ainda pode se dirigir a alguém hoje, não é nem às massas, nem ao indivíduo, que é impotente, mas antes a uma testemunha imaginária, a quem o entregamos para que ele não desapareça totalmente conosco.


DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO - Fragmentos Filosóficos - 1947
(Dialektik der Aufklärung – Philosophische Fragmente) - Theodor W. Adorno e Max Horkheimer