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domingo, 26 de janeiro de 2014

De Repente

Por Elaine Matos
De repente tudo vai ficando tão simples que assusta.
A gente vai perdendo algumas  necessidades, antes fundamentais e que hoje chegam a ser insignificantes.
Vai reduzindo a bagagem e deixando na mala apenas as cenas e pessoas que valem a pena.
As opiniões dos outros são unicamente dos outros, e mesmo que sejam sobre nós, não têm a mínima importância.
Nada vai mudar.
De repente passamos a valorizar o que tem valor de verdade, e a amar de forma diferente de todas já vividas.
De repente vamos abrindo mão das certezas, pois com o tempo já não temos mais certeza de nada.
E de repente isso não faz a menor falta, pois o que nos resta é ser apenas feliz.
Percebemos que o hoje é apenas agora, e nada, absolutamente nada além disso.
Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado, mas sim a vida que cada um escolheu experimentar.
De repente não existe pecado, mas sim ponto de vista. 
O improvável passa a ser regra.
O extremo passa a ser meio termo, pois no dia a dia percebemos que nada é exato, e tudo chega a ser inconstante demais para ser determinante ou absoluto.
De repente o inverso vira verso.
Por fim entendemos que tudo que importa é ter paz e sossego.
É viver sem medo, e simplesmente fazer algo que alegra o coração naquele momento.
É ter fé. E só.
De repente a saudade se torna um sentimento devastador e descobrimos que o coração fala mais alto, então este sentimento único e profundo fica acima de qualquer razão.
De repente tentamos compreender sentimentos, jamais compreensíveis aos olhos de outras pessoas.
Descobrimos o verdadeiro valor da verdade e com ela chega a plena certeza de que ter dignidade, transparência e retidão de caráter são qualidades obrigatórias para se viver bem com os outros, com o mundo e, principalmente, consigo mesmo.
De repente descobrimos que os planos traçados e escolhidos por nós são unicamente nossos, pois de repente, em meio aos nossos planos, chegam as escolhas de Deus.

Elaine Matos é Jornalista, Publicitária e Radialista (elaine@cbanoticias.com)

Retirado de: http://www.cbanoticias.com/web/index.php/artigos/2266-de-repente

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre Ler

"Ler é amarrar-se a outras circunstâncias e fraternizar-se com ela.
Ler é tomar fôlego, face aos mistérios e enigmas que configuram o direito à vida.
Ler é resignar-se diante da democracia do tempo que corre sempre.
Ler é descobrir-se na experiência do outro.
E, muito mais, ler é experimentar os deslimites da liberdade e equilibrar-se no mundo, tomando como alicerce as sutilezas das divergências.
Ler é o preço que pagamos por sermos alfabetizados.
Ter em mãos o livro literário é defrontar-se com o desequilíbrio.
É bom que assim seja.
Capaz de inaugurar reflexões a literatura nos estimula a buscar outros prumos, a perseguir outras ilusões, a nos dobrarmos sobre nossos limites, e descobrir a fragilidade como sendo a nossa condição possível.
É certificar-se de que são muitos os significantes.
Ter em mãos um livro é inscrever-se nas orações que configura o texto literário.
Ler é povoar o silêncio, é reconhecer-se como um ser propício a solidão, que procura encontros, coesões, laços."
(Bartolomeu Campos de Queirós)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

As Ideias Dominantes Numa Época são da Classe Economicamente Dominante

Para Marx não há verdades eternas ou metafísicas que percorram a história das sociedades humanas à margem das transformações que a vida dos homens sofre.
Todas as ideias que os homens produzem são «acontecimentos históricos», resultam de uma evolução histórica: são dominantes numa determinada época e deixam de o ser noutra, estando intimamente ligadas à evolução das condições concretas de vida dos homens.
Vimos acerca das duas dimensões essenciais de uma sociedade que a infraestrutura (a base econômica ou real) condicionava a superestrutura (as formas de consciência, as ideias, os valores).
Aquilo que os homens pensam acerca de si, da sociedade e do mundo é influenciado pelas suas condições materiais ou econômicas, pelo modo como estão inseridos nas relações de produção que se dão numa sociedade historicamente determinada.
Ao longo da história e excetuando uma fase incipiente — o comunismo primitivo — as relações de produção têm sido relações de desigualdade econômica. A evolução econômica das sociedades — a passagem de um modo de produção a outro — está na origem da divisão da sociedade em classes
As classes são grupos de indivíduos com interesses econômicos antagônicos que, no interior das relações de produção, possuem um estatuto diferente a respeito da propriedade dos meios produtivos: a classe economicamente dominante num certo modo de produção é aquela que possui a propriedade privada dos meios produtivos, negando assim à outra esse estatuto.
Assim, no modo de produção feudal — essencialmente agrícola — a classe economicamente dominante é aquela que possui a fonte produtora de riqueza: a terra. Essa classe é a nobreza.
Em geral, aqueles que não possuem esse meio produtivo por excelência estão reduzidos à servidão.
Se passarmos do modo de produção feudal ao modo de produção capitalista — essencialmente industrial — a classe economicamente dominante é aquela que possui em exclusivo os meios de produção de riqueza (fábricas, minas, máquinas, meios de transporte, etc).
O que há de comum entre estas duas classes, entre a nobreza feudal e a burguesia industrial? O que aproxima duas classes cujo domínio se exerceu em épocas diferentes (a burguesia mediante a revolução industral retirou à nobreza o seu estatuto de classe dominante)?
Quem possui os meios de produção pode pôr ao seu serviço, submeter à sua vontade e ao seu interesse, aqueles que, não os possuindo, se veem obrigados para sobreviver a vender ou alienar a sua força de trabalho.
A classe economicamente dominante, em determinada época, tem sempre ao seu dispor um grande número de homens cujo trabalho não só lhe garante a subsistência e a riqueza como também a deixa disponível para um outro tipo de produção que não a material: a produção intelectual.
Por outras palavras, certos membros da classe economicamente dominante, libertos da necessidade de se empenharem na produção material da sua vida, podem dedicar-se ao trabalho intelectual, à elaboração de teorias ou doutrinas acerca do mundo, da sociedade, do homem, etc.
Por isso não é de admirar que Marx denuncie que as ideias dominantes numa determinada época são as ideias da classe economicamente dominante, ou seja, que quem controla os meios de produção material exerce o seu domínio sobre a produção mental ou intelectual. E porquê denunciar tal fato?
Porque as doutrinas ou concepções da classe dominante são apresentadas como se não fossem suas, isto é, como se fossem universais ou não condicionadas por interesses particulares. Os produtores dessas ideias dão-nos a impressão de falar em nome da razão humana universal.
Segundo Marx devemos suspeitar desta aparente objectividade. Com efeito, nessas doutrinas ou teorias pretensamente autónomas ou objectivas, os intelectuais da classe dominante, muitas vezes sem disso terem explícita consciência, exprimiam o interesse da classe a que pertenciam.
Tais ideias, apresentadas, consciente ou inconscientemente, sob o disfarce de leis da natureza e de princípios morais e religiosos absolutos (imutáveis, como se não tivessem história), tendem a ser encaradas como verdades eternas pelos próprios oprimidos.
Segundo Marx, elas refletiam os interesses econômicos e políticos da classe dominante. Apresenta--se o interesse da classe dominante como verdade natural, universal ou absoluta. Qual o objetivo?
Nega-se idealmente a razão de ser dos conflitos e contradições existentes numa sociedade determinada, fomentado-se assim uma atitude conformista em relação ao estado de coisas vigente.
Não dizia Aristóteles que uns homens nascem para mandar e outros para serem mandados?
Não refletirá esta ideia os interesses econômicos da classe dominante que vivia do trabalho de escravos?
O mesmo Aristóteles afirma que o ideal de vida próprio do homem é a vida contemplativa. Esta ideia, conjugada com a anterior, traduz o desprezo pelo trabalho manual, considerado como condição natural ou destino de homens inferiores.
Quer Aristóteles disso tivesse consciência ou não, estava no plano das ideias a traduzir o interesse da classe dominante em perpetuar uma organização social fundada no modo de produção escravagista.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Podemos Seguir Pelo Caminho Espiritual e Continuarmos com as Atividades da Vida Diária?

É um vulgar falso conceito no Ocidente achar que orientação espiritual significa o abandono de tudo que a gente fazia anteriormente.
A inverdade disto é brilhantemente ilustrada pela vida de Lahiri Mahasaya, um grande sábio da índia do século XIX. Ele trabalhou grande parte de sua vida como ferroviário, mesmo depois de ter atingido total iluminação e união com o Ego. Passava as noites em profunda meditação, harmonizando-se com a Consciência Cósmica, enquanto passava as horas do dia, sem lamúrias, num pequeno escritório de estrada-de-ferro, realizando suas atividades interiores e as do mundo exterior.
A mensagem do Oriente, a que se deveria dar atenção no Ocidente, é esta: quando estás espiritualmente orientado/libertado, podes continuar fazendo parte do fluxo dos acontecimentos, vivendo o dia-a-dia, mas serás menos afetado pelas marés da emoção que estão necessariamente vinculadas à maioria das ações humanas.
No estado egocêntrico, a tensão e a ansiedade resultam em mal-estar e angústia. Para mitigar esta angústia, vamos buscar alívio nas distrações. As distrações dão alívio temporário, mas de nada servem para livrar-nos do mal-estar que retoma sempre que outra situação nos angustia. Vagando nesse oceano de experiências com as suas ondas de atividades egocêntricas, experimentamos repetidos períodos de sofrimento, seguidos de períodos de alívio temporário.
O Caminho Espiritual é um modo de prolongar a paz de espírito através da libertação das emoções que produzem tensão. As pessoas espiritualmente orientadas não se rendem aos sentimentos de ansiedade ou desespero, sabendo que se trata de estados de espírito negativos, egocêntricos, que consomem energia e desviam a nossa atenção na busca da paz de espírito.
O que podemos aprender dos sábios do Oriente pode auxiliar-nos a escapar da desordem dos constrangimentos mentais, permitindo-nos refletir sobre as razões do nosso sofrimento.
Há várias abordagens, filosofias e religiões no Oriente, mas a iluminação e a libertação constituem as metas do caminho espiritual. Todos os caminhos verdadeiros são o Caminho e levam, quem os procura, ao mesmo estado de espírito e à Pura Luz Radiosa da Consciência Universal.

(A Sabedoria do Oriente, Ellen Kei Hua, Ediouro, 1982)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sobre Aceitação e Rejeição

Ser rejeitado ou aceito é uma coisa. Sentir-se rejeitado ou aceito, apegar-se à ideia de rejeição ou de aceitação, já é outra coisa bem diferente. De tudo isso, somos forçados a concluir que os sentimentos de rejeição ou de aceitação não passam de estados mentais sobre determinadas realidades. O que aprofunda o dualismo, o conflito entre o sujeito e o objeto. Entre a coisa ou o fato e o que pensamos e sentimos.
Se uma pessoa não gosta de mim, isto é um fato que está no eu dessa outra pessoa, não em mim. É a outra pessoa, não eu. Agora, quando eu sinto em mim e não gostar do outro, quando me aborreço com o fato de outro tira gostar de mim, aí meus sentimentos passam a existir em função dos sentimentos do outro. E o mesmo com relação ao fato de um outro gostar de mim.
Como, por conta própria, não temos muita certeza se somos ou não o que imaginamos ser, precisamos da aceitação dos outros para confirmar. Daí a necessidade de nos apegarmos ao sentimento de rejeição ou de aceitação. E quanto mais o homem cultiva o seu eu, se fecha em si mesmo, mais ele tem a necessidade de ansiar pelo aplauso e de temer a vaia. Porque ao se apegar demais a si mesmo, só pensar em si mesmo, o homem está ao mesmo tempo procurando uma definição para o seu ser.
Quem se fecha em si mesmo não é, como parece, alguém que não liga para a opinião dos outros, mas quem está mais necessitado dela.
Se não tivermos na mente as ideias contraditórias de aceitação e rejeição, seremos aceitos por quem tiver necessidade de nos aceitar e rejeitado por quem tiver necessidade de nos rejeitar. Só isso.
Somos aceitos ou rejeitados de acordo com circunstancias determinantes e não porque sejamos essencialmente uma entidade aceitável ou rejeitável. Mas seremos entidades aceitáveis ou rejeitáveis se colarmos em nós esses rótulos. É sabido que uma pessoa apegada a ideia de rejeição induz os outros a rejeitá-la
Quando temos, a priori, o conceito de sermos rejeitados, nos fica difícil compreender a realidade circunstancial da rejeição.


(Nelson Coelho, Zen: Experiência Direta de Libertação, Editora Itatiaia, 1978.)