Seguidores

terça-feira, 19 de junho de 2012

Degraus da Ilusão


Por Lya Luft
Fala-se muito na ascensão das classes menos favorecidas, formando uma “nova classe média”, realizada por degraus que levam a outro patamar social e econômico (cultural, não ouço falar). Em teoria, seria um grande passo para reduzir a catastrófica desigualdade que aqui reina.

Porém receio que, do modo como está se realizando, seja uma ilusão que pode acabar em sérios problemas para quem mereceria coisa melhor. Todos desejam uma vida digna para os despossuídos, boa escolaridade para os iletrados, serviços públicos ótimos para a população inteira, isto é, educação, saúde, transporte, energia elétrica, segurança, água, e tudo de que precisam cidadãos decentes.

Porém, o que vejo são multidões consumindo, estimuladas a consumir como se isso constituísse um bem em si e promovesse real crescimento do país. Compramos com os juros mais altos do mundo, pagamos os impostos mais altos do mundo e temos os serviços (saúde, comunicação, energia, transportes e outros) entre os piores do mundo. Mas palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir, somos convocados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas.

Além disso, a inadimplência cresce de maneira preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.


"Somos convocados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas" (Foto: VEJA.com)
Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneira impiedosa, até cruel. Em lugar de instruírem, esclarecerem, formarem uma opinião sensata e positiva, tomam novas medidas para que esse consumo insensato continue crescendo – e, como somos alienados e pouco informados, tocamos a comprar.

Sou de uma classe média em que a gente crescia com quatro ensinamentos básicos: ter seu diploma, ter sua casinha, ter sua poupança e trabalhar firme para manter e, quem sabe, expandir isso. Para garantir uma velhice independente de ajuda de filhos ou de estranhos; para deixar aos filhos algo com que pudessem começar a própria vida com dignidade.

Tais ensinamentos parecem abolidos, ultrapassadas a prudência e a cautela, pouco estimulados o desejo de crescimento firme e a construção de uma vida mais segura. Pois tudo é uma construção: a vida pessoal, a profissão, os ganhos, as relações de amor e amizade, a família, a velhice (naturalmente tudo isso sujeito a fatalidades como doença e outras, que ninguém controla). Mas, mesmo em tempos de fatalidade, ter um pouco de economia, ter uma casinha, ter um diploma, ter objetivos certamente ajuda a enfrentar seja o que for. Podemos ser derrotados, mas não estaremos jogados na cova dos leões do destino, totalmente desarmados.

Somos uma sociedade alçada na maré do consumo compulsivo, interessada em “aproveitar a vida”, seja o que isso for, e em adquirir mais e mais coisas, mesmo que inúteis, quando deveríamos estar cuidando, com muito afinco e seriedade, de melhores escolas e universidades, tecnologia mais avançada, transportes muito mais eficientes, saúde excelente, e verdadeiro crescimento do país. Mas corremos atrás de tanta conversa vã, não protegidos, mas embaixo de peneiras com grandes furos, que só um cego ou um grande tolo não vê.

A mais forte raiz de tantos dos nossos males é a falta de informação e orientação, isto é, de educação. E o melhor remédio é investir fortemente, abundantemente, decididamente, em educação: impossível repetir isso em demasia. Mas não vejo isso como nossa prioridade.

Fosse o contrário, estaríamos atentos aos nossos gastos e aquisições, mais interessados num crescimento real e sensato do que em itens desnecessários em tempos de crise. Isso não é subir de classe social: é saracotear diante de uma perigosa ladeira. Não tenho ilusão de que algo mude, mas deixo aqui meu quase solitário (e antiquado) protesto.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A História do Bolo de Aniversário


Por Rodrigo Cavalcante
Celebrar uma data importante com direito a guloseimas tem sua provável origem nas festas de culto aos deuses da Antiguidade. Agradeça à deusa Ártemis, celebrada pelos gregos como a matrona da fertilidade, pelo aparecimento do bolo de aniversário. Ele é provavelmente a evolução de um preparado de mel e pão, no formato de uma lua, que fiéis levavam ao famoso templo em homenagem a ela em Éfeso, antiga colônia grega na atual Turquia.

Há especialistas que defendem outra teoria. Segundo ela, a tradição surgiu na Alemanha medieval, onde se costumava preparar uma massa de pão doce no formato do menino Jesus no Natal. Depois essa guloseima seria adaptada para a comemoração do aniversário de crianças.

Já o uso de velas também teria sido herdado do culto aos deuses antigos, que tinham a missão de levar, por meio da fumaça, os desejos e as preces dos fiéis até o céu, para que eles fossem atendidos.

Mas e as festas de aniversário? Até hoje, não se sabe a data exata de quando os nascimentos começaram a ser celebrados. Ainda nos dias atuais, a comemoração é um costume ocidental nem sempre seguido por outros povos. No Vietnã, por exemplo, os aniversários não são comemorados individualmente no dia do nascimento – e sim coletivamente, no ano-novo vietnamita, que segue o calendário lunar e acontece, em geral, entre os nossos 21 de janeiro e 9 de fevereiro.

Embora não saibam exatamente quando a tradição surgiu no Ocidente, os historiadores sabem que a festa já era conhecida na Antiguidade. “Os romanos não apenas comemoravam o dia do nascimento como tinham um nome para a festa: dies sollemnis natalis”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas. “Há, por exemplo, um registro do século 2 em que uma cidadã chamada Cláudia Severa convida sua amiga Sulpícia Lepidina para a comemoração”, diz.

Outra tese que reforça a idéia de que foram os romanos os difusores dessa tradição é a existência de túmulos que registram com precisão o número de anos, meses e dias no sarcófago – o que indica que eles sabiam o dia exato do nascimento do sujeito. “Eles também comemoravam outros aniversários, como o da fundação de Roma, em 21 de abril”, diz Funari.

Retirado de:

domingo, 17 de junho de 2012

O Inferno e o Marketing do Eu

Por Luiz Felipe Pondé
Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19.

Pergunta o mais jovem: "O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia".

O mestre teria respondido algo assim: "Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo".

Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, "oficialmente", com o Rabi Baal Shem Tov, que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.

A palavra "hassidismo" é muito próxima do conceito de "Hesed", piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai ("Senhor", termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que "encarnou" em Jesus, para os cristãos).

Hassídicos eram conhecidos como "bêbados de Deus", enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em grandes quantidades para brindar a vida...) que escorre dos céus para aqueles que a veem.

São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais.

Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes "heróis" da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como "régua".

A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo.

Não se trata de pensar em bobagens do tipo "Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo" como pensaria o "modo brega autoestima de ser", essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso "eu" ou nossa "alma" é nosso maior desafio.

Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são.

Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da "moral da história" neste conto.

Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: "O inferno". Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: "Eu, eu, eu...".

Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do "marketing do eu".

Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada.

Só quem perdeu a esperança de ser virtuoso deveria falar sobre moral.

Abril de 2012

sábado, 16 de junho de 2012

Quando as Mulheres se Apaixonam por Idiotas


Por Vanessa
Hoje quando estava cumprindo tarefas de dona-de-casa na rua (por exemplo, pagamento de conta de água) a rádio do momento foi a Joven Pan, especificamente, o Programa Pânico. O entrevistado do dia foi Marcelo Puglia jornalista e escritor. Achei o tema pra láde interessante e o papo rolou em torno de uma das obras do mesmo – Me Apaixonei por Um Idiota – Manual de Sobrevivência para Mulheres que Amam o Homem Errado. A obra tem 104 páginas, custa em torno de R$ 18,90, pela Editora Matrix. (não estou ganhando um centavinho pela propaganda)

Assim que fiquei on-line novamente fui garimpar informações a respeito do autor e do tema. E o que descobri? Que o Jornal Diário da Manhã, de Goiânia, de 08/08/09 publicou uma matéria assinada por Flávia Guerra a respeito do Marcelo Puglia e seu mais recente livro.

Em resumo, a jornalista diz que o livro Me Apaixonei por Um Idiota – Manual de Sobrevivência para Mulheres que Amam o Homem Errado, é uma espécie de guia divertido e bem-humorado para as mulheres que querem se manter afastadas dos tipos, digamos, não tão legais assim.

Na obra de Puglia, o idiota é definido, resumidamente, como o tipo de homem errado que arrasa a vida de uma mulher. Um indivíduo que ama muito, a ponto de impedir que ela respire; ou que pensa que, sópor ter dinheiro, pode comprar o sentimento; ou aquele que acredita que o amor vai apenas até o dia da conquista e não se importa com o que vem depois. Motivo é o que não falta. Entre outras coisas, é um cara que não ama a mulher como deveria, explica Marcelo. De forma cômica, Puglia afirma existir mulheres que parecem ter ímãs que as atraem para relacionamentos com pessoas desse naipe, assim como as que caem de amores por homens casados ou se metem em amores impossíveis.

O grande problema, no entanto, não está em se apaixonar por um idiota e sim em deixar de gostar dele. Segundo o autor, esquecer é um processo difícil e demorado. De acordo com seus conselhos, em primeiro lugar, a mulher tem que mudar por completo e assumir o comando sobre si mesma. Além disso, é importante não ter recaídas, não ligar para saber onde o ex está, não ir nos lugares que frequentavam juntos e, principalmente, perceber que perder um grande amor não significa perder a capacidade de amar.
A matéria completa está aqui.

Calma, ainda não terminou o post. Em outra matéria, “O amor é cego”, a jornalista Flávia Guerra continua a citar Marcelo Puglia. Onde, segundo ele, o tipo de idiota varia de acordo com fatores como idade, condição econômica e social, se solteiro ou casado.”Os idiotas extrovertidos falam alto, fazem questão de aparecer, os casados mentem, os que querem só sexo fazem de tudo para levá-la pra cama e depois nunca mais aparecem”, exemplifica.

As dicas de Marcelo Puglia para identificar os tipinhos mais comuns:

Idiota da internet – Muito comum nos dias atuais. Ele promete tudo, fala tudo o que uma mulher quer ouvir, a deixa se apaixonar, se aproveita da mulher carente, mesmo que ela esteja no Brasil e ele na Austrália. Tudo isso apenas por dois motivos: um para saciar seu ego de conquistador (principalmente quando estão longe) e o outro para conseguir sexo barato e sem complicações (é muito fácil sumir ou deletá-la do MSN).

Idiota louco por sexo – Um clássico, não se importa em machucar e usar a mulher. É aquele que faz de tudo por ela, mas apenas até o momento em que a leva pra cama. Depois disso, ele some.
Idiota casado – Ele não é idiota por ser casado, e sim por ocultar sua condição matrimonial. Claro que a mulher que saicom um cara casado pensando que um dia vai deixar a mulher e ficar com ela, também tem um pouco de idiota.

Idiota trabalhador – Este homem é tão idiota que acredita que quanto mais trabalha, mais coisas materiais consegue, maior será a sua felicidade e a da sua família. Estes idiotas não têm presente, apenas futuro, e não percebem que, continuando assim, serão um passado muito fácil de esquecer. Mulheres que se envolvem ou casam com idiotas que trabalham muito geralmente têm um amante. Quem é o idiota agora?

Idiota cheio de amigos – Este tipo de idiota tem namorada, mas não percebeu. Não há diferença na vida que levava quando era solteiro e a nova vida ao seu lado. Normalmente este tipo de idiota acaba sozinho, sem amigos e sem namorada.
  
Idiota dependente – Este é muito comum, principalmente depois que casa. Não sabe onde fica nada, pergunta para a mulher onde está o gelo, cadê as meias, onde fica o banheiro. Dá a impressão de que o casamento transforma os homens em idiotas totais.
  
Idiota conquistador – Um dos mais perigosos, este idiota deixa a mulher apaixonada e depois que a conquista a deixa a ver navios. São lindos, interessantes, engraçados. Não medir consequências na hora da conquista os transforma em idiotas.
A matéria completa está aqui.

E para finalizar o post, abaixo algumas características da sua personalidade que podem apontar certa tendência a se apaixonar por homens errados. Caso se reconheça…

* Carente
* Sozinha ou casada há muito tempo
* Com baixa autoestima, não se sente atraente, inteligente, simpática…
* Ama ser o centro das atenções
* Muito romântica
* Pouca experiência afetiva/sexual
* Sem vida social
* Vive para os outros (pais ou filhos)
* Adora se colocar no papel de vítima
* Prioriza a beleza externa em detrimento da interna
* Acredita que o dinheiro pode comprar a felicidade

Fonte:

Marcelo Puglia ainda escreveu “Mulheres que se apaixonam por homens comprometidos”e “Tudo o que você queria saber sobre uma amante e tinha medo de perguntar”.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os Tipos de Cafajeste


Por Fabricio Carpinejar
De cara, ele pode parecer irresistivelmente sedutor. Mas o modo de agir nem sempre é o mesmo, embora um único rótulo seja usado para classificar qualquer homem com tendências a praticar canalhices. Para ajudar a enxergar os sinais de perigo antes mesmo de você se envolver e se machucar, conheça os diferentes perfis desse tipo

A tese pode não ter comprovação científica, mas a observação dos amores da vida real indica que é verdadeira: homens ao estilo gente boa, atenciosos e dedicados não despertam tantas e tão acaloradas paixões quanto os que têm ares de aventureiro indomável e deveriam trazer escrito na testa 'Pouco confiável'. Jovem ou madura, quase toda mulher tem ao menos um romance-encrenca para contar. É que a lista de razões que faz a preferência feminina recair sobre o homem-roubada é extensa.

Para começar, o tipo cafajeste é realmente sedutor -e, se nossa autoestima estiver baixa e a carência, alta, ele vai parecer ainda mais irresistível. 'O cafajeste é propaganda enganosa', diz Fabricio Carpinejar, autor do livro de crônicas 'Canalha!' (ed. Bertrand Brasil). Para ele, a mulher que se deixa levar pelo 'cafa' é carente e pouco exigente. 'Como ele cria um papel, e certamente será desmascarado, procura as ingênuas. Assim, a farsa dura mais.'

Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de livros como 'Coroas - Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade' (ed. Record), esse tipo é competente para satisfazer o desejo de toda mulher de ter um homem que a faça se sentir única e insubstituível. 'O cafajeste conhece a técnica de sedução para conseguir que tanto a esposa quanto a amante, ou várias namoradas, acreditem que são 'o amor da vida dele'', afirma Mirian. Ainda que alguma delas note pistas de que ele não está sendo sincero, é quase certo que se apegue à ideia de que 'comigo, vai ser diferente, meu amor irá mudá-lo'. Um erro. 'Só mudarão os falsos cafajestes', diz a psiquiatra e psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen, autora de 'A Violência no Casal' (ed. Bertrand Brasil). 'O verdadeiro não pode ser transformado porque tem necessidade de esmagar o outro para existir.'

Até o rótulo de cafajeste, um tanto genérico, contribui para sermos atraídas para emboscadas. Acontece que os 'cafas' não seguem um único script. Ao contrário, podem assumir diferentes personagens, tornando mais difícil desmascará-los antes de o estrago estar feito. Como medida preventiva, confira suas várias faces. Talvez dê para enxergar o sinal amarelo a tempo de frear na próxima vez em que um deles cruzar o seu caminho.

O insensível
Ele é como um marinheiro, em constantes viagens pelo mundo. Não quer envolvimento, apenas curtir momentos ao lado de uma mulher, sempre com o olhar voltado para o horizonte, já pensando no próximo porto. Existe alguém mais irresistível do que esse aventureiro insensível, cheio de histórias e perfumes de diferentes lugares, com o dom de desaparecer antes mesmo de o romance ter começado? Ele pode ser visto como um cafajeste, mas também como um herói. O problema é que só trabalha em causa própria. Você sofre porque ele some justamente quando está apaixonada e envolvida. O que ele pode fazer, se nunca lhe prometeu nada e o amor nem é o seu objetivo? No fundo, não há como censurá-lo.

Por que ele é assim? Pode ser que esteja se protegendo do amor ou que esse sentimento não lhe diga nada. 'Para dar e receber amor, é preciso, antes de mais nada, ter essa cultura', diz o psiquiatra francês Serge Hefez. 'Isso significa ter sido amado o suficiente quando criança. Mas, frequentemente, esses homens nem sabem o que é o amor. Alguns estão absorvidos demais em si mesmos, outros estão apenas em busca de qualquer coisa que os leve embora. Nos dois casos, a relação de amor é vista como perigosa, pois ameaça seu egocentrismo ou freia suas aventuras.'

O predador
Consumista, enxerga as mulheres expostas em uma arara e com uma data de validade que raramente ultrapassa um fim de semana. Ama o romance pronta-entrega e pode até ser grosseiro ou agressivo ao receber uma recusa. Acha-se irresistível e seduz com frases do tipo 'Eu sinto algo especial entre nós'. Gosta de ostentar, coleciona cartões de crédito e ama espelhos no quarto para se ver em ação. Ele 'caça' mesmo acompanhado e é capaz de trair sua mulher com a melhor amiga dela. Nos sites de relacionamento, procura variados perfis (ou seja, qualquer uma) e está sempre disposto a fazer promessas de amor eterno.

Por que ele é assim? Tem a autoestima baixíssima e, por ser desprovido de amor-próprio, trata suas mulheres com o mesmo desprezo. Como inconscientemente acredita não merecer quem seduz, sabota a relação. Mas há outra possibilidade: amar não é sua prioridade. Já que as ambições profissionais e/ou sociais ocupam todo o seu tempo, o sexo sem envolvimento basta para ele.

O dominador
Sufoca, esmaga e destrói. É o ás das críticas e, na intimidade ou em público, sabe desvalorizar sua mulher como ninguém. Os três quilos perdidos são 'comemorados' com a desagradável frase 'Você não tem mais peitos'. Convencido de que é um erudito, impõe seu ponto de vista como se fosse um especialista, seja qual for o tema em pauta, de geopolítica a coloração de cabelos. A parceira acaba se anulando e desenvolvendo ferrenha autocensura.

Por que ele é assim? 'Sua sobrevivência psíquica parece estar ligada à depreciação dos outros. Ele é como alguém que se afoga e esmaga a cabeça do seu salva-vidas para sobreviver', compara a terapeuta comportamental Isabelle Nazaré-Aga, da França. Ao oprimir o outro, ele se sente poderoso. Não raro, esse homem se acha a parte inferior do casal, seja porque seu trabalho é menos valorizado e ele ganha menos ou porque seu grau de instrução é menor do que o da parceira.

O narcisista
Charmoso e cativante até o momento em que você cometer o 'erro' de ter problemas. Diante de depressão, doenças, dificuldades no trabalho, desemprego e afins, ele sai pela tangente. É que ele não suporta qualquer coisa que possa provocar máculas à própria imagem e sonha em formar um casal tão perfeito que faria o Ken e a Barbie morrerem de inveja. Então, se você não está mais em forma -ou, pior, ele julga que nunca esteve-, 'procurará outro alguém com quem poderá passar uma imagem que lhe permita continuar em seu pedestal', diz Marie-France.

Por que ele é assim? 'Espera que o casal cure seu mal-estar interior. O que oferece não é nada além de um amor narcisista e é difícil distinguir a adoração do ser amado da adoração de si mesmo', afirma Marie-France. Hefez completa: 'Ele não tem autoestima devido a decepções precoces. Mal-amado, não-amado, rejeitado, o que resta senão amar a si mesmo?'

O medroso
O amor é encarado como contratempo. Pode se mostrar atencioso, amável, feliz em interagir com seus amigos e sempre disposto a fazer declarações. Mas, quando perceber que você está pronta a transformar o 'eu' em 'nós', entrará em pânico e se tornará distante ou sumirá. Recusará (por e-mail!) até os programas que ele mesmo planejou com você. Pode até cancelar um casamento marcado. Você não poderá fazer nada, pois o problema é com ele mesmo.

Por que ele é assim? 'Tem medo de se perder e ser engolido pelo amor, de ser abandonado ou traído', afirma Marie-France. 'Sua infância não o permitiu elaborar bases suficientemente sólidas para que seu narcisismo aceite que amar é também correr o risco de sofrer. Como as relações afetivas não oferecem garantias, alguns preferem fugir. Outros se tornam agressivos para mascarar o menininho amedrontado dentro dele.'

O mentiroso
Nunca sabe o nome do hotel que esteve agora há pouco nem lembra seu número de telefone para avisar que vai demorar. Quando muito, é possível alcançá-lo no celular. Se você o questiona sobre as reuniões repentinas aos domingos, ele contra-ataca: 'Para fazer uma pergunta dessas, você deve ter algo a esconder!' Marie-France analisa: 'Seu objetivo é sempre estar por cima. Assim, desestabiliza a mulher e a leva a duvidar da veracidade daquilo que acaba de acontecer ou de ser dito.'

Por que ele é assim? Porque funciona para ele. Esse homem ama a si mesmo e seu único objetivo é o próprio conforto, por isso adapta os cenários às suas necessidades. Pouco importa o que o outro sente. Ele construiu uma imagem negativa das mulheres, que vê como poderosas, logo perigosas. Então, na presença delas, se sente subjugado e reage.

O desapegado
Mantém rígido controle sobre si e não gosta de se arriscar. Você sempre o leva para casa (nunca cogitam ir à dele) ou a um hotel e ele parte às 3h sem explicações, cafés da manhã a dois ou aparições em público. Nunca a apresenta aos amigos nem quer conhecer os seus. Jamais tiram férias juntos. Apaixonada, você nem percebe. Até ele desaparecer.

Por que ele é assim? 'O amor é visto como uma complicação a mais em um mundo já difícil e ele prefere ficar na esfera confortável das relações sem amanhã', analisa Marie-France. Outra possibilidade: ele idealiza demais e, como encontrar a perfeição é impossível, seus relacionamentos são sempre mornos. 'Ele vive inconscientemente o fracasso de suas relações como se isso fosse benéfico, pois seus fantasmas e ilusões continuam intactos', diz a psicanalista francesa Sophie Cadalen.

O adolescente
Não quer crescer e abandonar os maus hábitos que aprendeu com a mamãe. Mesmo que esteja comprometido, ele continuará a se ver como um garoto solteiro. Seus amigos são sua prioridade e, tranquilamente, a abandonará um fim de semana inteiro por qualquer diversão com eles. Colocará sempre os pés na mesa e nunca os pratos na pia. O problema é que ele a vê como mamãe-empregada-gueixa.

Por que ele é assim? Foi criado com a ideia de que 'mulheres devem servir aos homens, consolá-los e dar-lhes estabilidade', diz Marie-France.

O perverso
Atencioso no começo faz com que se sinta 'a eleita'. Como sabe fingir reciprocidade, logo a deixa viciada nele. Mas, quando você mostra que foi fisgada, seu comportamento muda. Apenas na intimidade. A sós, ele destrói sua autoconfiança, mina suas certezas, alimenta suas culpas. Em público, continua agindo como um perfeito príncipe. É sua tática para mantê-la isolada. O que adianta desabafar se ninguém acreditará em você?

Por que ele é assim? 'Recusar-se a ter uma comunicação direta é sua grande arma. A mulher se vê obrigada a fazer exigências e dar respostas que a levam a cometer erros. E ele sempre enfatiza esses erros para lembrar sua nulidade', avalia Marie-France. Resultado: a parceira se sente esvaziada, idiota e sozinha. O tipo é destrutivo e não sabe ser de outra forma. 'Normalmente, foi machucado na infância e tenta sobreviver da forma como aprendeu. Para muitos, é impossível não associar o amor ao ódio.

Retirado de: