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domingo, 20 de novembro de 2011

O Tao Te Ching e o Wu-Wei



Se entendermos bem a natureza das coisas e conseguirmos esquecer tudo o que aprendemos que tenta ir contra ela, conseguimos fazer tudo o que é possível, com o mínimo esforço. Porque acabamos por deixar as coisas seguirem o seu curso natural. Não fazemos nada (claramente por nossa vontade própria) mas nada fica por fazer.

Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do Tao, todos os dias algo é deixado para trás.

E cada vez menos é feito
até se atingir a perfeita não-acção.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.

Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.

Tao Te Ching (Cap.48)

Devemos agir de acordo com a nossa vontade apenas dentro dos limites da nossa natureza . Devemos usar o que é naturalmente útil e fazer o que espontaneamente podemos fazer sem interferir na nossa natureza. A felicidade é essa «não-acção» perfeita (wu wei).

Para conseguirmos entender o curso natural das coisas e seguirmos o Caminho temos que conseguir desaprender muitos conceitos. Para os podermos desaprender é preciso que antes os tenhamos aprendido. Mas temos que passar a um estado muito parecido com o estado inicial em que estavamos antes de o termos aprendido.

Se abrirmos os olhos de repente, há um brevíssimo momento durante o qual o nosso cérebro ainda não analisou o que está a ver. Ainda não distinguiu as cores e as formas nem descodificou o que se está a passar à nossa frente. Os taoistas procuram viver o mais perto possível desse estado. É uma renúncia à análise, sempre imperfeita, da realidade.

A coisa mais macia e flexível no universo

E só o que não tem substância (e não existe)
pode entrar onde não há uma fenda por onde entrar.
É essa a vantagem da não-acção.

Mas poucos entendem o ensino sem palavras
E os benefícios da não-acção.

Tao Te Ching (Cap.43)

Comentário: Quando a água que corre no leito de um rio encontra uma rocha no seu caminho, cede sem resistir e ajusta-se a ela de um modo tão perfeito que ultrapassa esse obstáculo e segue o seu caminho com a mesma facilidade que teria se ele não existisse. E, contudo, «água mole em pedra dura tanto dá até que fura».


É fácil manter a estabilidade enquanto as coisas estão estáveis.
É fácil lidar com as coisas enquanto elas não mostram sinal de irem mudar.
O que é frágil é fácil de quebrar, o que é pequeno é fácil de dispersar.
Mas há que pôr as coisas em ordem antes de haver confusão.
Porque as coisas se podem transformar nos seus opostos.

Uma árvore do tamanho do abraço de um homem começa por ser pequena.
Uma torre de nove andares começa por ser um monte de terra.
Uma viagem de mil léguas começa num passo.

Encarrega-te dos problemas antes deles surgirem.
Assim, evitarás ter depois de agir.
As dificuldades são facilmente superadas antes de começarem.

Aquele que age pode complicar a obtenção do que pretende.
Aquele que agarra as coisas, perde-as.
Quem é sábio não faz nada de errado porque não age.
Não se prende a nada e, por isso, nunca perde nada.

Tao Te Ching (Cap.64)


Um estado deve ser governado com a justiça normal.
Uma guerra deve ser gerida com golpes de surpresa fora do normal.
Mas o mundo deve ser controlado sem forçar, pela não-acção.

Como sei eu que é assim?
Porque quanto mais decretos proibitivos existirem,
Maior será a pobreza do povo;
Quanto mais armas existirem, maior será a desordem;
Quanto mais engenho e técnica existirem,
mais estranhos produtos aparecerão;
Quanto mais regras e regulamentos,
mais ladrões e bandidos haverá.

Por isso o sábio diz:
Não farei nada e as pessoas transformar-se-ão por elas próprias;
Contentar-me-ei com ficar quieto e as pessoas ficarão honestas;
Sem me preocupar com isso, as pessoas enriquecerão;
E, sem que eu o deseje, terão uma vida boa,
Voltando à simplicidade primitiva.

Tao Te Ching (Cap.57)

sábado, 19 de novembro de 2011

8 Dicas Para Escrever Ficção por Neil Gaiman

A lista é antiga, e faz parte de uma série de Top 10 feita pelo The Guardian em que escritores davam dicas de como escrever. Esta foi a contribuição de Neil Gaiman.


 Neil Richard Gaiman (Portchester, 10 de novembro de 1960) é um autor de romances e quadrinhos inglês. Vive em Minneapolis, Estados Unidos da América com sua ex-mulher, Mary McGrath, e três filhos: Holly, Michael e Maddy Gaiman.


Entre suas obras em prosa estão "Deuses Americanos" e "Belas Maldições", a segunda em parceria com Terry Pratchett; e sua criação quadrinística mais conhecida é Sandman, que tem como personagens principais Sandman, a personificação antropomórfica do Sonho, também é conhecido como Morpheus, numa referência à mitologia grega e seus irmãos, Morte, Destino, Delírio, Desejo, Desespero e Destruição.


1. Escreva.

2. Coloque uma palavra depois da outra. Encontre a palavra certa, coloque-a no lugar.

3. Termine o que estiver escrevendo. O que quer que precise fazer para terminar, termine-o.

4. Deixe-o de lado. Leia fingindo que nunca o leu antes. Mostre-o para os amigos cujas opiniões você respeita e que gostam do tipo de coisa que isso é.

5. Lembre-se: quando as pessoas dizem que algo está errado ou que não serve para elas, provavelmente estão certas. Quando lhe dizem exatamente o que está errado e como consertá-lo, provavelmente estão erradas.

6. Conserte. Lembre que, cedo ou tarde, antes que isso chegue a alcançar a perfeição, você terá que deixá-lo e seguir em frente e começar a escrever a próxima coisa. Perfeição é como perseguir o horizonte. Continue se movendo.

7. Ria das suas próprias piadas.

8. A regra principal para se escrever é que se você faz com suficiente segurança e confiança, poderá fazer o que bem quiser. (Isso pode ser uma regra para vida assim como para a escrita. Mas definitivamente é certa para a escrita.) Então escreva sua história como ela precisa ser escrita. Escreva-a honestamente e conte-a o melhor que puder. Não estou certo que existam quaisquer outras regras. Não alguma que importe.

*Via Meia Palavra. onde tem uma série de listas.

Retirado de:

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

25 Frases Para Pensar

1 - Você deveria ser mais claro em relação aos seus sentimentos por mim. Não leio pensamentos muito menos corações.

2 - Em algum momento da vida podemos nos afastar de nossos amigos, mas as lembranças dos momentos que passamos juntos permanecem.

3 - Sua mente diz para você desistir, mas o seu coração não deixa.

4 - É que sempre que penso em ser feliz, você me vem a cabeça.

5 - Eu queria ter uma máquina do tempo para poder voltar ao passado, e contar a mim mesmo que certas pessoas foram perda de tempo.

6 -  A - Eu amando você. 
      B - Você pisando em mim. 
      C - Eu chorando e sofrendo 
      D - Eu abrindo mão de você 
      E - Você me dando valor! Estranho não?

7 - Não me arrependo de nada do que eu fiz! Eu só lamento o tempo que desperdicei com as pessoas erradas.

8 - Qualquer pessoa pode nos fazer sorrir, mas apenas algumas são capazes de nos fazer feliz de verdade.

9 - Muita expectativa gera decepção.

10 - Tem marcas nesta vida que o tempo não vai apagar.

11 - Queria que certas pessoas se importassem comigo que nem o twitter , porque todo dia ele me pergunta o que está acontecendo.

12 - Siga o seu coração, mas leve o seu cerébro com você

13 - Volta, por favor. E fica, mas sem ir embora dessa vez.

14 - O ciúme é uma maneira de dizer a alguém que o amamos muito, e que não queremos correr o risco de perdê-lo.

15 - As decepções ocorrem porque amamos quem nos ignora, e ignoramos quem nos ama de verdade.

16 - O que alguns chamam de “Destino”, eu vejo como uma consequência de nossas escolhas e de nossas ações.

17 - No fundo, acho que todos gostam de se machucar. Mas não é algo espontâneo. Talvez seja algo da natureza humana, talvez não. Observe.

18 - Eu poderia facilmente dizer que te esqueci, que não sinto mais nada. Eu poderia mentir pra todo mundo, menos pra mim

19 - Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las.

20 - Se você quer sofrer por alguém, sofra por quem merece a sua dor.

21 - Enfim, cabeça erguida! O que tiver que ser será, não tem como evitar. Segurando o choro a gente olha pra frente e corre atrás da realidade!

22 - “É foda quando te perguntam se você está bem, e aí você diz que sim… Mas com os olhos cheios de lágrimas.”

23 - Acostume-se. Pessoas vem e vão como estações do ano.

24 - Não se esforce. Pelo menos, não tanto. Não fique ai remando contra a maré, dando murro em ponta de faca. Se não for pra ser, não vai ser.

25 - Fácil é dizer, que é fácil te esquecer, o difícil é convencer meu coração.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sete Alimentos que Não se Deve Dar aos Cães

Os cães tendem a comer de tudo, indiscriminadamente. Eu tenho dois que parecem dragas, mal termino de colocar a ração em seus potes e já estão abanando o rabo para pedir mais. Comem de tudo que eu der: frutas, legumes e até picolé. Se ouvem o alto falante: “Este é o carro do picolé de um real passando na sua rua!", ficam como loucos e não param de latir enquanto eu não vá comprar os picolés. No entanto, há uns quantos alimentos que os cães não deveriam ingerir sob risco de que fiquem enfermos ou até morram.

1. Chocolate
O chocolate contém teobromina, um alcaloide que é quimicamente similar à cafeína. O análogo quimicamente puro da teobromina é utilizado em medicina como diurético e estimulante do coração.

Os cães metabolizam mais lentamente a teobromina e podem ficar doentes e morrer por comer muito chocolate, ainda que gostem (e gostam). Quanto é muito? Depende do tipo de chocolate: chocolate amargo puro tem 10 vezes mais teobromina que o chocolate com leite e milhares de vezes mais que o chocolate branco. Mas o melhor mesmo é evitar que os bichinhos consumam chocolate em geral, já que pode provocar vómitos, diarreias, hiperatividade até chegar a uma parada cardíaca, infartos e morte. Pode demorar horas e inclusive dias para manifestar os sintomas.

2. Alho
Ainda que pareça que os animais podem digerir pequenas quantidades de alho em pó, quantidades maiores podem provocar anemia e causar problemas gastrointestinais. No caso do alho, o culpado é o tiossulfato, que é difícil de ser processado pelos cães e gatos e pode causar danos nos glóbulos vermelhos do sangue. Vai fazer uma boa pratada de arroz para os bichos? Esqueça o tempero.

3. Cebola
Os níveis de tiossulfato encontrados nas cebolas são tão altos que a converte em um alimento ainda mais perigoso que o alho: em pequenas quantidades pode matar rapidamente cães, gatos e outros animais domésticos.

4. Abacate
Não importa se você gosta da fruta, que a considera saudável. O abacate contém uma substância chamada persin, que é extremamente tóxico para os animais. Não é somente a polpa comestível do abacate que é perigosa, senão toda a planta: a semente, galhos e folhas.

5. Ossos
Apesar de que nos desenhos animados os ossos sempre acompanham os cães, costume esse absorvido pelo costume popular já que todos tem o costume de separar os ossos para os animais, estes não são nada saudáveis e podem causar estragos no sistema digestivo do animal. Rompimento dos dentes, lesões na boca, ossos colados no estômago, hemorragias graves do reto... a FDA mostra até 10 razões pelas quais é perigoso recompensar nosso cão com um osso.

6. Cerveja
A mesma imbecilidade de pais que passam a chupeta do filho na cerveja par acalmá-los e 15 16 anos mais tarde não suporta o cachaceiro mirim que chega em casa todo dia mamado. Muitas pessoas por pura testosteronice tem a mania de recompensar o amigo inseparável com uma "talagada" de cerveja em seu pote, mas o que desconhecem é que os cães por terem um corpo bem menor tem também um metabolismo mais rápido do que o nosso, de modo que não processam corretamente o álcool. Em pequenas doses não é letal, mas há casos em que o animal pode ficar nervoso e ataque ou inclusive fira a si mesmo.

7. Leite
A maioria esmagadora dos cães é intolerante à lactose. Se tomarem leite, desenvolverão diarreia. Como não têm enzimas necessárias para dissolver o açúcar no leite, acabam sofrendo de vómitos, diarreias e outras moléstias gastrointestinais. Se notar que seu cãozinho gosta muito de leite, lhe dê só leite sem lactose, misturado em bastante água.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Todos São Obrigados a Acreditar em Deus?

O texto da jornalista Eliane Brum para a Revista Época tem um ponto de vista que alguns vão considerar polêmico, principalmente por tocar em um suposto embate entre ateus e religiosos, mas a análise que ela faz remete a um modus operandi real da religião no Brasil como um todo. Para ilustrar um dos pontos de vista mais radicais, vejam a imagem que algum tempo atrás compartilhei no Facebook  tirada de um adesivo veicular em que uma "Geração Jeusus Cristo" propunha substituir a Constituição pela Bíblia:


Meu medo é que daqui a pouco queiram voltar com a Inquisição...

***

A DURA VIDA DOS ATEUS EM UM BRASIL CADA VEZ MAIS EVANGÉLICO

Por Eliane Brum
O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
 - Você é evangélico? – ela perguntou.
 - Sou! – ele respondeu, animado.
 - De que igreja?
 - Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa. 
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)” [Leia aqui o texto completo e tire suas próprias conclusões]. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.



[Atualização 25/11/2011]
Recebi no Facebook essa charge que parece exemplificar muito bem o nível de algumas discussões entre ateus e religiosos. Veja se não...