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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Regra de Ouro

Cristianismo:
– “O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles.”
Lucas 6:31

Budismo:
– “Não firas os outros de um modo que não gostarias de ser ferido.”
Udanda-Varqa 5:18

– “De cinco maneiras um verdadeiro líder deve tratar seus amigos e dependentes: com generosidade, cortesia, benevolência, dando o que deles espera receber e sendo tão fiel quanto à sua própria palavra.”
Digha Nikaya iii.185-91, Sigalovada Sutta

Zoroastrismo:
– “Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria.”
Dadistan-i Dinik 94:5

Judaísmo:
– “O que te é odioso, não faças ao teu semelhante. Esta é toda a Lei, o resto é comentário.”
Talmude, Shabbat 31a

Hinduísmo:
– “Esta é a soma de toda a verdadeira virtude: trate os outros tal como gostarias que eles te tratassem. Não faças ao teu próximo o que não gostarias que ele depois fizesse a ti.”
Mahabharata

Islamismo:
– “Nenhum de vós é um crente até que deseje a seu irmão aquilo que deseja para si mesmo.”
Sunnah

Taoísmo:
– O homem superior “deve apiedar-se das tendências malignas dos outros; olhar os ganhos deles como se fossem seus próprios, e suas perdas do mesmo modo.”
Thai-Shang

Confucionismo:
– “Eis por certo a máxima da bondade: Não faças aos outros o que não queres que façam a ti.”
Analectos XV,23

Fé Bahá’í:
– “Não desejar para os outros o que não deseja para si próprio, nem prometer aquilo que não pode cumprir.”
Gleenings

Sikhismo:
– “Julga aos outros como a ti mesmo julgas. Então participarás do Céu.”

Jainismo:
– “Na felicidade e na infelicidade, na alegria e na dor, precisamos olhar todas as criaturas assim como olhamos a nós mesmos.”

Fonte: O Evangelho à Luz do Cosmos; Ramatis;


terça-feira, 28 de julho de 2015

Eu Sei, Mas Não Devia

Por Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Retirado de: http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Deus no Taoismo

Por Gilberto Antônio Silva
 Uma das perguntas que soam bastante freqüentes quando eu falo sobre Taoismo é o clássico “os taoistas acreditam em Deus?”. Isso é bastante natural vindo de um ocidental, nascido e criado em uma tradição judaico-cristã, mas pode ser bastante difícil de responder do ponto de vista oriental.

Se você pensar em termos de um Deus antropomorfizado, que possui sensações e sentimentos humanos, vigia a humanidade de barba branca e tem “favoritos” entre as pessoas, a resposta é “não”. Se você imaginar Deus como um princípio ordenador, sem forma mas dotado de consciência e que permeia todo o universo, a resposta é “sim”.

Muitos traduzem “Tao” simplesmente por “Deus”, mas é um erro de metafísica já que são coisas diferentes. O Tao é um conceito muito complexo, que extrapola a mera racionalidade humana.

Aí o leitor atento pergunta: “mas Deus não é um só?”. Sim, claro, mas mudam as formas como os povos O compreendem. No Oriente a concepção de Deus como pregada nas religiões reveladas (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo) é algo desconhecido. Quando os missionários cristãos pregaram na China tiveram uma dificuldade imensa pois os chineses não conseguiam entender a idéia de um Deus Único, Criador e Onipotente. Então usaram o termo “shen” para traduzir “Deus”, por significar algo parecido. Mesmo assim não tiveram muito sucesso, pois esse conceito continua obscuro para os chineses. Os missionários, então, se concentraram na figura de Jesus, pois um homem sábio que vagava pela terra acompanhado de discípulos e ensinando a todos é coisa bem comum na história chinesa. Confúcio mesmo fez muito disso.

Shen é um termo em chinês muito difícil de ser traduzido, pois pode significar “alma”, “espírito” ou “divindade”. A religião primitiva da China, que não tem fundador nem origem conhecida, passou a ser chamada de Shendao (“Caminho do Shen”) a partir da Dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.) para se diferenciar do Taoismo e, principalmente, do Budismo (Fodao). Curioso que em japonês o termo “Shendao” se pronuncia “Shinto”, a religião tradicional japonesa. Shen, de modo isolado, se pronuncia Kami em japonês. Como pode perceber, tudo está conectado.

Enquanto crescia como religião organizada, o Taoismo foi incorporando muitos desses rituais e crenças do Shendao, que eram bastante populares. Isso tornou o Taoismo muito próximo da população, favorecendo que sua profunda filosofia pudesse ser divulgada até as camadas mais simples. O grau de fusão entre a filosofia taoista e as práticas tradicionais se tornou tão grande que hoje é difícil separá-los.

Para o Taoismo, o universo com todo o seu tamanho imenso e infinita complexidade gera uma consciência. Assim como nossos neurônios somados formam uma mente consciente, a miríade de objetos no universo também forma uma consciência. Essa consciência organiza e mantém tudo funcionando. Quando se reza, é para essa consciência que nos voltamos. Quando dizemos que buscamos o Tao, é dessa consciência que nos aproximamos em primeiro lugar. Estamos imersos nele e ao mesmo tempo somos parte dele.

Essa consciência é identificada na religião taoista com o Rei de Jade ou Imperador de Jade. Ele tem esse nome em razão do jade ser considerado um símbolo da pureza absoluta. É o administrador do Universo, o guardião do Tao. É a mais alta divindade do panteão taoista. Então, quando se faz uma oferenda ou se acende um incenso ao Rei de Jade, na verdade invocamos a Consciência Universal. A religião taoista possui quase sempre duas leituras, a mais simples e popular e a mais sofisticada e filosófica.

É interessante que na Medicina Chinesa haja uma grande preocupação em manter o espírito sereno e tranqüilo. É a principal causa da saúde ou da doença. Espírito, nesse caso, é chamado de “shen”. Como o ideograma é o mesmo do Shen universal, trata-se do mesmo princípio. Desse modo temos uma centelha da Consciência Universal dentro de nós, ancorado no Coração (Xin).

Para o Taoismo, Deus não apenas existe como habita em nosso peito.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br


sábado, 27 de junho de 2015

Elogio ao Livre Pensador

Por Ricardo Gondim
Mesmo redundante, é preciso dizer: o livre pensador pensa com liberdade. O pensador crítico trata a fronteira do certo e do errado a partir da integridade e não da assimilação de silogismos bem assentados. Ele permite, inclusive, que puxem o tapete de premissas antigas. Para ser intelectual é preciso espaço para questionar, tensionar, desafiar o que é assimilado pelos pares. Conhece-se um intelectual como aquele que gera crise, sem necessariamente defender uma escola de pensamento específica. Pensadores orgânicos não arrazoam com autonomia. O bom exercício do pensar acontece despretensiosamente, já que não provoca o debate pelo debate. Quem ousa alçar o voo do conhecimento, não teme contradizer-se e pode, inclusive, rir de posturas que assumiu e depois suplantou.

O livre pensador prefere a selva à trilha batida, o labirinto aos mapas detalhados, a senda escura à avenida iluminada. Ele convive bem com a ideia de que a verdade se alonga no infinito. Na aventura de pesquisar o que parecia inacessível, ele encara o saber como uma galáxia, bilhões de anos luz distante.
O livre pensador garante o ambiente leve. Ele ouve, acolhe, indaga e argumenta com a singeleza da criança. Se discute, retruca, provoca e exige o rigor dos mestres, não deixa o clima tenso. Se denuncia, confronta e briga com a veemência dos profetas, não transparece rancor. Se narra, brinca, ri e cria com a leveza dos poetas, não permite superficialidade. Se se mostra exigente nos colóquios acadêmicos, não cria inimigos. Se relaxa na mesa do bar, mantém-se atencioso.

O mundo deve ao livre pensador os novos paradigmas científicos, as novas escolas literárias, os novos conceitos políticos, as novas militâncias. Infelizmente, muitos só foram reconhecidos depois de séculos. Alguns morreram na fogueira. Com todos os problemas das redes sociais e da enxurrada de informações da internet, podemos conhecer rapazes e moças que começam a pensar fora da caixa. Leio blogs e tenho o ímpeto de cantar com Louis Armstrong: …I watch them grow/ They’ll learn much more, than I’ll never know/ And I think to myself/ What a wonderful world (eu os vejo crescer/Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei/E eu penso comigo... que mundo maravilhoso).


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Sobre a Verdade Suprema

A Verdade está além das aparências percebidas pelos sentidos, está além da personalidade. A personalidade é uma ilusão que precisa ser dissipada para que a Verdade brilhe. As pessoas confundem-se com a personalidade, atribuindo grande importância ao prazer e à dor que sentem. Não há outro caminho para a Felicidade Perfeita que não seja o conhecimento da Verdade Suprema. Essa Verdade-Felicidade é sentida quando se aniquilam as sensações e a ilusão do ego. Somente com o pleno discernimento, adquirido pela meditação profunda, é possível distinguir o real do irreal, perceber a dinâmica da vida manifestada e a neutralidade que emana da natureza. Tudo no universo segue seu ritmo natural, sem paixões nem preferências. Apegar-se a algo ou a alguém e preferir isso àquilo é um atributo da personalidade humana. As pessoas tanto se apegam ao prazer como à dor, e cada um se julga pleno de razão para sofrer ou para se deleitar com o mundano.
A ignorância é a fonte de todo mal. Ela surge pela identificação com os sentidos, o relacionamento entre os sentidos e o mundo exterior origina a personalidade e o apego às coisas materiais. Onde está a personalidade não pode haver a Verdade, pois são incompatíveis. Enquanto as pessoas estão inconscientes, enquanto a personalidade encobre o esplendor da essência divina, enquanto se busca a sobrevivência e não a vida, enquanto se procura ter e se esquece de que o sentido da vida é ser, cada um busca afirmar sua verdade pessoal, limitada e mesquinha. O resultado só poderia ser o que se vê: um mundo confuso, cheio de desarmonias, de guerras. E o resultado nem poderia ser outro, pois bilhões de egos querendo afirmar suas pseudoverdades individuais só poderia gerar uma grande conturbação. O mais extraordinário é que as pessoas, diante de tantos erros e quase nenhum acerto, ainda não conseguem admitir a falsidade do ego e da mente. Sabem que "pelo fruto se conhece a árvore". Então, um mundo conturbado só pode ter sido fruto de mentes doentias e desequilibradas. Mas ainda não se rendem, e justificam suas ações criando leis que consideram justas porque agradam seu ego, acreditando que "errar é humano", "ninguém é perfeito", "perdão existe porque existe erro". Eis aí a grande blasfêmia contra a suprema lei do cosmo. O erro não é justificável — é do ego, que é ilusório; e nem a imperfeição nem o perdão existem. Todos os Mestres ensinam que os homens são divinos em essência, como a afirmação do Mestre Jesus: "Sede perfeitos como o Ser é perfeito". O perdão é a negação da lei de causas e efeitos. A naturalidade do erro e a facilidade do perdão foram incentivadas para que a personalidade pudesse justificar-se a si mesma.
A Verdade Suprema não brilhar plenamente onde houver resquícios de Individualidade, onde houver interesse pessoal, onde houver crença na personalidade e nos seus pseudovalores. O ego faz com que as pessoas deixem de perceber a essência divina latente em tudo pari colocarem em primeiro plano seus gostos e desgostos. Brigam por ninharias e gostam muito de que todos prestem atenção em sua felicidade ou em sua dor, ignorando que tudo isso é desprovido de realidade e não passa de uma ilusão, tendo como destino comum a morte.
Há, porém, um caminho que conduz à perfeição, e ele só pode ser trilhado por quem eliminou de si todo egoísmo. Aquele que compreende a Lei Suprema e a cumpre conhece sua verdadeira natureza. Não prejudica aos demais seres, de todos os reinos, e está livre das paixões. Seus gestos e palavras só transmitem consolo e amor supremo, tornando-se, para todos, um exemplo de emancipação espiritual.
SHANTI PREM HARE OM

(Sri Maha Krshina Swami in Sutra Maha Devi Emancipação)