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sábado, 10 de maio de 2014

Tempo que Foge

Por Ricardo Gondim
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.
Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: – Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

Soli Deo Gloria.



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sempre vou valorizar as mãos de meu pai... Foi por elas que me tornei um homem.

Um jovem foi se candidatar a um alto cargo em uma grande empresa . Passou na entrevista inicial e estava indo ao encontro do diretor para a entrevista final. O diretor viu seu CV, era excelente. E perguntou-lhe:
- Você recebeu alguma bolsa na escola? - o jovem respondeu - Não.
- Foi o seu pai que pagou pela sua educação?
- Sim - respondeu ele.
- Onde é que seu pai trabalha?
- Meu pai faz trabalhos de serralheria.
O diretor pediu ao jovem para mostrar suas mãos.
O jovem mostrou um par de mãos suaves e perfeitas.
- Você já ajudou seu pai no seu trabalho?
- Nunca, meus pais sempre quiseram que eu estudasse e lesse mais livros. Além disso, ele pode fazer essas tarefas melhor do que eu.
O Diretor lhe disse:
- Eu tenho um pedido: quando você for para casa hoje, vá e lave as mãos de seu pai. E venha me ver amanhã de manhã.
O jovem sentiu que a sua chance de conseguir o trabalho era alta!
Quando voltou para casa, ele pediu a seu pai para deixá-lo lavar suas mãos.
Seu pai se sentiu estranho, feliz, mas com uma mistura de sentimentos e mostrou as mãos para o filho. O rapaz lavou as mãos de seu pai lentamente. Foi a primeira vez que ele percebeu que as mãos de seu pai estavam enrugadas e tinham muitas cicatrizes. Algumas contusões eram tão dolorosas que sua pele se arrepiou quando ele a tocou.
Esta foi a primeira vez que o rapaz se deu conta do significado deste par de mãos trabalhando todos os dias para pagar seus estudos. As contusões nas mãos eram o preço que seu pai teve que pagar por sua educação, suas atividades escolares e seu futuro.
Depois de limpar as mãos de seu pai, o jovem ficou em silêncio organizando e limpando a oficina do pai. Naquela noite, pai e filho conversaram por um longo tempo.
Na manhã seguinte, o jovem foi encontra-se com o Diretor.
O diretor percebeu as lágrimas nos olhos do moço quando ele perguntou:
- Você pode me dizer o que você fez e aprendeu ontem em sua casa?
O rapaz respondeu:
- Lavei as mãos de meu pai e também terminei de limpar e organizar sua oficina. Agora eu sei o que é valorizar, reconhecer. Sem meus pais, eu não seria quem eu sou hoje... Por ajudar o meu pai agora eu percebo o quão difícil e duro é para conseguir fazer algo sozinho. Aprendi a apreciar a importância e o valor de ajudar a família.
O diretor disse:
- Isso é o que eu procuro no meu pessoal. Quero contratar uma pessoa que possa apreciar a ajuda dos outros, uma pessoa que conhece os sofrimentos dos outros para fazer as coisas, e que não coloca o dinheiro como seu único objetivo na vida. Você está contratado.
Uma criança que tenha sido protegida e habitualmente dado a ela o que quer, desenvolve uma mentalidade de "Tenho direito" e sempre se coloca em primeiro lugar. Ignora os esforços de seus pais.
Se somos esse tipo de pais protetores, estamos realmente demonstrando amor ou estamos destruindo nossos filhos?
Você pode dar ao seu filho uma casa grande, boa comida, educação de ponta, uma televisão de tela grande... Mas quando você está lavando o chão ou pintando uma parede, por favor, o faça experimentar isso também . Depois de comer, que lave os pratos com seus irmãos e irmãs. Não é porque você não tem dinheiro para contratar alguém que faça isso; é porque você quer amar do jeito certo. Não importa o quão rico você é, você quer entender. Um dia, você vai ter cabelos brancos como a mãe ou o pai deste jovem.
O mais importante é que a criança aprenda a apreciar o esforço e ter a experiência da dificuldade, aprendendo a capacidade de trabalhar com os outros para fazer as coisas.


(Tradução da postagem de Adri Gehlen Korb)

domingo, 27 de abril de 2014

O Conhecimento e a Sabedoria

"(...) aprendi quando a razão morria e a Sabedoria nascia; antes dessa liberação, eu só tinha o conhecimento.

Existem dois poderes aliados no homem: o conhecimento e a sabedoria.

O conhecimento é uma verdade parcial, vista em um meio distorcido conforme a mente chega à busca; a sabedoria e o que o olho da visão divina vê no espírito.

Quando falo, a razão fala: "Isto sou eu quem fala"; mas Deus tira as palavras de minha boca, e os lábios dizem algo que faz com que a razão trema.

Se a humanidade pudesse ver em um piscar de inteligência transitória quais alegrias infinitas, quais forças perfeitas, quais conquistas luminosas de conhecimento espontâneo, quais amplas calmas de nosso ser esperam por nós, utilizando os traços que nossa evolução animal ainda não conquistou, ela os deixaria e nunca descansaria até conquistar esses tesouros.

Mas o caminho é estreito, as portas são difíceis de se abrir, e o medo desconfiança e o ceticismo existem, são sentinelas da Natureza, proíbem o retorno de nossos pés de seus pastos comuns.

O que a alma vê e já experimentou, ela conhece; o restante é aparência, preconceito e opinião.

Provaram-me com motivos convincentes que Deus não existe e eu acreditei.

Depois, eu vi Deus, pois Ele veio e me abraço agora, em quem devo acreditar?

No raciocínio dos outros ou n minha própria experiência?

Alucinação é um termo da Ciência para aquelas visões irregulares que temos de verdades que são ocultas de nós em razão da nossa preocupação com a matéria...

Aquilo que os homens chamam de alucinação é o reflexo, na mente e nos sentidos, daquela outra realidade, que está além de nossas percepções mil e sensoriais autolimitadas.

A lógica é uma busca conceitualmente limitada da verdade, assim como a auto-retidão é a imitação ignorante da virtude, pois não enxerga seus próprios mal entendidos e o outro não vislumbrai seu auto-julgamento arrogante.

O Sinal da sabedoria nascente é sentir que eu sei pouco ou nada e, mesmo assim, se pudesse ser aberto à minha Sabedoria, já saberia que possuo tudo.

O conhecimento é uma criança cega pelas suas conquistas, ela vaga pelas tuas gritando; a Sabedoria esconde o poder de seu esclarecimento em um silêncio inteligente e poderoso.

A espiritualidade e a filosofia buscam resgatar o homem de seu ego; então, o reino interior do céu será refletido espontaneamente em uma cidade divina externa."

(Sri Aurobindo)


In Kundalini: O Livro da Vida e da Morte. Jytte Kumar Larsen e Ravindra Kumar, Ed. Madras, 2008.

sábado, 26 de abril de 2014

Onde encontrar Deus?

Deus não pode ser reconhecido a não ser em si mesmo.

Quando tu o encontras fora de ti, não vais encontrá-Lo em outro lugar.

Não existe Deus para o homem que não O encontra em si.

A grande alegria que o homem pode conceber é a alegria de conhecer em si um ser livre, inteligente, amoroso e, consequentemente, feliz de sentir Deus em si.

O homem, para ser realmente um homem, deve conceber a ideia Deus em si.


(Leon Tolstoy)

In Kundalini: O Livro da Vida e da Morte. Jytte Kumar Larsen e Ravindra Kumar, Ed. Madras, 2008

O Homem de Religião

Aquele que pratica a sabedoria sem raiva ou ambição, que satisfaz com fidelidade seus votos e vive para se aperfeiçoar, é, de fato, um homem da religião.

Aquele que cuida do corpo, da fala, de seu Ser, que é cheio de serenidade e alegria, possui um espírito unificado e encontra satisfação na solidão é, de fato um homem da religião.

Aquele que conquistou o desejo da vida presente e da vida futura, que conquistou todo o medo e quebrou todas as correntes, é, de fato, um homem da religião.

Aquele que não pune, não mata, não permite ser morto, que é cheio de amor entre aqueles que são cheios de crueldade, é, de fato, um homem da religião.

(Sri Aurobindo)

In Kundalini: O Livro da Vida e da Morte. Jytte Kumar Larsen e Ravindra Kumar, Ed. Madras, 2008