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sexta-feira, 29 de junho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Como fazer Meditação

A meditação não tem a ver com palavras mas com prática. Não serve de nada lermos muitas vezes a ementa de um restaurante, o que conta é sentarmo-nos à mesa. No entanto, é útil dispormos das linhas orientadoras fornecidas pelas obras dos sábios de outrora. Essas obras contêm um manancial de instruções que expõem com clareza o objetivo e os métodos de Como Fazer Meditação, o melhor meio de progredir e as ciladas que espreitam o praticante.


Vejamos agora alguns dos muitos métodos de Como Fazer Meditação. Começaremos pelos preliminares e por conselhos gerais, após o que examinaremos um certo número de meditações particulares que constituem o fundamento da via espiritual. Fá-lo-emos de forma simples possível, a fim de permitir que cada pessoa as vá praticando gradualmente. Nunca será de mais sublinhar a importância dos conselhos de um guia experiente. Este texto não visa substituí-los, mas oferecer bases provenientes de fontes autênticas.

O nosso espírito tanto poder ser o nosso melhor amigo como o nosso pior inimigo. Libertá-lo da confusão, do egocentrismo e das emoções perturbadoras é, pois, o melhor serviço que podemos prestar a nós próprios e aos outros.

Quando nos empenhamos em aprender Como Fazer Meditação, como em qualquer outra atividade, é essencial verificarmos a natureza da nossa motivação. Com efeito, será essa motivação, altruísta ou egoísta, vasta ou limitada, que conferirá uma direção positiva ou negativa aos nossos actos, determinando-lhes assim o resultado.

Todos nós desejamos evitar o sofrimento e alcançar a felicidade, e todos temos o direito fundamental de realizar esta aspiração. Contudo, na maior parte do tempo, os nossos atos estão em contradição com os nossos desejos. Procuramos a felicidade onde ela não está e precipitamo-nos para o que nos vai causar sofrimento. A prática budista não exige que renunciemos a tudo o que é realmente benéfico na existência, mas antes que abandonemos as causas do sofrimento, às quais nos apegamos como se fossem drogas. Como este sofrimento se deve à confusão mental que obscurece a nossa lucidez e o nosso discernimento, a única forma de o aliviar é adquirirmos uma visão justa da realidade e transformarmos o nosso espírito.

Eliminaremos, assim as suas causas primeiras, os venenos mentais que são a ignorância, a malevolência, a avidez, a arrogância e a inveja. No entanto, não basta curarmo-nos dos nossos sofrimentos pessoais. Cada um de nós representa apenas um único ser, ao passo que os outros são em número infinito e todos querem, tal como nós, deixar de sofrer. Além disso, como todos os seres são interdependentes, estamos intimamente ligados aos outros. Por conseguinte, o fim último da transformação que iremos empreender por intermédio da meditação também é tornarmo-nos capazes de libertar todos os seres do sofrimento e de contribuir para o seu bem-estar.

Devemos seguir os conselhos de um guia qualificado para podermos aprender Como Fazer  Meditação. Daí o papel essencial de um instrutor qualificado.

As circunstâncias que a vida quotidiana nos proporciona nem sempre favorecem a meditação. O nosso tempo e o nosso espírito estão ocupados por todos os tipos de atividades e de preocupações infindáveis. É por isso que é necessário, no princípio, arranjarmos um certo número de condições favoráveis. É possível e desejável mantermos os benefícios da meditação quando estamos mergulhados na torrente da vida quotidiana, nomeadamente recorrendo ao exercício da consciência plena. Mas no princípio, é indispensável exercitarmos o espírito num ambiente propício. É preferível meditarmos num lugar tranquilo para proporcionarmos ao espírito uma oportunidade de se tornar claro e estável.

A postura física influencia o estado mental. Se adaptarmos uma postura excessivamente relaxada, há fortes probabilidades de a nossa meditação se afundar no torpor e na sonolência. Em contrapartida, uma postura demasiado rígida e tensa arrisca-se a suscitar agitação mental.
Importa pois, que adotemos uma postura equilibrada, nem demasiado rígida, nem demasiado relaxada.

1. As pernas são cruzadas na postura do vajra, comummente chamada postura do lótus, na qual começamos por dobrar a perna direita sobre a esquerda, e depois a esquerda sobre a direita.

2. As mãos descansam no regaço, no gesto de equanimidade, com a mão direita sobre a esquerda e a extremidade dos polegares em contacto. Uma variante consiste em pousar as mãos nos joelhos, com as palmas para baixo.

3. Os ombros estão ligeiramente elevados e inclinados para a frente.

4. A coluna vertebral está bem erecta, como uma pilha de moedas de ouro.

5. O queixo está ligeiramente puxado contra a garganta.

6. A ponta da língua aflora o alto do palato.

7. O olhar dirige-se para a frente ou ligeiramente para baixo, no prolongamento do nariz, com os olhos abertos ou semicerrados.

Se tivermos dificuldade em ficar sentados com as pernas cruzadas, podemos evidentemente meditar numa cadeira ou numa almofada alta.

O essencial é mantermos uma posição equilibrada, com as costas direitas, e adoptarmos os outros pontos da postura acima descrita. Segundo os textos, se o corpo estiver bem direito, os canais de energia subtil também se mantêm direitos e em consequência o espírito é claro.

No entanto, podemos modificar ligeiramente a postura do corpo consoante a evolução da aprendizagem de Como Fazer Meditação.

A postura apropriada deve ser mantida o máximo de tempo possível, mas se se tornar demasiado desconfortável, mais vale descansarmos uns instantes em vez de estarmos sempre a ser distraídos pela dor.

É essencial mantermos a continuidade da meditação, dia após dia, pois é assim que ela irá ganhando, pouco a pouco amplitude e estabilidade.

Fonte: "A arte da meditação", Autor: Matthieu Ricard, Editorial Presença.


***

Para quem tem muita dificuldade de praticar a meditação tradicional conforme ensinada nesse post, segue um vídeo muito bom do YouTube ensinando um tipo de meditação bastante fácil de fazer, chamada "Meditação em um instante":



terça-feira, 26 de junho de 2012

A Solidão do Taxista


Por Denise Fraga
Tive um tio taxista. Por incrível que pareça, de vez em quando, ele me colocava no carro e me levava pra trabalhar junto com ele.

Eram outros tempos. Eu tinha lá meus oito, nove anos e, quando o passageiro se surpreendia com a presença da menininha no banco de trás, meu tio falava: "Se o senhor não se importa, amigo, eu estou com a minha sobrinha, vou levá-la ao dentista, mas posso quebrar o galho e fazer sua corrida".

Ninguém se importava, ele nunca me levou ao dentista e ganhamos muitas histórias no fusquinha verde-água zanzando pelo Rio de Janeiro.

Eu escutava as conversas, as notícias do rádio, dormia, acordava, ganhava balas dos passageiros e via a vida correndo pela janela. Era fã do meu tio e de seu jeito de flanar pela vida. Ele achava tudo divertido, adorava um bom papo e não via problema nenhum em me colocar no carro pra participar das suas delícias.

Meu tio me fez crer que uma das melhores profissões do mundo é taxista. Virei atriz. Mas, se há coisa de que gosto, é andar de táxi.

Sento no banco de trás, abro a janela e talvez seja o próprio tio Fausto que lá de cima continua me enviando preciosidades através de seus colegas. Mesmo quando não rola conversa, o simples fato de ficar sacolejando no trânsito olhando pela janela é para mim algo de extremo prazer. Pequenos brindes de minha infância herdados por minha vida adulta.

O vento na janela de um táxi é uma das coisas que pouco mudaram desde os anos 70. Às vezes, é preciso fechar o vidro, mas a vida continua passando aos seus olhos. É um descanso sem igual.

Acontece que comprei um iPhone e, pouco a pouco, fui pedindo licença a meu amigo taxista para um telefonema aqui, um e-mail acolá e passei a interromper meu precioso flanar nos táxis com coisas que acho que precisam ser feitas naquela hora.

Em dias mais corridos, entro dizendo o destino entre uma fala e outra ao telefone, já digito uma mensagem, pago a corrida com o troço no ombro e saio do carro com meu tio balançando a cabeça lá em cima. Que desperdício!

Comecei então a fazer um exercício rigoroso para aproveitar meu passeio de táxi. Proibi à minha pessoa o uso do celular no veículo, como num avião. Tenho resistido, mas a sensação de que poderia já estar resolvendo isso ou aquilo, de que estou perdendo tempo já que tenho ali, ao meu alcance, minha ligação com o mundo, isso é uma doença crônica dos nossos tempos.

Meu celular me abriu infinitas janelas, mas me roubou a mais preciosa de todas. Nossos eletrônicos vão sorrateiramente nos roubando a plenitude. O simples estar num lugar, sem achar que poderia estar em outro.

Penso no meu tio e só me consola imaginar o quanto se divertiria ouvindo os absurdos que falamos no celular ao ignorar o solitário taxista. Eles devem ter muitas histórias pra contar pra suas esposas quando chegam pra jantar. Se elas não estiverem no Facebook.

Denise Fraga, atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo), passa a escrever quinzenalmente no Equilíbrio.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Vergonha

Por Anna Veronica Mautner
Aceitar-se com defeitos é o único jeito de suportar o olhar do outro sem ser aniquilado

Se tiver que escolher entre sentir vergonha ou sentir culpa, o que você preferirá? Já respondeu? Agora respondo eu: prefiro sentir culpa.

Quando digo que errei, quero dizer que conheço o certo, mas não quis, não pude, não consegui fazer certo. Posso relatar circunstâncias que me levaram ao erro, pecado, transgressão. Se me sinto culpada, é porque acho que deveria ter feito o certo. Caberia a mim lançar mão do necessário para acertar.

A culpa parte de um conhecimento de causa ou de um conhecimento que eu supostamente deveria ter. Parece até que é de lei que o desconhecimento da regra pode atenuar, mas não isentar de culpa. Por aí se vê que a culpa é resultante de uma relação falha entre o sujeito e as regras do mundo. Cabe julgamento, perdão, absolvição. A culpa pode desaparecer sem deixar nódoa.

E a vergonha? A vergonha tem a ver com a autoestima. Com o que você imagina que deve ser para se gostar e se aprovar. Você pode morrer de vergonha de coisas pelas quais ninguém vai culpá-lo.

Quando nos envergonhamos, o olhar do outro se torna insuportável. O envergonhado quer deixar de existir para não ser visto na sua falha. A vergonha tem a ver com a depreciação instantânea de nós mesmos. Escorregar e cair nos deixa envergonhados. Sem condenação, sem perdão, sem absolvição.

Antigamente, chamava-se a área genital de "vergonha". O homem nu cobre seus genitais como último recurso para evitar a vergonha total. O tema chega a ganhar leis: é proibido desnudar-se em certos lugares. "Pode despir-se, eu sou médico", dizem os profissionais nos consultórios.

Temos vergonha de não poder pagar a conta de algo já consumido. Dizer que deixaremos nosso relógio em pagamento ou lavaremos pratos no restaurante são situações constrangedoras.

A vergonha pode ser paralisante. Vergonha do próprio corpo pode impedir a frequência a lugares esportivos. O gago fica mais gago por vergonha de ser gago. Quem enrubesce fica mais vermelho por vergonha de ter enrubescido. Quem sua nas mãos sua mais de medo de que percebam seu suor.


Todos queremos funcionar bem. Disfunções que não são culpa de ninguém diminuem a autoestima. Não saber quais talheres usar num banquete pode ser uma situação paralisante para quem se acha no dever de saber tudo. Quem acha que todos devem saber tudo tem vergonha de perguntar. Pedir orientação no trânsito é impossível para quem acha que tem que saber tudo.

A culpa não é paralisante. O juiz, as leis, os estatutos podem deliberar pela sua exclusão, por exemplo.

A vergonha só tem um remédio: aceitar-se com defeitos, o que significa se sentir com maior valor, melhorar a autoestima. Isso nos permitiria suportar o olhar do outro sem que esse olhar nos aniquilasse.


Anna Veronica Mautner, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora) e "Educação ou o quê?" (Summus).

Folha de S.Paulo - 12/06/2012.

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