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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sobre a Gênese da Burrice


Por Adorno & Horkheimer
O símbolo da inteligência é a antena do caracol “com a visão tacteante”, graças à qual, a acreditar em Méfistófeles,38 ele é também capaz de cheirar. Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protector do corpo, ela se identifica de novo com o todo e só muito hesitantemente ousará sair de novo como um órgão independente. Se o perigo ainda estiver presente, ela desaparecerá de novo, e a distância até a repetição da tentativa aumentará. Em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada. O sentido do caracol depende do músculo, e os músculos ficam frouxos quando se prejudica seu funcionamento. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem, as duas coisas são inseparáveis.

Os animais mais evoluídos devem o que são à sua maior liberdade; sua existência mostra que, outrora, suas antenas foram dirigidas em novas direcções e não foram retiradas. Cada uma de suas espécies é o monumento de inumeráveis outras espécies cuja tentativa de evoluir se frustrou desde o início; que sucumbiram ao medo tão logo uma de suas antenas se moveu na direcção de sua evolução. A repressão das possibilidades pela resistência imediata da natureza ambiente prolongou-se interiormente, com o atrofiamento dos órgãos pelo medo. Cada olhar de curiosidade que o animal lança anuncia uma forma nova dos seres vivos que poderia surgir da espécie determinada a que pertence o ser individual. Não é apenas seu carácter determinado que o mantém sob a guarda de seu antigo ser; a força que vem de encontro a esse olhar é uma força cuja existência remonta a milhões de anos: foi ela que o fixou desde sempre em sua etapa evolutiva e impede, numa resistência sempre renovada, toda tentativa de ultrapassar essa etapa. Esse primeiro olhar tacteante é sempre fácil de dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direcção que queria tomar, o animal torna-se tímido e burro. A burrice é uma cicatriz. Ela pode se referir a um tipo de desempenho entre outros, ou a todos, práticos e intelectuais. Toda burrice parcial de uma pessoa designa um lugar em que o jogo dos músculos foi, em vez de favorecido, inibido no momento do despertar. Com a inibição, teve início a inútil repetição de tentativas desorganizadas e desajeitadas. As perguntas sem fim da criança já são sinais de uma dor secreta, de uma primeira questão para a qual não encontrou resposta e que não sabe formular corretamente.

A repetição lembra em parte a vontade lúdica, por exemplo do cão que salta sem parar em frente da porta que ainda não sabe abrir, para afinal desistir, quando o trinco está alto demais; em parte obedece a uma compulsão desesperada, por exemplo, quando o leão em sua jaula não pára de ir e vir, e o neurótico repete a reacção de defesa, que já se mostrara inútil. Se as repetições já se reduziram na criança, ou se a inibição foi excessivamente brutal, a atenção pode se voltar numa outra direcção, a criança ficou mais rica de experiências, como se diz, mas frequentemente, no lugar onde o desejo foi atingido, fica uma cicatriz imperceptível, um pequeno enrijecimento, onde a superfície ficou insensível. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem criar caracteres, duros e capazes, podem tornar as pessoas burras – no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas, no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má. E não apenas a pergunta proibida, mas também a condenação da imitação, do choro, da brincadeira arriscada, pode provocar essas cicatrizes. Como as espécies da série animal, assim também as etapas intelectuais no interior do género humano e até mesmo os pontos cegos no interior de um indivíduo designam as etapas em que a esperança se imobilizou e que são o testemunho petrificado do facto de que todo ser vivo se encontra sob uma força que domina.


DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO - Fragmentos Filosóficos - 1947
(Dialektik der Aufklärung – Philosophische Fragmente) - Theodor W. Adorno e Max Horkheimer

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Deus Existe?


Por Rubem Alves
De vez em quando alguém me pergunta se eu acredito em Deus. E eu fico mudo, sem dar resposta, porque qualquer resposta que desse seria mal entendida. O problema está nesse verbo simples, cujo sentido todo mundo pensa entender: acreditar. Mesmo sem estar vendo, eu acredito que existe uma montanha chamada Himalaia, e acredito na estrela Alfa Centauro, e acredito que dentro do armário há uma réstia de cebolas... Se eu respondesse à pergunta dizendo que acredito em Deus, eu o estaria colocando no mesmo rol em que estão a montanha, a estrela, a cebola, uma coisa entre outras, não importando que seja a maior de todas.
Era assim que Casemiro de Abreu acreditava em Deus, e todo mundo decorou e recitou o seu poema teológico: “Eu me lembro... Era pequeno... O mar bramia, e erguendo o dorso altivo sacudia a branca espuma para o céu sereno. E eu disse à minha mãe naquele instante: ‘Que dura orquestra/ Que furor insano/ Que pode haver maior que o oceano ou mais forte que o vento?‘ Minha mãe a sorrir olhou para os céus e respondeu: ‘Um Ser que nós não vemos/ É maior que o mar que nós tememos, é mais forte que o tufão, meu filho: é Deus.‘“

Ritmos e rimas são perigosos porque, com freqüência, nos levam a misturar razões ruins com música ruim. Deixados de lado o ritmo e as rimas, o argumento do poeta se reduz a isso: Deus é uma “coisona“ que sopra qual ventania enorme, e um marzão que dá muito mais medo que esse mar que está aí. Ora, admito até que coisona tal possa existir. Mas não há argumento que me faça amá-la. Pelo contrário, o que realmente desejo é vê-la bem longe de mim. Quem é que gostaria de viver no meio da ventania navegando num mar terrível? Eu não...


É preciso, de uma vez por todas, compreender que acreditar em Deus não vale um tostão furado. Não, não fiquem bravos comigo. Fiquem bravos com o apóstolo Tiago, que deixou escrito em sua epístola sagrada: “Tu acreditas que há um Deus. Fazes muito bem. Os demônios também acreditam. E estremecem ao ouvir o Seu nome...“ (Tiago 2,19). Em resumo, o apóstolo está dizendo que os demônios estão melhor do que nós porque, além de acreditar, estremecem... Você estremece ao ouvir o nome de Deus? Duvido. Se estremecesse, não o repetiria tanto, por medo de contrair malária...


Enquanto escrevo, estou ouvindo a sonata Appassionata, de Beethoven, a mesma que Lenin poderia ouvir o dia inteiro, sem se cansar, e o seu efeito era tal que ele tinha medo de ser magicamente transformado em alegria e amor, sentimentos incompatíveis com as necessidades revolucionárias (o que explica as razões por que ativistas políticos geralmente não se dão bem com música clássica). Se eu pudesse conversar com o meu cachorro e lhe perguntasse: Você acredita na Appassionata? - ele me responderia: Pois é claro. Acha que eu sou surdo? Estou ouvindo. E, por sinal, esse barulho está perturbando o meu sono.


Mas eu, ao contrário do meu cachorro, tive vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que ficou arrepiado: a beleza se fez carne.


Mas eu sei que a sonata tem uma existência efêmera. Dentro de poucos minutos só haverá o silêncio. Ela viverá em mim como memória. Assim é a forma de existência dos objetos de amor: não como a montanha, a estrela, a cebola, mas como saudade. E eu, então, pensarei que é preciso tomar providências para que a sonata ressuscite de sua morte...


Leio e releio os poemas de Cecília Meireles. Por que releio, se já os li? Por que releio, se sei, de cor, as palavras que vou ler? Porque a alma não se cansa da beleza. Beleza é aquilo que faz o corpo tremer. Há cenas que ela descreve que, eu sei, existirão eternamente. Ou, inversamente, porque existiam eternamente, ela as escreveu. “O crepúsculo é este sossego do céu/ com suas nuvens paralelas/ e uma última cor penetrando nas árvores/ até os pássaros./ E esta curva de pombos, rente aos telhados,/ e este cantar de galos e rolas, muito longe;/ e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,/ ainda sem luz.“


Que existência frágil tem um poema, mais frágil que a montanha, a estrela, a cebola. Poemas são meras palavras, que dependem de que alguém as escreva, leia, recite. No entanto, as palavras fazem com o meu corpo aquilo que universo inteiro não pode fazer.


Fui jantar com um rico empresário, que acredita em Deus, mas me disse não compreender as razões por que puseram o retrato da Cecília Meireles, uma mulher velha e feia, numa cédula do nosso dinheiro. Melhor teria sido retrato da Xuxa. Do ponto de vista da existência ele estava certo. A Xuxa tem mais realidade que a Cecília. Ela tem uma densidade imagética e monetária que a Cecília não tem e nunca quis ter. A Cecília é um ser etéreo, semelhante às nuvens do crepúsculo, à espuma do mar, ao vôo dos pássaros. E, no entanto, eu sei que os seus poemas viverão eternamente. Porque são belos.


A Beleza é entidade volátil - toca a pele e rápido se vai.


Pois isso a que nos referimos pelo nome de Deus é assim mesmo: um grande, enorme Vazio, que contém toda a Beleza do universo. Se o vaso não fosse vazio, nele não se plantariam as flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia água. Se a boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...


E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranqüilizar a saudade.
Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepúsculo, do jeito como acredito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?
(Correio Popular, 13/04/1997)

Vi primeiro no Blog da Dinair: http://dinairfonte.blogspot.com

terça-feira, 3 de abril de 2012

Felicidade, Sofrimento e Prazer



Os Hábitos de Felicidade
Por Mathieu Ricard
Acredito que seja devido à globalização que se possa achar latas de Coca-Cola no topo do Evereste e monges budistas em Monterey. (Risos) Atendendo ao seu gentil convite, cheguei do Himalaia há dois dias atrás Agora gostaria de convidá-los, por alguns instantes, para irmos juntos ao Himalaia. E mostrar os lugares onde praticantes da meditação, como eu, que comecei como Biólogo Molecular no Instituto Pasteur, encontraram o seu caminho para as montanhas.

Estas são algumas fotografias que eu tive o privilégio de tirar pessoalmente. Este é o Monte Kailash no Tibete Oriental - um cenário fantástico. Esta é do país de Marlboro. (Risos) Este é o Lago Turquesa. Um praticante da meditação. Este foi o dia mais quente do ano, em algum lugar no Tibete Oriental no dia primeiro de Agosto Na noite anterior, estávamos acampados, meus amigos Tibetanos disseram: "Vamos dormir lá fora." E eu disse: "Porquê? Tem espaço suficiente na barraca!" Eles responderam: "Sim, mas é verão." (Risos)

Vamos então conversar sobre a felicidade. Enquanto francês, devo dizer que existem muitos intelectuais franceses que acreditam que felicidade é um tema desprovido de qualquer interesse. (Risos) Escrevi, há pouco tempo, um artigo sobre a felicidade que gerou alguma controvérsia. Alguém escreveu um artigo onde dizia: "não imponha sobre nós o trabalho sujo da felicidade" (Risos) "Não nos preocupamos em ser felizes. Precisamos é viver com paixão." "Nós gostamos dos altos e baixos da vida" "Gostamos do nosso sofrimento porque é tão bom quando ele pára por alguns instantes" (Risos)

Esta é a vista do balcão do meu eremitério no Himalaia. Tem cerca de 2 metros por 3 e todos vocês são bem-vindos para me visitar a qualquer momento. (Risos)

Vamos voltar então ao tema da felicidade, ou do bem-estar. Em primeiro lugar, apesar do que os intelectuais franceses dizem, o fato é que ninguém se levanta de manhã pensando: "Tomara que eu sofra o dia inteiro." (Risos) O que significa que de alguma forma - conscientemente ou não, direta ou indiretamente, no curto ou no longo prazo, seja o que for que façamos, esperamos ou sonhamos - de alguma forma, tudo isto está relacionado com um desejo profundo de bem-estar e felicidade. Como disse Pascal, mesmo aquele que se enforca, de uma certa forma, está procurando dar um fim ao sofrimento - simplesmente não encontrou outra forma. Mas, se procurarmos na literatura, Oriental ou Ocidental, encontraremos uma impressionante variedade de definições para felicidade. Alguns afirmam que acreditam apenas em recordar o passado, e imaginar o futuro... nunca o presente. Outros dizem: a felicidade é o agora; é a qualidade daquele aspecto sempre novo do momento presente. Isto levou Henri Bergson, o filósofo francês, a dizer: "Todos os grandes pensadores da humanidade deixaram a felicidade na imprecisão... de forma que eles possam então defini-lá - cada um deles possa defini-lá nos seu próprios termos."

Bom, isso estaria certo se felicidade fosse apenas uma preocupação secundária da vida. Mas se a felicidade é algo que determina a qualidade de cada instante da nossa vida, então é melhor sabermos de que se trata, termos uma idéia mais clara. Provavelmente, o fato de que não sabemos de que se trata é a razão pela qual, tão frequentemente apesar de buscarmos a felicidade, parece que viramos as costas a ela. Apesar de queremos evitar o sofrimento, parece que de alguma forma nós corremos em sua direção. Isto também pode ser produto de algumas confusões.

Uma das mais comuns é a confusão entre felicidade e prazer. Se olharmos para as características de cada uma, o prazer é uma circunstância do tempo, de coisas e de lugares. É algo cuja natureza se transforma. A primeira fatia de um bolo de chocolate é deliciosa, a segunda já nem tanto, e daqui há pouco enjoamos. (Risos) É a natureza das coisas: nós nos cansamos delas. Eu costumava ser um fã de Bach; tocava no violão.. Posso escutá-lo duas, três, cinco vezes. Mas, se tiver que escutar por 24 horas sem parar, pode ficar muito cansativo. Se sentirmos frio, nos aproximamos do fogo; é muito gostoso Então, passados alguns instantes, vamos nos aproximando cada vez mais, e aí acabamos nos queimando Parece que as coisas se consomem à medida que as experimentamos. Igualmente, de novo, é possível - é algo que você - não é algo que se irradia para fora. Como, por exemplo, podemos sentir um prazer intenso mas alguns dos que nos rodeiam podem estar sofrendo imensamente.

O que será então a felicidade? Felicidade, obviamente, é uma palavra muita vaga. Vamos então falar de bem-estar. Eu acredito que a melhor definição, segundo a perspectiva budista, é que o bem-estar não é apenas uma mera sensação de prazer. É um sentimento profundo de serenidade e realização, um estado que na verdade permeia e sustenta todos os estados emocionais e todas as alegria e tristezas que cruzam o nosso caminho. Para vocês, isto pode ser surpreendente. Podemos sentir este estado de bem-estar enquanto estamos tristes? De certa forma, por que não? Porque estamos falando de um nível diferente.

Olhem as ondas que chegam a praia. Quando estamos embaixo da onda nós tocamos o fundo. Encontramos rocha sólida. Quando estamos no topo, surfando, nos sentimo exultantes. Da mesma forma nós vamos do êxtase à depressão, não há profundidade. Agora, se observarmos o alto mar, pode ser possível ver um lindo oceano, calmo como um espelho. Podem surgir tempestades, mas o fundo do oceano não se altera Então, o que é isso? Só pode se uma maneira de estar, não apenas uma emoção fugaz, uma sensação. Até mesmo a alegria: ela pode ser fonte de felicidade. Mas alegrias perversas também existem. Podemos nos regozijar com o sofrimento alheio.

Então como acontece a nossa busca pela felicidade? Frequentemente olhamos para o exterior. Acreditamos que se pudermos juntar isto e aquilo, criar as condições apropriadas qualquer coisa que dizemos, tudo para ser feliz. Ter tudo, ser feliz. Esta frase revela por si o destino de destruição da felicidade. Ter tudo. Se houver algo que não se consiga ter, tudo desaba. E também, quando as coisas dão errado, tentamos em demasia consertar o exterior mas o controle que temos sobre o mundo exterior é limitado, temporário e, frequentemente, ilusório. Mas se observarmos as condições interiores. Não são elas mais fortes? Não é a mente que traduz as condições exteriores em felicidade e sofrimento? E isso não é mais forte? Sabemos, por experiência, que podemos estar em lugares que muitos considerariam um paraíso e no entanto, podemos estar completamente infelizes.

O Dalai Lama esteve uma vez em Portugal e haviam muitas construções por todo o lado. Então, certo fim de tarde ele disse: "Reparem, estão a construir todas estas coisas, mas não seria interessante, também, construirmos algo dentro de nós?" E continuou: "Se não for assim, mesmo que estejamos num apartamento high-tech no centésimo andar de um super moderno e confortável edifício, se internamente estivermos profundamente infelizes tudo o que vamos procurar é uma janela da qual possamos saltar." Vamos pensar então na situação oposta. Conhecemos muitas pessoas que se encontram em circunstâncias muito difíceis que conseguem manter a serenidade, a força, a liberdade interior... a confiança. Então, se as condições interiores são mais fortes - claro que as condições exteriores têm influência, e é maravilhoso ter uma vida longa e saudável, ter acesso à informação, à educação, viajar ser livre. Todos desejamos isto. Contudo, isto não é suficiente; estas são apenas coisas acessórias. A experiência que tudo traduz está na mente. Assim, nos perguntamos como criar as condições para sermos felizes, as condições internas, e como identificar aquelas que irão minar a felicidade. Para isso precisamos de alguma experiência.

Temos de saber, através de nós mesmos, que existem determinados estados da mente que conduzem a este florescimento, a este bem-estar. é aquilo a que os Gregos antigos chamavam de eudaimonia, florescimento. Há alguns [estados da mente] que são adversos a este bem estar. De fato, se nos baseamos na nossa experiência - a raiva, o ódio, a inveja, a arrogância, o desejo obsessivo, a ganância - eles não nos deixam em um bom estado [pessoal] depois que os experimentamos. Além disto, eles são prejudiciais à felicidade dos outros. Assim, podemos considerar que quanto mais estes sentimentos tomam conta da nossa mente, como uma reação em cadeia, mais miseráveis e atormentados nos sentimos. Por outro lado, bem dentro de nós, todos sabemos que um ato de despreendida generosidade, mesmo que à distância, de maneira anônima, pode salvar a vida de uma criança ou fazer alguém feliz. Não há necessidade de reconhecimento. Não há necessidade de gratidão por parte dos outros. O simples fato de empreendermos este ato nos traz um sentimento de adequação à nossa mais profunda natureza. E gostaríamos de ser assim o tempo todo.

Mas será possível mudar a nossa maneira de ser, transformar a nossa mente? Serão aquelas emoções negativas, destrutivas inerentes à natureza da mente? Será possível transformar nossas emoções, mudar nossas características e nosso estado de espirito? Para tal temos que perguntar: qual é a natureza da mente? E se observamos do ponto de vista experiencial, encontramos uma qualidade primária de consciência, que é apenas o mero fato de sermos cognitivos e conscientes. A consciência é como um espelho, algo que reflete todas as imagens. Podemos ter uma cara bonita ou uma cara feia. O espelho reflete isto, e não fica defeituoso, não é modificado, não se altera por causa dessas imagens. Da mesma forma, por detrás de cada pensamento está a consciência desnuda, um conhecimento puro. Esta é a natureza da mente. Em sua essência, ela não pode ser contaminada por ódio ou inveja, porque então, se estivesse sempre lá - como um corante que permeia todo o tecido de uma peça de roupa - então seria encontrada a qualquer momento, em qualquer lugar. Sabemos que não estamos sempre zangados, sempre invejosos ou sempre generesos.

Então, devido à estrutura básica da consciência é esta inerente qualidade cognitiva que a diferencia de uma pedra, a capacidade de mudar existe porque todas as emoções são efêmeras Esta é base para o treinamento da mente. O treinamento da mente é baseado na idéia que dois fatores mentais opostos não podem ocorrer simultaneamente. Podemos ir do amor ao ódio. Mas não é possível sentí-los, ao mesmo tempo e em relação ao mesmo objeto, ou à mesma pessoa, desejarmos fazer o mal e o bem. Não podemos, com o mesmo gesto, dar um aperto de mão e um soco. Existem antídotos naturais para as emoções que são destrutivas em relação ao nosso bem-estar interior. É esta a forma de proceder. Regozijo comparado com inveja. Uma espécie de sensação de liberdade interior que se opõe à ganância e à obsessão. Benevolência e compaixão contra o ódio. Mas é claro, cada emoção necessitaria então de seu antídoto.

Outra forma é tentar encontrar um antídoto geral para todas as emoções, e isso consegue-se observando a sua natureza. Normalmente, quando nos sentimos incomodados, com raiva ou aborrecidos com alguém, ou obcecados com algo, a mente foca repetidamente nesse objeto. Cada vez que volta a focar no objeto, se fortalece essa obsessão ou esse aborrecimento. É, assim, um processo que se auto perpetua. Assim, o que precisamos fazer é olhar para o interior em vez de olharmos para o exterior. Observar a própria raiva; isto parece assustador, como uma nuvem de monção ou trovoada. Chegamos a acreditar que podemos sentar nesta nuvem.. mas se chegarmos perto vemos que é apenas uma bruma. Da mesma forma, se observamos o pensamento raivoso, ele se dissipa como a geada ao sol da manhã. Se fizermos isto repetidamente, a propensão, a tendência de que o sentimento de raiva volte vai ser menor e menor a cada vez que deixamos ela se esvanecer. E, no final, mesmo que possa surgir de novo, apenas passará pela nossa mente, como um pássaro a cruzar o céu sem deixar qualquer vestígio. Este é o principal aspecto do treinamento da mente.

Mas isto leva tempo porque - também levou tempo para que todas aqueles falhas na nossa mente, as tendências, se formassem, por isso é preciso tempo para que elas possam ser revertidas. Mas é a única maneira de proceder. Pela transformação da mente, que é o único significado da meditação. Significa familiarização com uma nova forma de ser, uma nova forma de perceber as coisas, uma forma que se adequa mais a realidade, uma forma interdependente, com o fluxo e a transformação contínua que são o nosso ser e a nossa consciência.

Então, a interface com as ciências cognitivas. Porque temos que abordar o que é, eu suponho, o tema temos que abordá-lo no curto perído de tempo que me resta aqui. Com plasticidade cerebral, pensava-se que o cérebro era mais ou menos imutável. Todas a ligações nominais, em número e quantidade, pensava-se - nos últimos vinte anos - que elas eram mais ou menos permanentes quando se atingia a idade adulta. Mas, recentemente, percebeu-se que mudam muito. Em um violinista, conforme ouvimos dizer, que tenha 10000 horas de prática, algumas áreas do cérebro que controlam os movimentos dos dedos mudam muito, aumentando o reforço das ligações sinápticas. Será que podemos fazer o mesmo com as qualidades humanas? Com a compaixão, a paciência e a sinceridade?

É isso que os grandes praticantes da meditação estão a fazer. Alguns deles, em laboratórios, como aconteceu em Madison, Wisconsin ou em Berkeley, fizeram entre 20 e 40 mil horas de meditação. Eles ficaram em retiro por três anos, meditando doze horas por dia. E depois, durante o resto das suas vidas, continuam a meditar por 3 ou 4 horas por dia. Eles são os verdadeiros campeões olímpicos do treinamento da mente. (Risos) Este é o local onde os praticantes da meditação... - é inspirador, como podem ver. Aqui com 256 elétrodos. (Risos)

O que encontraram? Obviamente, a mesma coisa. O embargo científico - se alguma vez for submetido à "Nature", espero que seja aceito. Isto lida com o estado de compaixão, compaixão incondicional. Pedimos aos praticantes de meditação que têm praticado durante anos e anos, para levarem suas mentes a um estado onde não existe mais nada além de compaixão - disponibilidade total para com os seres animados. Obviamente, durante o treino fazemos isto com objetos. Pensamos sobre as pessoas em sofrimento, as pessoas que amamos, mas em um determinado momento, pode ser um estado dominante. Aqui estão alguns resultados preliminares, que posso mostrar porque já foram divulgados. A curva em forma de sino mostra 150 controles e o que se procura é a diferença entre os lóbulos direito e esquerdo frontais Resumidamente, as pessoas com maior atividade no lado direito do cortéx pré-frontal são mais depressivas, reclusas - não apresentam muitos aspectos positivos. No lado esquerdo acontece o oposto: maior tendência para altruísmo, felicidade, auto-expressão, curiosidade e por aí fora. Há então uma linha básica para as pessoas. Mas pode ser alterada. Se assistimos uma comédia, deslocamo-nos para o lado esquerdo. Se estamos felizes com algo, vamos mais para o lado esquerdo. Se tiver um período de depressão, desloca-se para o lado direito. Aqui, o -0,5 é o desvio padrão total de um praticante que meditou sobre compaixão. É algo que está totalmente fora da curva.

Não temos tempo de ver todos os resultados científicos. Confiamos que eles surgirão. Mas eles descobriram que - isto após 3 hora e meia em um MRI, é como sair de uma nave espacial. Isto também foi demostrado em outros laboratórios - por exemplo, no laboratório de Paul Ekman em Bekerley - que alguns praticantes da meditação também são capazes de controlar as suas respostas emocionais mais do que se pensava. Como na experiência do susto, por exemplo. Se colocarmos uma pessoa em uma cadeira com todo este tipo de aparelhos medindo a sua fisiologia, e há um tipo de bomba que explode, é tão instintivo responder a isso que, em 20 anos, eles nunca encontraram ninguém que não tenha pulado de susto. Alguns praticantes da meditação, sem tentar pará-la, mas estando simplesmente, completamente receptivos, pensando que o bang é apenas um pequeno evento como uma estrela cadente, não se movimentaram.

O objetivo não é fazer de tudo isto uma espécie de circo onde se exibem seres excepcionais que conseguem saltar, ou o que quer que seja. Pretende-se simplesmente dizer que o treinamento da mente é importante. Que não é apenas um luxo. Não se trata de um suplemento vitamínico para a alma; é algo que vai determinar a qualidade de cada instante das nossas vidas. Estamos preparados para passar 15 anos a educarmo-nos. Gostamos de jogging, fitness. Fazemos todo o tipo de coisas para nos mantermos bonitos. No entanto, surpreendentemente reservamos muito pouco tempo para o que mais importa: a forma como a nossa mente funciona. Que, novamente, é o que realmente determina a qualidade da nossas experiências.

A expectativa é que ponhamos nossa compaixão em ação É o que tentamos fazer em locais diferentes. Apenas um exemplo sobre o qual vale a pena refletir. Uma senhora com tuberculose óssea, deixada sozinha numa tenda com sua única filha, está prestes a morrer. Aqui está ela um ano depois. Diferentes escolas e clínicas que organizamos no Tibete.

E apenas, deixo vocês com a beleza destes olhares que dizem mais sobre a felicidade do eu poderia dizer. E monges saltitantes do Tibete. (Risos) Monges voadores. Muito obrigado.

***

Matthieu Ricard é bioquímico doutor em genética molecular do instituto Pasteur, convertido em monge budista diz que podemos treinar nossas mentes em hábitos de bem-estar que geram uma verdadeira sensação de serenidade e realização. Declarado o homem mais feliz do planeta Matthieu ajuda as pessoas a conviver com uma mente mais clara e mais hábil à hora de lidar com as emoções negativas e fomentar as emoções positivas.

Retirado de:

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Equilíbrio Entre a Vida pessoal e o Trabalho







Transcrição da Palestra de Nigel Marsh:


O que pensei em fazer foi começar com um pedido simples. Gostaria que todos vocês parassem por um momento, seus fracotes infelizes, e tomem conta das vossas existências miseráveis. (Risos)


Isso era o conselho que São Bento deu aos seus seguidores assustados no século V. Foi o conselho que decidi seguir eu próprio quando fiz 40 anos. Até àquele momento, tinha sido o guerreiro corporativo clássico -- Comia demasiado, bebia demasiado, trabalhava demasiado, e negligenciava a minha família. E decidi que ia tentar mudar o rumo da minha vida. Em particular, decidi que iria tentar resolver o problema complicado do equilíbrio entre a vida e o trabalho. Então afastei-me da força de trabalho, e passei um ano em casa com a minha mulher e 4 filhos pequenos. Mas tudo o que eu aprendi sobre equilíbrio vida-trabalho naquele ano foi que achei muito fácil equilibrar trabalho e vida quando não tinha trabalho. (Risos) Não é uma aptidão muito útil, especialmente quando o dinheiro acaba.


Então voltei ao trabalho, e passei estes últimos 7 anos a debater-me com isto, a estudar e a escrever sobre o equilíbrio vida-trabalho. E tenho quatro observações que gostaria de partilhar convosco hoje. A primeira é, se a sociedade planeia progredir neste assunto, precisamos de um debate honesto. Mas o problema é que tantas pessoas dizem tantas tolices sobre o equilíbrio vida-trabalho. Toda a discussão sobre horários flexíveis ou sextas-feiras informais ou licença de paternidade só serve para encobrir o problema principal, que é há certos empregos e opções de carreira que são fundamentalmente incompatíveis com uma relação significativa dia-a-dia com uma família jovem. O primeiro passo na resolução de qualquer problema é admitir a realidade da situação em que se encontra. E a realidade da sociedade em que vivemos é que há milhares e milhares de pessoas por aí levando vidas de desespero agudo em silêncio, onde trabalham horas longas e difíceis em empregos que odeiam para poderem comprar coisas que não precisam para impressionar pessoas que não gostam. (Risos) (Aplausos) Eu acho que ir trabalhar à sexta-feira de calças de ganga e t-shirt não é chegar propriamente à raiz do problema.


(Risos)


A segunda observação que gostaria de fazer é que temos de enfrentar a verdade que os governos e empresas não vão resolver-nos este problema. Devíamos parar de procurar fora; depende de nós como indivíduos que tomemos controlo e responsabilidade sobre o tipo de vida que queremos levar. Se não delinearem a vossa vida, outra pessoa o fará por vocês, e olhem que podem não gostar da sua ideia de equilíbrio. É particularmente importante -- isto não está na World Wide Web, está? Estou prestes a ser despedido -- é particularmente importante que nunca ponham a qualidade da vossa vida nas mãos de uma empresa comercial. Não estou a falar só das más empresas -- os matadouros da alma humana, como as chamo. (Risos) Falo de todas as empresas. Porque as empresas comerciais estão inerentemente desenhadas para tirarem quanto de vós lhes seja permitido. Está na sua natureza, no seu ADN, é o que fazem -- mesmo as empresas com boas intenções. Por um lado, pôr um infantário no local de trabalho é maravilhoso e iluminado. Por outro lado, é um pesadelo; só significa que vai passar mais tempo no maldito escritório. Temos de ser responsáveis por estabelecer e fazer cumprir os limites que queremos na nossa vida.


A terceira observação é que temos de ter cuidado com o período de tempo que escolhemos para avaliar o nosso equilíbrio. Antes de voltar ao trabalho depois do meu ano em casa, sentei-me e escrevi uma descrição detalhada, passo-a-passo do dia idealmente equilibrado a que eu aspirava. Era assim; Acordar bem descansado depois de uma boa noite de sono. Ter sexo. Passear o cão. Tomar o pequeno-almoço com a minha mulher e filhos. Ter sexo novamente. (Risos) Levar os miúdos à escola no caminho para o escritório. Trabalhar três horas. Praticar desporto com um amigo na hora do almoço. Trabalhar mais três horas. Encontrar-me com alguns amigos no bar para uma bebida vespertina. Ir para casa jantar com a minha mulher e filhos. Meditar por meia-hora. Ter sexo. Ir passear o cão. Ter sexo outra vez. Ir para a cama. (Aplausos) Com que frequência acham que tive este dia? (Risos) Temos de ser realistas. Não se pode fazer tudo num só dia. Temos de aumentar o período de tempo sobre o qual gerimos o equilíbrio nas nossas vidas, mas precisamos de o alongar sem cair na ratoeira do "Terei uma vida quando me reformar, quando os meus filhos saírem de casa, quando a minha mulher se tiver divorciado de mim, a minha saúde estiver a falhar, não terei amigos nem interesses que restem." (Risos) Um dia é demasiado curto, quando me reformar torna-se demasiado longo. Tem de haver um meio-termo.


Uma quarta observação: Temos de abordar o equilíbrio de uma forma equilibrada. Uma amiga veio visitar-me no ano passado -- ela não se importa que eu conte esta história -- uma amiga veio visitar-me no ano passado e disse, "Nigel, eu li o teu livro. E apercebi-me qu a minha vida está completamente desequilibrada. Está totalmente dominada pelo trabalho. Trabalho 10 horas por dia, ando de transportes duas horas todos os dias. Todas as minhas relações falharam. Não há nada na minha vida sem ser o meu emprego. Decidi tomar uma atitude e resolver isso. Então inscrevi-me no ginásio." (Risos) Eu não quero fazer troça, mas ser um rato de escritório 10 horas ao dia, em forma não é ser mais equilibrado, é estar mais em forma. (Risos) Apesar de o exercício físico poder ser maravilhoso, há outras coisas na vida. Há o lado intelectual, o lado emocional, o lado espiritual. E para se ser equilibrado, acredito que temos de pensar em todas estas áreas -- não apenas fazer 50 abdominais.


Isto pode ser assustador. As pessoas dizem, "Raios, parceiro, eu nem tenho tempo para ficar em forma; ainda queres que vá à igreja e telefone à minha mãe." E eu compreendo. Compreendo verdadeiramente como isso pode ser assustador. Mas um incidente há uns anos atrás deu-me uma nova perspectiva. A minha mulher, que está algures na audiência hoje, telefonou-me para o escritório e disse, "Nigel, tens de ir buscar o teu filho mais novo," o Harry "da escola." Porque ela tinha de estar noutro sítio com as outras 3 crianças naquela noite. Saí do trabalho uma hora mais cedo fui buscar o Harry à porta da escola. Fomos a pé até ao parque, brincámos nos baloiços, jogámos uns jogos engraçados. E depois subi com ele a colina até ao café local, e partilhámos uma pizza, depois descemos para casa, e dei-lhe o seu banho vesti-lhe o pijama do Batman. A seguir li-lhe um capítulo de "James e o Pêssego Gigante" de Roald Dahl. Pu-lo na cama e abafei-o, dei-lhe um beijo na testa e disse "Boa noite, parceiro," e saí do quarto dele. Quando ia a sair do seu quarto, ele disse, "Pai?" E eu, "Sim, parceiro?" E ele, "Pai, este foi o melhor dia da minha vida, de sempre." Eu não tinha feito nada, não o tinha levado à Disney World ou lhe comprado uma Playstation.


O meu ponto de vista é que as coisas pequenas importam. Ser mais equilibrado não significa uma reviravolta dramática na vossa vida. Com o investimento mais pequeno nos sítios certos, podem transformar radicalmente a qualidade das vossas relações e a qualidade da vossa vida. Além disso, eu acho, que isso pode transformar a sociedade. Porque se pessoas suficientes o fizerem, podemos mudar a definição de sucesso da sociedade longe da noção imbecilmente simplista que a pessoa com mais dinheiro quando morre ganha, para uma definição mais equilibrada e agradável do que uma vida bem vivida parece. E isso, penso eu é uma ideia que vale a pena difundir.


(Aplausos)


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domingo, 1 de abril de 2012

Uma Reflexão Sobre os Movimentos Sociais do Século XXI


Para onde irão os Indignados e os “Occupiers”?
Por Leonardo Boff
Uma das mesas de debates importante no Forum Social Temático em Porto Alegre, da qual me coube participar, foi escutar os testemunhos vivos dos Indignados da Espanha, de Londres, do Egito e dos USA. O que me deixou muito impressionado foi a seriedade dos discursos, longe do viés anárquico dos anos 60 do século passado com suas muitas “parolle”. O tema central era “democracia já”. Revindicava-se uma outra democracia, bem diferente desta a que estamos acostumados, que é mais farsa do que realidade. Querem uma democracia que se constrói a partir da rua e das praças, o lugar do poder originário. Uma democracia que vem de baixo, articulada organicamente com o povo, transparente em seus procedimentos e não mais corroída pela corrupção. Esta democracia, de saida, se caracteriza por vincular justiça social com justiça ecológica.

Curiosamente, os indignados, os “occupiers” e os da Primavera Árabe não se remeteram ao clássico discurso das esquerdas, nem sequer aos sonhos das várias edições do Forum Social Mundial. Encontramo-nos num outro tempo e surgiu uma nova sensibilidade. Postula-se outro modo de ser cidadão, incluindo poderosamente as mulheres antes feitas invisíveis, cidadãos com direitos, com participação, com relações horizontais e transversais facilitadas pelas redes sociais, pelo celular, pelo twitter e pelos facebooks. Temos a ver com uma verdadeira revolução. Antes as relações se organizavam de forma vertical, de cima para baixo. Agora é de forma horizontal, para os lados, na imediatez da comunicação à velocidade da luz. Este modo representa o tempo novo que estamos vivendo, da informação, da descoberta do valor da subjetividade, não aquela da modernidade, encapsulada em si mesma, mas da subjetividade relacional, da emergência de uma consciência de espécie que se descobre dentro da mesma e única Casa Comum, Casa, em chamas ou ruindo pela excessiva pilhagem praticada pelo nosso sistema de produção e consumo.

Essa sensibilidade não tolera mais os métodos do sistema de superar a crise econômica e derivadas, sanando os bancos com o dinheiro dos cidadãos, impondo severa austeridade fiscal, a desmontagem da seguridade social, o achatamento dos salários, o corte dos investimentos no pressuposto ilusório de que desta forma se reconquista a confiança dos mercados e se reanima a economia. Tal concepção é feita dogma e ai se ouve o estúpido bordão:“TINA: there is no alternative”, não há alternativa. Os sacrílegos sumos sacerdotes da trindade nada santa do FMI, da União Européia e do Banco Central Europeu deram um golpe financeiro na Grécia e na Itália e puseram lá seus acólitos como gestores da crise, sem passar pelo rito democrático. Tudo é visto e decidido pela ótica exclusiva do econômico, rebaixando o social e o sofrimento coletivo desnecessário, o desespero das famílias e a indignação dos jovens por não conseguirem trabalho. Tudo pode desembocar numa crise com consequências dramáticas.

Paul Krugmann, prêmio Nobel de economia, passou uns dias na Islândia para estudar a forma como esse pequeno pais ártico saiu de sua crise avassaladora. Seguiram o caminho correto que outros deveriam também ter seguido: deixaram os bancos quebrar, puseram na cadeia os banqueiros e especuladores que praticaram falcatruas, reescreveram a constituição, garantiram a seguridade social para evitar uma derrocada generalizada e conseguiram criar empregos. Consequência: o pais saiu do atoleiro e é um dos que mais cresce nos paises nórticos. O caminho islandês foi silenciado pela midia mundial de temor de que servisse de exemplo para os demais países. E a assim a carruagem, com medidas equivocadas mas coerentes com o sistema, corre célere rumo a um precipício.

Contra esse curso previsível se opõem os indignados. Querem um outro mundo mais amigo da vida e respeitoso da natureza. Talvez a Islândia servirá de inspiração. Para onde irão? Quem sabe? Seguramente não na direção dos modelos do passado, já exauridos. Irão na direção daquilo que falava Paulo Freire “do inédito viável” que nascerá desse novo imaginário. Ele se expressa, sem violência, dentro de um espírito democrático-participativo, com muito diálogo e trocas enriquecedoras. De todas as formas o mundo nunca será como antes, muito menos como os capitalistas gostariam que ficasse.

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