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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Rotas Sagradas do Catolicismo

No primeiro milênio do Cristianismo, três rotas foram consideradas sagradas, e que resultavam numa série de bênçãos e indulgências para quem percorresse qualquer uma delas.

A primeira rota levava até o túmulo de São Pedro, em Roma, seus caminhantes tinham por símbolo uma cruz e eram chamados de romeiros. Ela percorria a chamada “Via Francigena”, uma importante estrada medieval de 1.700 km. Essa rota de peregrinação à Roma iniciava-se em Canterbury (Inglaterra) e levava o peregrino até o túmulo de São Pedro no Vaticano. Ela atravessa a França (de onde surge o seu nome de Francigena ou caminho dos Francos), a Suíça e entrava na Itália através do Passo do Grande São Bernardo.

A Via Francigena foi a mais importante rota de peregrinação à Roma durante a Idade Média. O primeiro relato histórico foi escrito pelo arcebispo de Canterbury, Sigerico o Sério, que em 990 d.C efetuou a peregrinação à Roma para receber o título das mãos do Papa João XV. No relato, ele descreve as 79 etapas da viagem.

Posteriormente a Via Francigena caiu no esquecimento. Atualmente voltou a ser um roteiro atraente para peregrinos e viajantes. No total, o percurso é de aproximadamente 1.600 quilômetros. Ao percorrer 20 quilômetros por dia à pé, o peregrino necessita 80 dias para ir de Canterbury até Roma.

A segunda rota levava até o Santo Sepulcro de Cristo, em Jerusalém, e os que faziam este caminho eram chamados de palmeiros porque tinham como símbolo as palmas com que Cristo foi saudado quando entrou na cidade. Os caminhos dessa rota partiam, principalmente, da Alemanha, Espanha, França e Inglaterra; cruzando esses países, seguiam depois por terra ou por mar rumo a Jerusalém na Palestina.

A partir do século IV as peregrinações a Terra Santa ficaram cada vez mais populares. As peregrinações a Jerusalém cresceram muito e passaram a ser aplicadas como uma forma de penitência adequada para certos pecados. Isto foi visto em documentos do século VII entre as penitências que eram aplicadas a um pecador. Entre todos os lugares de peregrinação a Terra Santa era o mais buscado pelos cristãos em face de sua importância histórica.

Os peregrinos encontravam muitas dificuldades para chegar até Jerusalém. Nos mares havia insegurança em face da pirataria, deste modo a rota mais comum dos peregrinos do Ocidente os levava até Constantinopola e daí por terra, através de Anatólia e da Síria, chegavam a Terra Santa. A reforma do século XI deu grande importância as peregrinações, que nesta época ficaram muito mais fáceis e comuns porque a pirataria tinha sido quase que totalmente extinta do Mediterrâneo. Algum tempo depois estas viagens passaram a ser confusas e perigosas

Finalmente, existia um terceiro caminho – um caminho que levava até os restos mortais do apóstolo São Tiago, enterrados num local da península ibérica onde certa noite um pastor havia visto uma brilhante estrela sobre um campo.

A lenda conta que não apenas São Tiago, mas a própria Virgem Maria, estiveram por ali logo após a morte de Cristo, levando a palavra do Evangelho e exortando os povos a se converterem.

O local ficou sendo conhecido como Compostela – o campo da estrela – e logo surgiu uma cidade que iria atrair viajantes de todo o resto do mundo cristão. A estes viajantes que percorriam a terceira rota sagrada foi dado o nome de peregrinos, e passaram a ter como símbolo uma concha.

O Caminho de Santiago de Compostela, considerado uma das principais rotas sagradas dos cristãos, percorre toda a Península Ibérica, de leste a oeste. Atualmente, o percurso atrai uma média de 150 mil peregrinos por ano.

O mais tradicional de seus quatro itinerários principais é o chamado caminho francês, que começa nos Pirineus, em San Juan Pied-de-Port. Roncesvalles, em território espanhol, é outro ponto de partida muito usado.

Após atravessar o País Basco, Cantábria e Astúrias, o peregrino chega à Galícia, no extremo oeste, onde os católicos acreditam estar o túmulo do apóstolo Tiago. O hábito de peregrinar pelos seus quase 800 km vem do século 11, movido pela promessa de bênçãos e indulgências a quem cumprisse todo o percurso.

Conta a lenda que, após a dispersão dos apóstolos pelo mundo, são Tiago esteve na Galícia. Ao voltar à Palestina, foi preso. Herodes Agripa, rei da Judéia, mandou então cortar-lhe a cabeça. Seu corpo teria sido jogado para fora dos muros de Jerusalém.

Os restos mortais, de acordo com uma antiga tradição, teriam sido levados por seus seguidores para um barco que, guiado pela mão divina, foi parar nas costas galegas, onde foram sepultados.

Em 813, o bispo Teodomiro, de Iria, na Galícia, encontrou em San Fiz uma tumba de mármore no meio do mato. O local havia sido indicado por um ermitão após observar uma chuva de estrelas sempre sobre um mesmo ponto.
Daí veio o nome Compostela, do latim ""campus stellae", que significa campo das estrelas. Passou-se a acreditar que se tratava do túmulo de são Tiago. Segundo a lenda, não apenas Tiago, mas a própria Virgem Maria esteve em Compostela para divulgar o Evangelho.

Essas notícias se espalharam pelo mundo, levando as pessoas a se deslocarem a Santiago para conhecer o sepulcro, que se transformaria mais tarde numa igreja.
Originou-se assim o Caminho de Santiago, que viveu seu auge nos séculos 12 e 13, quando reis espanhóis chegaram a criar uma ordem de cavalaria para proteger a cidade e as trilhas.

No Brasil também existe uma rota criada com a chancela da Igreja Católica, ligando dois centros de romaria de São Paulo que foi batizada de “Caminho da Fé”. É uma trilha de peregrinação, com aproximadamente 400 km de extensão, inaugurada em 11/02/2003, que vai de Tambaú, no interior de São Paulo, até Aparecida do Norte, no Vale do Paraíba/SP, atravessando a Serra da Mantiqueira, pelo sul de Minas Gerais.

Inspirado no famoso Caminho de Santiago de Compostela, da Espanha, narrado pelo escritor Paulo Coelho em “O Diário de um Mago”, o caminho brasileiro foi idealizado por um grupo de Águas da Prata, liderado pelo presidente da Associação Comercial da cidade, Almiro José Grings, que percorreu a trilha européia por duas vezes.

A versão brasileira do Caminho de Santiago, com um total de 415 quilômetros de extensão, atravessa o sul de Minas Gerais e o itinerário promove o encontro imaginário do Padre Donizetti Tavares de Lima (morto em 1961 e em processo de beatificação no Vaticano), de Tambaú, chamado de "caipira milagroso" por conta de curas de doentes a ele atribuídas enquanto ainda vivo, com a sua santa de devoção, Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, cidade do Vale do Paraíba onde se localiza o maior santuário do Brasil.

Como na Espanha, os peregrinos recebem um passaporte na partida, oficializado pela igreja com o nome de mariana -em Santiago chama-se compostelana-, a ser carimbado em cada pousada. Ao final, quem tiver os 24 carimbos do percurso, recebe o certificado de peregrino no Santuário Nacional de Aparecida. o caminho foi desenhado entre trilhas de romaria já existentes e outras de trekking.

O Caminho brasileiro passa por 19 municípios e 4 distritos, através de estradas vicinais de terra, trilhas, bosques, pastagens e asfalto, e foi criado para dar estrutura e suporte às pessoas que sempre fizeram peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida, oferecendo-lhes os imprescindíveis pontos de apoio. São necessários aproximadamente 16 dias, fazendo uma média de 25 quilômetros por dia, para percorrer todo o Caminho.

Os pontos de início são as cidades de São Carlos - SP (no ramal oeste), Mococa - SP (no ramal norte) e Cravinhos - SP (no ramal noroeste). Os ramais oeste e noroeste se unem próximo ao distrito de São Roque da Fartura, município de Águas da Prata – SP, e seguem juntos até Aparecida - SP e o ramal noroeste se une ao Caminho na altura de Tambaú.

Como na Espanha, todo o percurso do caminho está marcado com setas amarelas e/ou placas informativas. As setas guiam os peregrinos entre as cidades e dentro delas, seguindo até a porta das pousadas que são credenciadas e comprometidas com o projeto do Caminho da Fé. Várias delas oferecem descontos aos peregrinos (não é obrigatório hospedar-se nessas pousadas).

Existem Outros dois projetos de trilhas de peregrinação apoiados pela Igreja, mas que não receberam apoio. Um dos projetos refaz o itinerário de 105 km que era percorrido pelo padre Anchieta no Espírito Santo, entre a ilha de Vitória e a cidade de Reritiba (atual Anchieta). Uma outra ramificação seria a trilha que vai de Santana do Parnaíba a Águas de São Pedro, batizada de Caminho do Sol, com 209 km, passando por 13 cidades. (MS)


Retirado de:

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Inteligência Emocional

”A tendência social geral em países modernos é para uma autonomia cada vez maior do indivíduo, o que por sua vez traz mais competitividade — às vezes brutal, como acontece nas universidades e locais de trabalho — e menos solidariedade, que então trazem maior isolamento, com uma deterioração na integração social. Essa lenta desintegração da comunidade e esse aumento de implacável auto-afirmação chegam numa hora em que pressões econômicas e sociais exigem mais, e não menos, cooperação e envolvimento. Junto com essa atmosfera de início de mal-estar social, há sinais de um crescente mal-estar emocional, sobretudo entre as crianças. Uma das origens disso talvez seja que a infância está mudando. Pais que enfrentam uma nova realidade na paternidade — mais tensos e pressionados pela economia e o ritmo mais frenético da vida do que acontecia com seus próprios pais — precisam de mais orientação para ajudar seus filhos a dominar as aptidões humanas essenciais mestras.”
(Daniel Goleman no Prefácio para a edição brasileira)

Por Susana Moita
Segundo Daniel Goleman em seu livro “Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente”, ter Inteligência Emocional é:

1. Ter autocontrole;
2. Ter zelo e persistência;
3. Ter capacidade de automotivação;
4. Coordenar eficazmente seus esforços no trabalho em equipe;
5. Liderar na formação de consenso;
6. Promover cooperatividade, evitando conflitos;
7. Tomar iniciativa;
8.  Ter empatia, ou seja, ter capacidade de ver as coisas da perspectiva de outrem.


Para Daniel Goleman, as emoções andam juntamente com a razão. Desta forma, nosso desempenho na sociedade depende tanto do nosso emocional quanto do nosso racional.

A Inteligência Emocional é baseada na nossa autoconsciência e no nosso autocontrole emocional.

A autoconsciência é a nossa capacidade de afastar pela racionalidade nossas emoções negativas. Já o autocontrole é a nossa capacidade de manter pela racionalidade o equilíbrio de nossas emoções.

O autor dá algumas dicas de alcançar o autocontrole da raiva, da ansiedade e da melancolia.

Para ele, podemos controlar a raiva por intermédio do isolamento ou da prática de algum entretenimento e podemos controlar a ansiedade, doença de nosso século, por meio dos seguintes passos:

1. Autoconsciência;
2. Relaxamento; e
3. Contestação dos pensamentos preocupantes.

Já para controlar a melancolia devemos recorrer a atividades com amigos, elevar a auto-imagem, cumprir algum dever, fazer filantropia, participar de alguma religião ou comparar-se com alguém que esteja em pior situação que você.

Pessoas com Inteligência Emocional se destacam em nossa atualidade, pois estamos cercados por pessoas com doenças emocionais geradas pelas cobranças de uma sociedade capitalista e consumista, onde o ponto ótimo nunca poderá ser alcançado. Nunca está bom o suficiente.

É intrínseca ao líder a Inteligência Emocional. Portanto, se você constatou que você tem Inteligência Emocional, será que você tem o perfil de um líder?

Uma das características do líder é a facilidade na comunicação interpessoal. Assim, um líder deve manter um relacionamento saudável com seus liderados, tendo como prioridade a capacidade de ouvir.

Por meio deste relacionamento que o líder não domina, mas convence as pessoas a trabalharem em vista de um objetivo comum, mexendo com suas emoções ao utilizar a racionalidade.

Um líder deve saber criticar de forma a manter um relacionamento saudável com seus liderados.

As críticas deverão ser feitas pessoalmente e ter como alvo os fatos, não as pessoas, além de estarem sempre acompanhadas de sugestões.

Como todo ser humano, um líder também recebe críticas, mas ele não cai na defensiva, ele assume suas responsabilidades.

As coisas fluem mais suavemente para os líderes, pois eles investem tempo no cultivo de bons relacionamentos com pessoas cujos serviços podem ser necessários numa emergência, como parte de uma instantânea equipe improvisada para resolver um problema ou lidar com uma crise, formando redes de comunicação, conhecimento e confiança.

O perfil de líder não está só nos genes, mas no ambiente em que vivemos. Portanto, nossas aptidões emocionais não são um fato determinado, mas podem ser aperfeiçoadas com o aprendizado certo.

Um líder soluciona seus problemas seguindo o seguinte modelo:

1. Diz qual é a situação e como o faz sentir;
2. Pensa nas suas opções para solucionar o problema;
3. Pensa quais podem ser suas consequências;
4. Escolhe uma solução e a executa.

Denise Paraná em “Lições de resiliência: burro sem rabo, porém feliz” acrescenta a resiliência como outra característica da Inteligência Emocional, ou do líder como seu possuidor.

A resiliência é a capacidade de superação das adversidades da vida, transformando dor e sofrimento em força e adaptabilidade.

Mesmo que não tenhamos todas estas características emocionais e, consequentemente, racionais, podemos buscar o aperfeiçoamento com um contínuo aprendizado e autotreinamento.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Fluxo: Arte, Ciência e Sincronicidade?

Um compositor descreve os momentos em que sua arte atinge o ponto mais alto:
Nós mesmos estamos a tal ponto em estado extático que nos sentimos como se quase não existíssemos. Senti isso repetidas vezes. Minha mão parece livre de mim, e nada tenho a ver com o que se passa. Simplesmente fico ali observando, em estado de respeito e maravilha. E a coisa simplesmente flui por si mesma.
Sua descrição é notadamente semelhante à de centenas de homens e mulheres diversos — alpinistas, campeões de xadrez, médicos, jogadores de basquete, engenheiros, gerentes, até mesmo arquivistas — quando falam de um momento em que se superaram em alguma atividade predileta. O estado que descrevem é chamado de "fluxo" por Mihaly Csikszentmihalyi, o psicólogo da Universidade de Chicago que recolheu essas histórias de desempenho máximo em duas décadas de pesquisa. Os atletas conhecem esse estado de graça como "a zona", onde a excelência vem fácil, a multidão e os competidores desaparecendo numa feliz e constante absorção do momento. Diane Roffe-Steinrotter, que ganhou uma medalha de ouro em esqui nas Olimpíadas de Inverno de 1994, disse depois da corrida que só se lembrava de que estava mergulhada em relaxamento:
— Eu me sentia como uma cachoeira.
A capacidade de entrar em fluxo é inteligência emocional no ponto mais alto; o fluxo representa, talvez, a última palavra na canalização das emoções a serviço do desempenho e aprendizado. No fluxo, as emoções são não apenas contidas e dirigidas, mas positivas, energizadas e alinhadas com a tarefa imediata. Ver-se colhido no ennui da depressão ou na agitação da ansiedade é ser barrado do fluxo. Contudo, o fluxo (ou um mais brando microfluxo) é uma experiência pela qual quase todo mundo passa às vezes, sobretudo quando no máximo do desempenho ou indo além dos limites anteriores. Talvez seja mais pelo ato de amor extático, a fusão de dois num um fluidamente harmônico.
Essa experiência é gloriosa: o sinal característico do fluido é uma s alegria espontânea e mesmo êxtase. Por ser tão bom, é intrinsecamente compensador. É um estado em que as pessoas ficam absolutamente absorvidas no que estão fazendo, dando indivisa atenção à tarefa, a consciência fundida com os atos. Na verdade, interrompe o fluxo pensar demais no que está acontecendo — até a ideia "Estou fazendo isso maravilhosamente" pode quebrar a sensação de fluxo. A atenção fica tão concentrada que as pessoas só tem consciência da estreita gama de percepção relacionada com a tarefa imediata perdendo a noção de tempo e espaço. Um cirurgião, por exemplo, lembrava uma operação desafiante durante a qual entrou em fluxo; quando a concluiu notou alguns detritos no chão da sala de operação e perguntou o que acontece Ficou espantado ao saber que, enquanto estava tão concentrado na cirurgia, parte do teto desabara — não havia notado nada.
O fluxo é um estado de auto-esquecimento, o oposto da ruminação e preocupação: em vez de perder-se em cuidados nervosos, as pessoas em fluxo tanto se absorvem na tarefa imediata que perdem toda a autoconsciência, deixando as pequenas preocupações — saúde, contas, até mesmo o bem-estar — da vida diária. Nesse sentido, os momentos de fluxo são abnegados. Paradoxalmente, as pessoas em fluxo exibem um controle absoluto do que estão fazendo, as reações perfeitamente sintonizadas com as cambiantes exigências da tarefa. E embora atuem no ponto mais alto quando em fluxo, não se preocupam com como estão se saindo, com ideias de sucesso ou fracasso — o que as motiva é o puro prazer do ato em si.
Há várias maneiras de entrar em fluxo. Uma delas é concentrar intencionalmente uma aguda atenção no que se está fazendo; a essência do fluxo e um estado de alta concentração. Parece haver um círculo de feedback na entra dessa zona: pode exigir considerável esforço acalmar-se e concentrar-se suficiente para iniciar a tarefa — esse primeiro passo exige uma certa disciplina Mas, assim que a concentração começa a fixar-se, assume uma força própria que ao mesmo tempo proporciona alívio da turbulência emocional e torna ta tarefa.
A entrada nessa zona pode ocorrer também quando as pessoas encontram uma tarefa em que são hábeis e a executam num nível que pouco exige capacidade. Como me disse Csikszentmihalyi: — As pessoas parecem concentrar-se melhor quando o que lhes é exige um pouco mais que o habitual, e elas podem dar mais que o habitua. Se as exigências são poucas demais, elas se entediam. Se tiverem de lidar com coisas demais ficam ansiosas. O fluxo ocorre naquela zona delicada entre o tédio e a ansiedade.
O prazer, a graça e a eficácia espontâneos que caracterizam o fluxo são incompatíveis com sequestros emocionais, em que os surtos límbicos se apoderam do resto do cérebro. A qualidade da atenção no fluxo é relaxada mas centrada. É uma concentração muito diferente do esforço para prestar atenção quando estamos cansados ou entediados, ou quando nossa atenção é assediada por sentimentos intrusos como a ansiedade ou a raiva.
O fluxo é um estado sem estática emocional, a não ser por um sentimento • o altamente motivador, de suave êxtase. Esse êxtase parece ser um produto da concentração de atenção que é um pré-requisito do fluxo. Na verdade a literatura clássica das tradições contemplativas descreve estados de absorção que são sentidos como pura felicidade: fluxo induzido por nada mais que intensa concentração.
Ver alguém em fluxo dá a impressão de que o difícil é fácil: o auge do desempenho parece natural e comum. Essa impressão é paralela ao que se passa no cérebro, onde um paradoxo semelhante se repete: as mais desafiantes tarefas são executadas com um dispêndio mínimo de energia mental. No fluxo, o cérebro se acha num estado "frio", a estimulação e inibição dos circuitos neurais sintonizados com a demanda do momento.
Quando as pessoas se acham empenhadas em atividades que prendem e mantêm sem esforço a sua atenção, seu cérebro "se aquieta", no sentido de que ocorre uma diminuição de estimulação cortical. Essa descoberta é notável, uma vez que o fluxo permite que as pessoas enfrentem as mais desafiantes tarefas num determinado campo, seja jogando contra um mestre de xadrez ou solucionando um complexo problema matemático. A expectativa seria de que essas tarefas desafiantes exigissem mais e Cortical, não menos. Mas uma chave para o fluxo é que ele só ocorre o cume da capacidade, onde as aptidões estão bem ensaiadas e os circuitos neurais mais eficientes.
Uma concentração forçada — uma concentração alimentada por preocupação — produz maior ativação cortical. Mas a zona de fluxo e desempenho ideal parece um oásis de eficiência cortical, com um dispêndio mínimo de energia mental. Isso faz sentido, talvez, em termos da prática na atividade que permite que as pessoas entrem no fluxo: o domínio das etapas de uma tarefa física, como escalar rochedos, ou mental, como a programação de computadores, significa que o cérebro pode ser mais eficiente em sua execução. As etapas bem praticadas ainda exigem menos esforço do cérebro do que as que estão aprendendo, ou as ainda muito difíceis. Do mesmo modo, quando o cérebro trabalha com menos eficiência, devido ao cansaço ou nervosismo, como acontece ao fim de um dia longo, o estressante, há um turvamento da precisão do esforço cortical, com a ativação de demasiadas áreas supérfluas — um estado geral que se sente como estando altamente distraído. O mesmo acontece no tédio. Mas, quando o cérebro atua na eficiência máxima, como no fluxo, há uma relação precisa entre as áreas ativas e as exigências da tarefa. Nesse estado, mesmo o trabalho árduo pode parecer mais renovador e restaurador que esgotante.
(Daniel Goleman –Inteligência Emocional – Ed. Objetiva)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Síndrome de Rebeca

Num post anterior (Decepções Amorosas Podem Ser Como um Vício) a solução apresentada para os rejeitados no amor era encarar os reveses como um processo de aprendizagem onde o tempo era apresentado como o melhor aliado.

Eu acrescento que além do tempo há na verdade mais dois aliados. Por experiência própria cheguei a conclusão de que não é apenas uma, mas que existem três coisas que podem curar uma ferida de amor: Tempo, Distância e Desamor.

Para se livrar de um "encosto" emocional capaz de trazer tantos problemas conforme dito na postagem citada, comece colocando um oceano de distância (fisica e/ou emocional) entre você e o objeto de sua paixão, depois aceite com todas as forças do seu ser que ele(a) NÃO TE QUER MAIS e espere o tempo passar (essa sem dúvida é a parte mais difícil); uma hora, representada quase sempre pelo fato de poder se referir a pessoa em questão sem usar eufemismos como: o "troço", o "traste", o "falecido(a)" ou "aquele(a) cujo nome não deve ser pronunciado numa casa de família", você vai perceber que o fantasma foi devidamente exorcizado e você pode seguir sua vida.

Entretanto, se alguém; um amigo, colega, vizinho, o cara sentado ao seu lado no ônibus ou na fila do banco, vier com aquele papo de, ao saber que você terminou um relacionamento recente: ah! "um amor se cura com outro" e Ah! a "fila anda", cuidado! Você pode ser acometido da "Síndrome de Rebeca".

A "Síndrome de Rebeca" é descrita num livro de Carmem Posadas do mesmo nome onde ela parte do enredo do primeiro filme de Alfred Hitchcock na América em 1940 (“Rebeca – A Mulher Inesquecível”), onde uma Jovem humilde se casa com um rico homem chamado Maximilian de Winter e se muda para a mansão do novo marido, vivendo sob a sombra de sua ex-mulher, que todos idolatravam e morreu de forma trágica. Ela nem chega a ter nome na história, é conhecida apenas como a nova senhora De Winter.

A ideia básica é que alguém recém-separado está frágil aos fantasmas do passado e portanto incapaz de tomar uma decisão acertada capaz de colocar alguém decente em sua vida amorosa. Ou procura uma cópia, ou alguém diametralmente oposto, ambas as escolhas podem ser o prelúdio para o desastre.


É saudável, preciso e necessário um período sabático entre um relacionamento e outro, uma “quarentena”, um “balanço geral” que só pode ser feito com tempo e após a cicatrização das feridas emocionais, por que tem que ser feito de cabeça fria. E acredite: sempre há feridas emocionais.

Alguém disse certa vez, “Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance”. A dor tira o discernimento para boas decisões e aí entram o que eu chamo de “os três faxineiros das emoções”: Tempo, Distância e Desamor para limpar o terreno e criar condições para o novo e a não-manutenção de refugos emocionais ou mais do mesmo.

Recomendo veementemente a leitura do livro, que encontrará no sebo ou livraria mais perto de você. Mas para terminar vou colocar dois testes tirados de lá: um para saber se você mantém vivo um fantasma do passado e outro para saber se você pode estar acometido da síndrome. Em caso afirmativo aconselho que busque uma solução, qualquer uma. Com certeza isso vai melhorar sua vida como um todo.


TESTE PARA SABER SE VOCÊ MANTÉM VIVO O FANTASMA DO PASSADO

Entre os que alimentam Rebeca há os que o fazem de forma involuntária, mas há também muitas pessoas que, na realidade, recorrem ao impossível para mantê-la com vida, apesar de tantas adversidades. Para saber se você é um desses caçadores com ideias confusas, responda sim ou não às perguntas abaixo:

1. No fundo de sua mente, acredita na possibilidade de uma reconciliação com seu(sua) "ex"?
SIM/NÃO

2. Considera o rompimento anterior como um fracasso em sua vida? Sente-se culpado(a)?
SIM/NÃO

3.         Sabe que o amor que tenta esquecer é um amor impossível, não por um problema de sentimentos e sim por circunstâncias sociais ou de outro tipo? Por exemplo:
a)Ele é motorista (22 primaveras) e você a diretora da empresa (39 anos).
b) Ela é casada com um homem rico, e você não tem vintém. Estão apaixonados um pelo outro, mas...
SIM/NÃO

4.Você está entre os que confundem amor com amor-próprio? Seu rompimento anterior foi muito traumático... em especial para seu ego?
SIM/NÃO

5.         É quase impossível para você a ideia de iniciar uma nova relação? Teme voltar a se equivocar e criar para si problemas tão grandes ou maiores que os que acaba de deixar para trás?
SIM/NÃO

6.         Foi você quem abandonou seu par e está arrependido(a)? Gostaria de fazer o relógio voltar no tempo? Recomeçar tudo?
SIM/NÃO


Se você respondeu SIM a alguma das perguntas acima é certo que você mantém vivo um fantasma do passado. Cuidado! Pense com a cabeça e não com outro(s) órgão(s) e pergunte-se: há alguma possibilidade de conciliação? Se a resposta for sim, compre um ramalhete de flores ou uma gravata (segundo o caso) e corra à casa de seu(sua) amado(a). Boa sorte!
Quanto aos outros... Já pensou melhor e acredita que, embora seja difícil, o melhor é se libertar daquele amor? Em uma palavra: quer se desenamorar? Sim? Então, anime-se, não é tão difícil como parece.




COMO DESCOBRIR AS VÍTIMAS DA SÍNDROME DE REBECA.
Escolha entre as opções A e B aquela que no seu entender se enquadre melhor com seu caso atual.

01 – Seu amor atual:
A) Se parece muito (física, espiritual ou circunstancialmente) com seu(sua) "ex".
B) Não tem nenhuma semelhança. Ainda mais, são a antítese.

02 – Quanto aos atos do seu parceiro:
A) Irrita-lhe descobrir em seu par defeitos ou virtudes que tinha o(a) outro(a).
B) Jamais fez a comparação. Parece-lhe de mau gosto.

Quanto ao lugar onde mora:
A) Seu lar atual, a maneira com que está decorado etc, é a cópia exata do que compartilhava com seu(sua) "ex".
B) Tudo ao contrário. É claramente diferente.

Quanto as suas preferências:
A) Todos os homens(mulheres) pelos(as) quais se sente atraído(a) têm um denominador comum.
B) Absolutamente. São totalmente diferentes.

Quanto ao “ex”:
A) Em momentos de enfado ou paixão ocorreu-lhe deixar escapar alguma vez o maldito nome do(da) outro(a).
B) Cuida-se muito para que isto não ocorra e consegue.


Solução
Respondeu sim às perguntas A e não às B? Ou vice-versa? Pois sinto dizer-lhe que dá exatamente no mesmo. Tanto se busca algo idêntico ao passado como se lhe atrai o pólo oposto, ambas as qualidades revelam que Rebeca anda por aí, à solta.

O livro: A Síndrome de Rebeca: Guia para Exorcisar Fantasmas Amorosos. De Carmem posadas, Editora Record, 1988.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Decepções Amorosas Podem ser como um Vício

"Não posso ir jantar contigo, muito menos ir ao cinema", dizia a mensagem de texto em resposta ao convite que eu tinha feito mais cedo. Pela minha mente só passava uma ideia: ela não quer me ver. Dias depois, apareceu em meu monitor uma janela de chat com estas palavras: - "Se por este meio começamos a relação, por este meio terminamos". Ao ler essa frase, imediatamente senti um frio na barriga. Fechei a janela de diálogo e fui brincar com meus cães para aliviar a dor da rejeição. A iminente perda de uma relação amorosa e sentir seu desprezo foram difíceis.

A rejeição romântica é um fenômeno comum que causa sofrimento intenso em muitas pessoas, principalmente àquelas que se entregam incondicionalmente à paixão. Canções, histórias e poemas foram criados em momentos inundados de desamor, inspirados na obsessão por obter uma resposta positiva ante as petições afetivas ou eróticas. Empenhamo-nos em seguir aí, presos àquele sentimento, insistindo.

A doutora Helen Fisher e seus colaboradores publicaram neste ano [2010] um artigo na revista Journal of Neurophysiology no qual explicam detalhadamente o sistema de controle de gratificação, vício e emoção gerado durante a rejeição romântica. Este estudo tem envolvimentos no entendimento desses sentimentos difíceis de controlar e que podem derivar em condutas extremas associadas à rejeição, como perseguir e espreitar, bem como em suicídios e homicídios, praticados em várias culturas ao redor do mundo.

Ao perceber uma resposta negativa no âmbito amoroso ativam-se regiões cerebrais envolvidas na motivação para um objetivo específico (não para uma emoção), o que gera uma forma de vício. De repente, a pessoa se encontra enviando mensagens, fazendo ligações e escrevendo bilhetinhos apaixonados. Esse comportamento de insistência tem como fim atingir uma meta, como se tratasse de obter uma recompensa.

O estudo foi realizado em pessoas jovens que foram recusadas por seus parceiros e que ainda se sentiam apaixonados. Aplicaram-lhes um teste chamado "Escala de amor passional", para determinar quão fortes eram seus sentimentos de paixão.

Em média, os participantes disseram ocupar aproximadamente 85% de seu tempo pensando na outra pessoa, e também almejavam que ela correspondesse e voltasse.

Pediram a todos os participantes que observassem uma foto de seu ex enquanto aplicavam uma ressonância magnética computadorizada quando apreciou-se nesta fase a atividade cerebral das seguintes áreas:

Área ventral tegmental. Relacionada com o sistema límbico, esta região controla a motivação e gratificação, bem como os sentimentos de paixão.

Córtex pré-frontal. Aí regulam-se o vício e a ansiedade, bem como o sistema de recompensa de dopamina -principal substância química cerebral implicada na paixão, que também se ativa com o vício à cocaína.

Outra região do córtex cerebral que associa dor física e sofrimento.

Com estes dados, a doutora Fisher e sua equipe sugerem que uma decepção amorosa se converte em um estado motivacional orientado a uma meta, em vez de uma emoção específica. Trata-se, pois, de resultados consistentes que apóiam a hipótese na qual se aprecia à rejeição romântica como uma forma específica de vício.

Quem vive uma rejeição amorosa pode estar lutando contra um sistema forte de sobrevivência que, ao que parece, é a base de muitos vícios. Por isso resulta tão difícil renunciar a quem amamos.

Há esperança para os rejeitados no amor? Felizmente sim. Quem viveu uma situação desta natureza apresenta atividade em áreas que solucionam conflitos emocionais complexos, bem como a avaliação de perdas e ganhos.  Desta forma as pessoas buscam entender e aprender sobre esta incômoda situação. Isto deriva em uma resposta adaptativa à rejeição. É um processo de aprendizagem que demonstra que o tempo é o melhor aliado para curar as feridas de amor.