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sábado, 26 de junho de 2010

Charles Disco e o Sequestro Misterioso (Capitulo 05)

CAPÍTULO 05
Disco cruza a cidade e para sua moto próximo a um dos muros da imensa propriedade dos Monte Verde localizada na velha Estrada da Barra, bem próxima ao Itanhangá. Habilmente sobe no selim da motocicleta e pula alcançando o topo do alto muro. Uma rápida olhada, um salto e está de pé do lado de dentro. Avança medindo os passos por vários minutos por dentro do terreno arborizado evitando as trilhas normais até chegar a mansão imponente que dominava aquele despropósito de terras.
- Até aqui foi fácil. - Pensa ele - Achei que teria mais dificuldades para entrar.
Atravessa o bem cuidado jardim e sobe as escadas que levam a varanda colunada que ladeia toda a casa. Quando põe os pés sobre o piso de mármore de carrara Cor-de-rosa e branco cortado em lajes de um metro quadrado é surpreendido pelo engatilhar de armas. Ainda abaixado na tentativa de esconder sua presença, vê a sua frente as pernas envolvidas em uma meia calça branca e o sapato alto cor-de-rosa de Sheila Monte Verde.
- Bom dia, Senhor Disco. Seja bem vindo!
Ele endireita-se e vê a mulher diante dele, ladeada por um batalhão de homens de terno escuro fortemente armados.
- Está tudo bem, rapazes! - Fala gesticulando - Podem deixar o Senhor Disco por minha conta. Apesar da entrada pouco educada, ele está trabalhando para nós.
Os homens se retiram.
- O que tentava provar com isto?
- Queria apenas testar a sua segurança.
- Como pode ver, ela é perfeita. Estava sendo monitorado desde o modo deselegante como pulou o muro.
- Mesmo assim cheguei até aqui.
- Foram ordens minhas, não queria estragar o seu passeio. O que achou do que viu?
- Foi muita bondade sua. É tudo muito bonito, mas não foi por isso que vim até aqui. Preciso de mais informações.
- De que tipo?
- Toda que puder me ajudar a encontrar a sua sobrinha.
- Então pode começar a perguntar.
- A quanto tempo tem esse sistema de segurança?
- Meu pai sempre foi muito meticuloso nesse sentido. Sempre houve segurança nesta casa. Nós nos orgulhamos de mantermo-nos sempre atualizados nesse campo. Desde que nasci pude desfrutar de muita paz nesse lugar. Posso dizer mesmo que temos a melhor equipe de segurança do país.
- Só que infelizmente não foi suficiente...
- Mérito dos sequestradores, Não negligência nossa.
- Será que poderia dar umas voltas por aí?
- Porquê?
- Gostaria de falar com a criadagem
- Vou providenciar. - Diz virando-se e entrando na casa - Venha comigo.
Ela leva Disco até a sala de estar da mansão onde encontra uma mulher vestindo um sóbrio tailleur, de pé próximo a escada de mármore que sobe para o segundo andar. Fala algo com ela e volta para perto de Disco que admirava a suntuosidade do local.
- A governanta vai preparar as entrevistas, mas desde já adianto que isso não será de muita valia. A polícia já fez isso.
- Tenho de lembrar a senhorita mais uma vez: - Fala enquanto examina o luxo dos lustres de cristal e das obras de arte espalhadas pela casa -  Eu não sou da polícia.
Um pouco irritada, Sheila muda de assunto.
- Todos os nossos empregados estão conosco a muitos anos. São da mais absoluta confiança e recebem salários muito acima dos pagos pelo mercado.
- Não estou dizendo o contrário, mas às vezes um empregado vê mais coisas que o seu patrão. E é justamente o que eu procuro: detalhes que passaram despercebidos aos sabujos do Matias.
Disco circulou por toda parte, sempre sob os olhos atentos da governanta e dos seguranças, entrevistou todos os empregados e não conseguiu muita coisa. Os criados sabiam pouco mais do que os donos da casa. Todos tinham como dissera Sheila, mais de dez anos de trabalho ininterrupto. Apenas um caso destoava dos demais.
Há exatos oito meses, o jardineiro, que morava fora da propriedade, fora atropelado ao sair de casa e quebrara uma perna; sendo substituído por um outro indicado por uma agência de empregos de máxima confiança, com todas as referências possíveis. Trabalhou por três meses, até que o acidentado se recuperasse totalmente e retornasse em plena forma às suas atividades. Segundo Sheila e a governanta era de conduta e pontualidade irrepreensível, mas quando José, o jardineiro, retornou, não quis ser efetivado como seu ajudante e resolveu ir embora.
- Ele estava em casa quando a menina foi levada?
- Sim. Ainda trabalhava conosco. - Respondeu a governanta - A polícia o interrogou, e liberou como a todos os outros.
Quanto as armas, apesar dos presentes não saberem definir, percebeu que utilizaram submetralhadoras com alto poder de fogo, fuzis e pistolas automáticas e semi-automáticas, o que demonstrava ser coisa de profissionais. A entrevista com o avô, ainda traumatizado, com a babá e a mãe, não rendeu nada que Disco ainda não soubesse.
- Acho que está na hora de ir. - Fala descendo as escadas ao lado de Sheila. - Pode arranjar alguém para me acompanhar até o local onde deixei a minha moto? - Diz irônico - Sabe como é... De repente me confundem com algum desafeto da família e aí já viu...
- Não é necessário, senhor Disco. Já mandei trazer a sua antiguidade. Ela está na saída principal. - Aponta para a porta.
- Sua gentileza não tem tamanho.
- O que pretende fazer agora? - Pergunta enquanto Disco senta-se na moto.
- É segredo profissional. - Diz ele ligando a motocicleta - Quando tiver algo eu lhe procurarei.
Afasta-se ruidosamente levantando uma nuvem de fumaça e poeira.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Charles Disco e o Sequestro Misterioso (Capítulo 04)

CAPÍTULO 04
É manhã de segunda-feira e Charles Disco está em Copacabana numa das ruas transversais que dão acesso a avenida Atlântica e cruza a rua, indo na direção das escadas de mármore da delegacia 54. O prédio é antigo e foi reformado na década de 90 para abrigar a Delegacia Central onde estava o Departamento Antissequestros da zona sul. Tem estilo misto e mastros com bandeiras da cidade e do estado exatamente sobre as duas colunas que ladeiam a entrada.
Aquela hora, a sala do delegado-chefe Cláudio Vicente Matias estava calma. Tudo naquele dia estava normal. Era uma sala ampla com uma mesa escura no centro, cujo tampo luzidio refletia as lâmpadas fluorescentes do teto. Sobre ela, três telefones, um vermelho e dois beges, um porta retrato duplo com fotos de família e a plaqueta triangular com seu nome escrito em bronze sobre ébano.
Matias era um homem grande, moreno, de cabeça quadrada e cabelo crespo, com um fino e bem tratado bigode. Estava sentado a mesa, segurando uma caneca de café com ambas as mãos, realçando o ventre gordo ao qual faltavam alguns exercícios.
Alguém bate na porta.
- Pode entrar! - Ordena ele.
O delegado Fecha a cara quando reconhece a visita.
- O que quer aqui?
Disco nunca deixava de se impressionar com a mania de limpeza de Matias. Havia um arquivo metálico à direita e um pequeno armário preto à esquerda, onde mantinha seus processos, sobre ele, uma cafeteira elétrica e alguns copos. A porta do banheiro ficava também à direita.
- Vim conversar com você.
- Acho que não temos nada para conversar. - Diz secamente.
- Sabe, Matias... Eu adoro vir aqui. Esse seu escritório parece saído de um comercial de produtos de limpeza.
- É delegado Matias, senhor Disco. Diga logo o que o trouxe aqui. Não tenho tempo a perder com você.
- Não imagina? - Pergunta ironicamente - Quero informações sobre o rapto de Anna Carla Monte Verde.
- Então aceitou o caso?
- Sim. E obrigado por me indicar.
- Bah! - Desdenha ele - Só queria me ver livre daquela gente chata. Ficavam o tempo todo no meu pé.
- A coisa está tão feia assim?
- Estamos fazendo o melhor que podemos. Não precisamos de ninguém para nos encher o saco. E isso vale para você também!
- Não se altere, Matias. Que tal me contar o que já descobriu?
- Quer dizer que o grande detetive agora recorre aos profissionais?
- Eu não sou detetive, Matias!
- Muito bem, “grande aventureiro”, vou dizer-lhe o que sabemos, até porquê não é segredo para ninguém: A menina foi raptada por um bando muito bem treinado, que sabiam exatamente como agir e quem levar. Interrogamos todos na casa e não descobrimos nenhuma pista. Só o que sabemos é que esse não foi o seu primeiro ataque.
- Como assim?
- Há exatos seis meses antes do seqüestro da garota, um grupo que corresponde a mesma descrição desses, atacou a cobertura de Eleonora Kiriaki no décimo quinto andar de seu prédio no Grajaú em pleno dia e a levaram junto com a maioria dos objetos de valor sem que ninguém notasse nada de anormal.
- Qual a idade dessa Eleonora?
- Sessenta e cinco anos.
-. Tinha alguma ligação com a família Monte Verde?
- Nós checamos isso. Freqüentavam as mesmas festas e encontros sociais, nada mais, como uma centena de socialites da cidade. Nenhum padrão aparente já que no caso da menina dos Monte Verde nada foi levado.
- Ambas são mulheres, ricas e raptadas num espaço de seis meses sem resgate. Isso me parece um padrão.
- Que quer dizer o quê?
- Me faz pensar porque não teriam feito contato... Será que não terminaram seu trabalho e voltaram a atacar de novo por esses dias?
- Ataques de seis em seis meses? - Debocha o Delegado.
- Daria tempo para estudarem uma outra possível vítima.
- É óbvio demais.
- Os árabes tem um ditado muito interessante... Ele diz que se uma coisa acontece da mesma forma duas vezes, com toda certeza acontecerá uma terceira. Às vezes, meu caro Matias, é nas coisas óbvias que se escondem as respostas para os maiores enigmas. - Fala Disco saindo da sala.
- É Delegado Matias, Sherlock de araque! - Esbraveja enquanto a porta se fecha atrás de Disco.

Charles Disco e o Sequestro Misterioso (Capítulo 03)

CAPÍTULO 03
Disco abre um dos alforjes pendurados na lateral de sua moto e retira de lá dois objetos. Do outro lado retira uma espingarda de dois canos e vira-se para a praça.
O tempo estava quente e uma brisa fresca balança as árvores.
Disco coloca uma das granadas no bolso externo do sobretudo, a espingarda sob o braço direito e dá uns passos em direção da praça. Com o indicador da mão direita puxa o pino da granada em sua mão e lança-a no meio dos punks. A explosão apanha-os em cheio, arremessando corpos para todos os lados. Segundos depois os punks jaziam espalhados por toda a praça.
Disco avança lentamente. O silêncio que se faz só é quebrado por seus passos no asfalto e depois sobre a grama e pelos débeis gemidos dos punks que ainda estavam conscientes. Ele dirigiu-se mais uma vez ao líder que estava caído a poucos metros de onde falara com ele pela última vez com a cara enterrada na grama.
Ele abaixa-se segura os cabelos de Shirley pela nuca levantando seu rosto sujo de terra e apontando os dois canos da arma para seu nariz. O homem geme e balbucia algo, abrindo os olhos e deparando-se com as duas bocas negras da espingarda.
- Sabe o que é isso, Shirley?
O homem arregala os olhos.
- É uma cano duplo calibre 12 feita especialmente para mim.
O homem estremece.
- Eu poderia estourar sua cabeça como um melão podre. Você tem sorte de eu ser bonzinho e só ter usado uma granada de concussão contra vocês, porque senão, a essa hora a polícia teria de juntar os pedaços da sua gente com uma pá de lixo.
O punk sua frio.
- Não quero desperdiçar munição com gente da sua laia, ela é muito cara. Quero apenas que parem de envenenar pessoas inocentes!
Em volta mais alguns voltam a consciência.
- E mais uma coisa: Se eu souber que mais alguém foi contaminado e um de vocês estava no mesmo quarteirão que ela , preparem-se, porque o primeiro a ser eliminado será você. E se continuarem... Para cada doente que aparecer, vou pegar dois de cada vez, até que não reste nenhum. Até que toda a sua corja tenha desaparecido completamente da cidade. Você me entendeu?
Shirley assente com a cabeça.
- E para que não pense que estou brincando, vou deixar em você uma pequena marca da minha palavra. - Disco puxa para trás os dois cães da espingarda e o homem entra em pânico.
- Tudo bem, cara! Tudo bem! - Protesta o punk - Já entendi o recado!
- Ótimo. Porque não quero que tentem nenhuma gracinha. Se cruzarem o meu caminho novamente...
Disco larga o punk e afasta-se, sempre de frente para a praça. Monta na moto e some na noite.
- É como vovô sempre me dizia: com educação e gentileza se consegue tudo. - Pensa ele.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Charles Disco e o Sequestro Misterioso (Capítulo 02)


CAPÍTULO 02
É noite de sábado na Zona Sul e a roda prateada de uma motocicleta Harley Davison de garfo dianteiro longo modelo 1969, encosta na calçada a poucos metros de uma praça mal iluminada numa área barra pesada na periferia do Centro Antigo próximo ao bairro da Glória e da Lapa.
- Acho que nem os homens da Seara dos Homens Santos se atreveria a sair a esta hora da noite. - Pensa Disco desligando a moto. - Mas, enfim... há um trabalho a ser feito. É incrível como os cidadãos tornaram-se prisioneiros de suas próprias casas nesses tempos. Os que não são achacados tolamente pelo Reverendo Hammer e seus iguais, cederam a cidade aos delinqüentes de todos os tipos que perambulam por aí tentando conseguir algum dinheiro fácil.
Disco observa adiante, no centro da praça, um grupo de punks que fazem algazarra num gramado ao redor de uma fogueira, numa orgia de todos os tipos.
- Há notícias de viciados contaminando inocentes com o vírus da AIDS através de seringas cheias de seu próprio sangue e eu fui contratado para acabar com isso. A AIDS hoje em dia não é mais do que uma doença sexualmente transmissível entre tantas, mas seu tratamento longo e trabalhoso. A atitude irresponsável desses idiotas pode resultar em uma nova epidemia. Eu tenho duas maneiras de resolver esse problema, uma fácil e uma difícil... A difícil vou tentar agora.
Ele deixa a moto e caminha em direção ao grupo. Usa um longo sobretudo jeans sobre suas roupas e luvas com dedos curtos próprias para dirigir.
- Boa Noite! - Diz ao aproximar-se.
- Qualé, cara? - Pergunta um punk com cabelo cortado em corte moicano que estava com o rosto mergulhado nos seios de uma mulher com longos cabelos pretos eriçados e vestindo calças e um colete aberto de couro preto.
- Estou aqui para conversar com vocês.
- Tu é tira? - Pergunta outro punk, vestindo-se com roupas rasgadas e com um garrote de borracha no braço pronto para se aplicar com a droga contida numa seringa que estava em sua outra mão
- Não. Sou apenas um cidadão interessado.
- “Cidadão interessado” é? - Debocha um outro punk - Tu tá é a fim de um pico.
- Se for isso - Diz o primeiro - É melhor “sartá” fora que a gente não fornece bagulho. Temos apenas para o nosso consumo.
- É isso aí! - Gritam vários deles.
- Eu vim aqui porque recebi informações de que alguém desse grupo está usando seu próprio sangue para contaminar outras pessoas.
Faz-se um silêncio mortal.
Da parte mais afastada da praça, um homem corpulento aproxima-se abrindo caminho por entre os demais, aparentando ser o líder. Usa também um corte moicano e uma mosca sob o lábio inferior, colete de couro aberto, calças e botas pretas, além de piercerings espalhados pelo rosto, e nos mamilos.
- Escuta aqui, ô meu! - Desafia - Quem você pensa que é?
Disco fica em silêncio e ele se entusiasma.
- Chega aqui com esse cabelinho, essa roupa de hippie fora de moda e pensa que é o maioral! Te manca “mermão”!
- Escuta aqui vocês, panacas! - Reage Disco - Pouco me importa que fim vocês vão levar! Se querem se drogar, se droguem! Se querem morrer, morram! Mas deixem quem não tem nada a ver com isso longe das merdas que fazem com suas vidas!
Os punks erguem-se da grama e começam  cercar Disco.
- Acho melhor o garotão se mandar! - Diz o líder - Teu papo de “paz e amor” não tá colando!
- É isso aí, “Shirley”! - Grita um mais exaltado - Vamo dar um pau no otário!
- Tá vendo, malandro! - Fala Shirley, o líder. - Te manda antes que eles resolvam dar a você o tratamento especial.
Um dos punks sai das sombras com um porrete, outro com uma corrente pendendo das mãos e outro ainda trazendo uma seringa cheia de um líquido espesso e vermelho.
- Olha bem para isso aqui, cara! - Diz o homem com a seringa. -  Essa é a seiva das árvores contaminadas que nascem na selva da cidade. O sangue maldito que corre em nossas veias.
Disco permanece impassível e värios punks gritam incentivando o homem.
- É isso aí!
- Valeu poeta!
- Falou bonito agora!
- Te manda, cara! - Diz Shirley - Ou quando terminarmos contigo nem tua mãe vai te reconhecer!
- Isso mesmo! - Diz o poeta - E depois deixaremos a nossa marca e o tornaremos mais um irmão de sangue. O sangue podre que é a nossa herança para o mundo!
Depois dessas palavras, Disco afasta-se lentamente, mas sem dar-lhes as costas, voltando para a moto. Quando sentem que ele vai embora os punks se acalmam e suas atenções voltam-se para o centro da praça.
- Aparece cada tipo! - Comenta um.
- Tudo uns bundão. - Comenta outro.
- Cê deu duro mesmo nele, Shirley!
- Que nada! - Debocha ele - Esses babacas se borram à toa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Charles Disco e o Sequestro Misterioso (Capítulo 01)

Escrevi essa história a muito tempo. Hoje, quando me preparava para postá-la aqui me dei conta de quanto ela está datada. Mesmo assim ainda gosto dela... Seu personagem principal é uma homenagem aos durões da ficção como Dirty Harry, John Maclane e outros tantos. Um durão à brasileira numa história de mistério e um pouco de tiros e explosões: 



CHARLES DISCO E O SEQUESTRO MISTERIOSO




CAPÍTULO 01
LOCAL: O Rio de Janeiro de uma realidade alternativa em algum ponto dos anos 90.
- Querida... Tem certeza de que é por aqui?
- Cale a boca, George! Se eu dependesse de você, nunca teríamos encontrado o lugar. É claro que é aqui!
-Desculpe ...Querida...Mas... Esse bairro é tão esquisito...
- Tem razão, George, ainda mais para um covarde como você!
Sob a chuva fina, o casal avança munido de guarda-chuvas pelas calçadas estreitas das ruas aquela hora quase desertas do Centro velho da cidade entre a Praça XV de Novembro e a Rua Primeiro de Março. A sua volta, sobrados antigos com janelas em arco envidraçadas. Algumas ainda gastas pelo tempo e outras restauradas para servir como opção barata de aluguel de escritórios. As fachadas sucedem-se de ambos os lados, formando um mosaico com a cantaria e as antigas luminárias que cruzam a rua
A mulher é alta e bonita, veste um tailleur com mini saia, meia-calça brancas e sapatos de salto alto brancos. Tem cabelos louros encaracolados e bem tratados num corte moderno até os ombros, pequenos brincos brancos em forma de meia esfera e uma pequena maleta quadrangular também branca nas mão além do guarda-chuva cor-de-rosa.
O homem é magro, mas não muito. Tem cabelos castanhos curtos e anda encurvado, usa um terno tipo jaquetão cinza chumbo com botões, sapatos pretos além de um guarda-chuva também dessa cor.
- Chegamos, George, é esse o número!
- Aqui é o 528?
Estavam diante de uma entrada estreita, por onde subia uma escada de madeira quase vertical que perdia-se na escuridão.
Eles fecham os guarda-chuvas e começam a subir.
- O número da sala é 212. - Diz a mulher.
A medida que sobem, os degraus rangem, sob seus pés.
- Quantos anos deve ter esse lugar?
- Quem se importa com isso? - Fala ela - Não somos da Prefeitura para inspecionar a conservação do prédio. Quero é encontrá-lo aqui.
No topo da escada, um corredor se estende à direita e a esquerda.
- Vamos por aqui. - Diz a moça indo pela direita.
Andam alguns passos e param diante da porta 212. A mulher bate e de dentro uma voz é ouvida.
- Entre!
A sala não era muito grande. Á direita um homem alto de cerca de 30 anos estava de pé diante de uma grande janela, segurando uma caneca de porcelana branca nas mãos. Tem os cabelos pretos, compridos e encaracolados na altura dos ombros, barba mal aparada e usa uma camisa de malha  de gola polo, calça jeans e botas de alpinista.
- O que desejam? - Pergunta ele virando-se e indo sentar-se por trás de uma escrivaninha meio suja, com alguns bibelôs em cima, além de uma luminária antiquada e um telefone. Apoiando a caneca sobre o tampo.
- Procuramos por Charles Disco. - Fala a mulher.
George olha em volta como se estivesse vendo algo para ele muito estranho. Era um escritório pequeno. A escrivaninha dominava o ambiente. À direita estavam as duas janelas grandes com cortinas e no espaço entre elas um abajur de pé. Tudo com ar de antigüidade. Também do lado direito, na parede contígua a porta haviam dois sofás de um só lugar de madeira e couro. Por trás da escrivaninha, um mapa do Estado do Rio de Janeiro amarelado domina toda a parede, e sob ele um arquivo metálico de um metro e meio de altura ocupava todo espaço a exceção do canto esquerdo onde havia a porta de entrada da cozinha e da área de serviço.
- Então já encontraram.
- Estamos aqui por indicação do Delegado Cláudio Vicente Matias. Que apesar de afirmar não gostar muito do Senhor, achou que o melhor, na atual situação era procurá-lo. – Diz a mulher de forma pouco cortês.
- Sinto-me lisonjeado pela lembrança... Devo dizer que meus sentimentos com relação ao Delegado também podem ser descritos nesses termos... Porém, isso agora não vem ao caso. Quem são vocês e o que querem aqui?
- Meu nome é Sheila Monte Verde e esse é o meu noivo, George. Sou neta do renomado Juiz e Senador Oscar Monte Verde. Você deve conhecer. - Diz estendendo-lhe um cartão de visitas.
- Não. Infelizmente não conheço. - Pousa o cartão sobre a mesa depois de olhá-lo. - O que querem de mim?
- Precisamos dos seus serviço para encontrar minha sobrinha, Anna Carla Monte Verde - Diz a moça retirando uma foto da bolsa e estendendo-a a Disco. - Ela foi seqüestrada de dentro da nossa propriedade.
Disco olha a foto de uma menina loura e bochechuda de aproximadamente três anos de idade.
- Procuraram a polícia imediatamente?
- No mesmo dia, mas de nada adiantou. Ela simplesmente sumiu no ar. As investigações estenderam-se por longo tempo sem qualquer pista. Os policiais disseram para esperarmos o pedido de resgate para poderem fazer mais alguma coisa.
- Quanto tempo faz que levaram a menina?
- Seis meses.
- E nesse tempo não houve nenhum contato?
- Não.
-É bastante tempo. - Diz como que para si mesmo.
O casal permanece calado.
- Muito bem. Eu aceito o caso. Mas devo avisar que meu preço é bastante alto.
- Dinheiro não é problema. Ache a menina e diga o seu preço.
- Viva ou morta?
A mulher estremece por instantes, mas logo retoma sua pose habitual.
- Viva ou morta.
- Então vamos começar: Diga tudo o que sabe sobre o seqüestro incluindo o nome de todas as pessoas envolvidas. - Diz apanhando um bloco de notas em cima da mesa - Segunda-feira eu iniciarei a busca.
- Como assim, segunda-feira? - Altera-se a mulher - Porque não amanhã? - Indigna-se - Não trabalha nos fins de semana?
- Sim. Mas caso não saibam, não são meus únicos clientes. Há outras pessoas que necessitam dos meus serviços com tanta urgência quanto vocês.
Ela cala-se visivelmente contrariada.
- E quero lembrá-la, que não lhe prometi nada. Depois de tanto tempo eu nem mesmo poderia. Preciso de carta branca para trabalhar e sem pressões. Concorda?
- Mas, nós...
- Não se preocupe, senhorita... Somente cobrarei se encontrar a menina. Em caso contrário estará melhor do que está agora.
- Muito bem, senhor Disco, na verdade o senhor é nossa última esperança de encontrar Aninha. Quando puder começar a procurá-la, faça isso.
- Alegro-me que entenda a minha posição. Agora continue a contar o que aconteceu no dia em questão.
A mulher começa a explicar o acontecido, observada pelo noivo sempre em silêncio.
- Naquele dia, além da criadagem, estavam em casa, o meu avô Oscar, Hilda, minha irmã, a menina e a babá.
- Quanto mede a propriedade?
- Cerca de três hectares. Alem da casa principal, temos pomares, campos de golfe, tênis, futebol, etc.
- É possível entrar na casa sem ser visto?
- Não. Toda propriedade é constantemente vigiada 24 horas por dia.
- Sabe se houve algo especial, estranho ou fora do comum nesse dia por mais simples e banal que seja?
- Nada. Nada mesmo.
- Como se passou a coisa toda?
- Segundo as pessoas que estavam presentes, eles surgiram como se tivessem surgido do nada. Mataram todos os que ofereceram resistência e sumiram tão rápido quanto apareceram, levando a menina com eles. Vovô levou uma coronhada e foi socorrido pela babá e minha irmã levou um soco ao tentar proteger a garota.
- Levaram algo mais?
- Não. Só a menina.
- Onde vocês estavam nesse momento?
- Eu estava no escritório. Naquele dia trabalhei até as seis da noite.- Fala George.
- Porque está perguntando isso? - Pergunta indignada - Por acaso está insinuando que temos algo a ver com o rapto de minha sobrinha?
- Estou apenas colhendo dados.
- Pois muito bem... Eu estava num shoping center na Barra da Tijuca.
- Tem alguém que confirme isso?
- Como assim? - Explode ela- Está duvidando da minha palavra? Nem a polícia me tratou com tamanha infâmia!
- Acontece que eu não sou da polícia. Tenho meus próprios métodos. - Dá uma pausa para que ela se acalme. - Creio que isto é tudo, por enquanto.
- Quando devemos procurá-lo?
- Não me procurem. Quando tiver alguma coisa eu os procurarei
- Muito bem, senhor Disco, foi um prazer. Só espero não ter perdido o meu tempo - Diz estendendo a mão para que Disco a beije.
- Eu também, senhorita, espero não estar perdendo o meu. - Fala apertando-lhe a mão. - Acredito que em breve nos veremos novamente.
- Foi um prazer, senhor Disco. - Fala George. apertando a mão dele.
- Eles descem as escadas e chegam a rua.
- Você viu, George?
- O que, Sheila?
- Que homem grosso e arrogante...Não viu como ele me tratou?
- Não, Sheila.
- Como não! - Diz furiosa - Onde está com a cabeça, George? - Fala como que para si mesma. - Não sei por que eu vim aqui. Isso foi um erro desde o começo.
Os dois caminham pelas ruas ainda molhadas pela chuva que não tardaria voltar a cair.
(Continua)