- Aqui! – Diz uma voz vinda de uma porta lateral.
A camareira entra logo após um homem gordo de cabelos pretos, vestindo um uniforme do hotel e algemado.
- O que significa isso, Maria?
- O certo é agente Maria Carmem. – Diz estendendo uma carteira de couro preto com o emblema das Armas da República – Agente da Policia Federal.
- Quem é esse homem? – Pergunta o gerente.
- Não está reconhecendo, Martinez? – Pergunta a moça.
O gerente chega mais perto e sob a peruca preta reconhece o prisioneiro:
- Mas é o Barão! – Fala espantado – Para quê tudo isso?!
- É melhor ir se explicando, moça! – Diz Gonçalo.
- Vocês passam o dia todo procurando o homem, e quando eu acho ainda tenho que dar explicação?
- Tem que reconhecer que é um tanto estranho... Fala Martinez desconfiado e percebendo a mudança no tom da moça.
- Tem razão – Concorda ela – é um tanto estranho.
- Como conseguiu encontrá-lo?
Nesse instante, Silvino Alvarenga termina de fechar o seu baú e tenta sair de fininho.
- Por causa dos sapatos do Sr. Alvarenga!
Os olhos de todos voltam-se para ele , que empalidece e começa suar frio.
- E antes que tente qualquer coisa aconselho-o a ficar quietinho que é para não piorar a sua situação. Detestaria Ter que adicionar resistência a prisão em sua ficha que já é considerável.
- Dá pra alguém me explicar o que está acontecendo aqui? – Fala Fred – Não estou entendendo nada. O homem some, a gente revira o hotel todo e a camareira encontra o cara fantasiado não se sabe onde...
- Pode nos dizer porque o Barão está algemado? – Pergunta Martinez.
- Por causa disto! – Diz a moça mostrando um saquinho de veludo preto – São diamantes que tentava levar com ele enquanto escapulia pelo único lugar que não estava sendo vigiado: a saída dos empregados.
- Diamantes! – Espanta-se Gonçalo.
- Isso mesmo o Barão Kibbentrup e o Sr. Silvino Alvarenga são na verdade, contrabandistas de jóias, que usavam esse hotel como ponto de encontro.
- O meu hotel... Usado como ponto de contrabando? – Fala Martinez levando a mão à testa suada.
- Recebemos informações na Central de que estavam ocorrendo atividades ilícitas aqui e me deram a missão de descobrir o que era e como era. Aproveitei a vaga de camareira para me infiltrar e colher indícios.
- O meu hotel... – Balbucia Martinez desolado – Ponto de contrabando...
- Não precisa se preocupar... Sei que ninguém aqui tem nada a ver com isso. O Barão deve Ter escolhido seu hotel por acaso da primeira vez, e como é um homem de hábitos rígidos, o utilizou até o ano passado.
- Como “até o ano passado”? – Pergunta Fred – Ele está aqui, não está?
- Acredito que essa confusão toda significa que ele resolveu tirar alguma vantagem após todos esses anos em que serviu fielmente seus chefes. Estou errada?
A pergunta é dirigida ao Barão, que fica calado.
Com a ajuda de Silvino que era o seu contato, ele deve Ter elaborado um plano para desaparecer com as jóias e depois dividi-las com ele. Assegurando assim uma aposentadoria bastante tranqüila para os dois.
- Tudo bem... O homem não presta e tudo isso... Mas como ele saiu daquele quarto comigo e Gonçalo sentados na porta o tempo todo?
- Ele não saiu.
- O quê? – exclamam todos ao mesmo tempo.
- Isso mesmo.
- Então onde estava?
- O gerente disse que no ano passado ocorreu um vazamento no quarto que o Barão costumava ocupar, não foi?
- Realmente.
- E como resolveram esse problema?
- Isolamos o cano, porque não havia meios de consertá-lo sem demolir metade da parede. Fizemos uma outra instalação por fora e colocamos uma divisória para disfarçar imitando a parede para esconder o serviço. Ficou um trabalho perfeito.
- Quando entrei no quarto a primeira vez com vocês dois, notei a poeira mexida no pé de uma das paredes, como se ela tivesse sido arrastada. Depois fiquei sabendo da história do conserto e constatei antes de fecharem o quarto, que o espaço era suficiente para escondê-lo. O Barão é um homem muito meticuloso e deve ter notado a mudança no ambiente, utilizando-a no plano que arquitetou para fugir com as jóias.
- E como saiu de lá?
- Preparrei a torneirra parra estourrar ao ser aberta e quando foram consertarr, saí pela porta da frente. – Fala o Barão pela primeira vez.
- Foi o que pensei quando vi o que tinha acontecido. Estava começando a juntar as coisas.
- Tudo bem... Ele saiu. E foi para onde? – Pergunta Gonçalo.
- Há um quarto que está vazio a vários dias, não é?
- Exato um homem fez a reserva e sumiu. – Diz o gerente.
- Deve ter sido a mando do Barão. Quando saiu do 505 ele dirigiu-se para lá.
- Mas nós revistamos o 606! – Fala Fred.
- Aí é que entra nosso amigo Silvino Alvarenga. – Diz Maria – Depois do escândalo que fez com vocês, deve Ter alertado o Barão, que desceu um andar enquanto revistavam um quarto vazio.
- Incrível! – Diz Gonçalo.
- Mas é verdade, não é Barão?
- Sim. – Concorda ele secamente.
- Seus movimentos foram facilitados devido a pouca quantidade de hóspedes dessa época no Hotel . Bem ... Até aí eu já sabia alguma coisa, mas tinha de ver até onde eles iriam e descobrir o porquê de tudo isso. Dentro da maleta do Silvino vi duas coisas que me chamaram a atenção: um monóculo de ourives, algo estranho se usado por um marchand, e um uniforme do hotel dobrado no meio das roupas sobre a cama. Resolvi então esperar para ver o que acontecia e quando o vi descendo para ir embora, tive um palpite e telefonei para o Sr. Martinez, sabendo que ele o seguraria o tempo suficiente para que eu encontrasse e prendesse o Barão.
- Mas o que isso tem a ver com os sapatos dele? – Pergunta Fred apontando para o marchand.
- No quarto ele estava usando sapatos tão surrados quanto o terno e depois no saguão eram novos e brilhantes.
- E daí? – Pergunta Gonçalo.
- Olhem nos pés do Barão. Não achariam estranho um funcionário de hotel calçando sapatos de cromo alemão? Quando eu percebi isso todo o plano ficou claro.
- O que pretende fazer agora? – Pergunta Martinez.
- Vou levá-los para uma Delegacia da Polícia Federal. Lá serão autuados e dirão para quem trabalhavam. E, Sr. Martinez, se não quer mais propaganda negativa, para o seu estabelecimento, sugiro que libere seus hóspedes e enterre o assunto.
- Vou fazer isso!
- Vamos embora também. – Diz Gonçalo – Não há mais nada o que fazer aqui. Ainda bem que ele pagou adiantado. – Suspira ele como que para si mesmo, enquanto Maria leva embora seus prisioneiros com a ajuda da polícia.
- Depois dessa história toda. – Diz Fred – O que eu quero mesmo é encher a cara.
- Meu caro amigo... – Resigna-se o gerente - Essa foi a melhor coisa que eu ouvi hoje. Venham comigo até o bar do hotel que a primeira rodada é por conta da casa.
- Vamos nessa, chefe?
- Mas é claro, Fred, dessa vez tenho que concordar com você...
O trio dirige-se ao bar, após Gonçalo liberar o restante de seus homens. E em poucas horas e muitos copos depois todos já esqueceram do estranho caso do sumiço do Barão Von Kibbentrup.