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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Renzo: Em Busca do Horizonte (Parte 4 de 7)

Capítulo 04

Sozinho no Escuro

- Meu pai – começa Renzo - era um descendente de italianos que veio para o Brasil com algumas economias na década de 50 e se estabeleceu com uma loja num subúrbio. Era um prédio de dois andares, em cuja parte inferior havia um pequeno armazém de secos e molhados com duas portas. Na verdade, era um pequeno mercado onde se vendia de tudo, mas principalmente artigos de quitanda. Havia um grande letreiro sobre as duas portas metálicas onde estava escrito "MERCEARIA DO RENZO". Na calçada, grandes caixotes com pés expunham as verduras e legumes aos fregueses que passavam por ali.
“Minha mãe e eu ajudávamos no trabalho. Ela gostava, eu não. Meu pai era Um homem grande, de cabelos e olhos escuros, e um vasto bigode, sempre com calças de algodão arregaçadas à altura da canela, calçando botinas de couro preto e uma camisa de tergal surrada sobre uma camiseta de algodão que ficava de pé na porta da mercearia aguardando fregueses.”
“Um dia eu conversava com alguns amigos sentados em círculo com suas bicicletas perto da quitanda quando ouvi meu pai gritar”:
- Maurício Renzo Júnior! Moleque preguiçoso... Onde você está!
“Voltei correndo para junto dele e meu pai brigou comigo na frente de todo mundo. Quando isso acontecia eu ficava apenas com a cabeça baixa e olhando para o chão com as mãos para trás enquanto ele falava, queimando por dentro de vergonha e frustração.”
- Quantas vezes já te disse para não ficar de conversa com esses vadios? Eu preciso de você, filho! Sua mãe está sozinha lá dentro. Você tem que nos ajudar.
“De vez em quando apareciam uns homens de terno escuro que conversavam durante horas com ele e quando saíam, invariavelmente, ele estava com muita raiva. Hoje eu sei que deviam estar cobrando por proteção. Acontece que em um determinado dia eles devem ter aumentado demais a cota e por isso meu pai aborreceu-se mais do que o normal.”
“Enquanto arrastava para dentro uma caixa de madeira cheia de legumes puxando com as duas mãos e algum esforço, os homens foram saindo. Não entendi direito do que se tratava na época e não dei muita importância, mas ouvi claramente um deles dizer: ‘Ele vai se arrepender..."
“Nós morávamos na parte de cima da mercearia e eu era o responsável pelo fechamento da loja todos os dias, mas naquela noite foi diferente... Contra a vontade de meu pai, eu havia marcado com uns amigos para irmos ver um ‘pega’ de carros num bairro afastado. Era uma corrida ilegal muito perigosa e por isso mesmo disputada. A adrenalina da corrida em si e o fato da polícia poder aparecer a qualquer momento dava uma imagem de transgressão que agradava a todos os adolescentes “rebeldes” da minha turma Meu pai sempre guardava as chaves com ele no quarto, por isso tive a idéia de deixar uma das portas da mercearia aberta.”
“Nunca tínhamos tido problemas com ladrões e achei que deixar a pesada porta encostada por algumas horas não faria mal nenhum. Mas estava enganado... Quando voltei para casa era madrugada. Em frente a minha casa fiquei paralisado com os braços caídos ao longo do corpo como se estivesse em transe com os olhos fixos nas chamas do incêndio que consumia minha vida, e ao mesmo tempo ofuscado pelas várias luzes, sons e toda a movimentação.”
“O prédio todo estava pegando fogo. Grande parte já havia desabado e só restava a fachada que ruiu pouco depois. Os carros da polícia e dos bombeiros com as luzes acesas estavam sobre as calçadas em volta enquanto os homens jogavam água para tentar controlar o fogo. Várias pessoas circulavam por toda parte e eu era apenas um espectador à distância. De uma hora para a outra fiquei sozinho no mundo. Perdi tudo o que tinha, tudo o que agora eu sabia que amava. E eu achava que a culpa era toda minha.”
“Caminhei pela cidade como um morto-vivo durante dias, vaguei sem rumo pelas ruas da cidade tomado por um remorso enorme e um ódio de mim mesmo ainda maior. Eu fora o responsável pela morte de meus pais...”
“Depois de muito andar sem destino dormindo em qualquer lugar e com uma fome implacável corroendo minhas entranhas o remorso me levou à entrada de um morro onde eu sabia haver tráfico de drogas. Não sei mais se inconscientemente o que eu buscava era punição ou então desejava cair de cabeça na vida de criminoso que eu achava que era.”
“Aproximei-me de uma "barraca", "tendinha" ou "birosca" no alto do morro, à frente da qual, sob um alpendre de madeira havia uma mesa de sinuca onde dois homens jogavam e outra de carteado onde quatro homens jogavam sentados em cadeiras metálicas com propaganda de cerveja.”
“Na mesa de cartas, havia um homem negro de bermuda, camiseta e usando uma touca com listas horizontais largas amarelas e pretas que era o gerente da favela e a sua direita e ao seu alcance, havia um revolver calibre 38 prateado colocado sobre a mesa. Em uma das mãos ele tinha um cigarro aceso e na outra as cartas.”
- Ouvi dizer que o senhor tem trabalho aqui. – Comecei eu ao chegar perto dos homens - Eu faço qualquer coisa.
O homem falou sem virar-se.
- Tu faz qualquer coisa?
“Ele me olhou de cima embaixo pelo o que me pareceu longos minutos e depois apontou com o polegar para o outro lado da rua, havia dois homens conversando: um negro só de bermuda com uma pistola na cintura e um moreno de óculos escuros Ray-ban, com um cabelo ralo empastado de algum tipo de creme, e uma camisa aberta no peito mostrando um grosso medalhão circular dourado de São Jorge com uma também grossa corrente.”
- Tá vendo aqueles dois do outro lado da rua? Pega esse berro que tá aqui em cima e apaga o cara de óculos.
- Eu- Eu não posso fazer isso. – Eu disse hesitante.
- Então cai fora, ô bundão! Não tem nada pra você aqui!
“Todos riram da fala do chefão embora não houvesse nada de engraçado nela. Eu saí da favela de cabeça baixa por entre casas e becos estreitos. Em um terreno vazio havia muito lixo e coisas jogadas fora. Porcos fuçavam os dejetos em busca de alimento e próximo a eles um garoto revirava uma lata de lixo retirando e comendo os restos de comida que encontrava.”
“Naquele momento, não sei por que, eu me lembrei de um poema que eu escutei na escola certa vez. Parecia ter sido numa outra vida. A professora mostrou para turma um poema do Manuel Bandeira e disse que toda vez que o lia tinha vontade de chorar.”
“Eu não era um bicho. O gerente nem viu quando o revolver desapareceu. Quando ele percebeu eu já estava de arma em punho com o braço esticado andando como se estivesse em transe em direção aos dois homens que ele havia indicado antes. Os homens se assustaram com a minha aproximação e logo eu estava cercado por cinco ‘soldados’ armados que gritavam coisas para mim enquanto gerente observava de pé com os braços cruzados sobre o peito com sorriso e um ar sarcástico.”
- Acho que arrumamos mais um soldado, pessoal!
“Depois de alguns dias como ‘soldado’, o gerente chamado "Macarrão", com a ajuda do homem em quem eu iria atirar, um policial civil, providenciaram para mim um ‘batismo de fogo’ para avaliar do que eu era feito. Aparentemente meus dias na rua não havia me feito perder uma certa cara de “burguesinho branco”, como os outro garotos me chamavam, e isso não lhes inspirava confiança. Logo eu estava sentado dentro de uma viatura sendo levado para uma delegacia. Quando a porta da "caçapa" se abriu, um homem moreno, magro, de cabelos cinzentos ondulados e curtos, usando um fino bigode, e aparentando uns quarenta anos, vestindo calça e camisa social e com um paletó de linho cinza surrado nas mãos foi colocado para dentro por dois policiais, um deles era o mesmo que estava na favela.”
- Volto a dizer que isso é um grande erro, senhores. Vocês não tem nada contra mim. Não podem me prender...
- Cale a boca Domingos! - disse o homem que eu conheci na favela - Senão vamos te dar o "tratamento especial" e você não vai gostar nem um pouco.
“A patrulha parou em frente de uma delegacia policial junto com outras viaturas e os dois policiais conversaram dentro enquanto as pessoas circulava em volta.”
- Porra, Antunes...Trazer o Domingos, tudo bem, agente já tava na cola dele a algum tempo... mas acho que esse garoto vai nos trazer problemas. Ele é menor, Antunes!
- Não esquenta, Marcos, o macarrão quer que ele passe uma noite na cadeia. Amanhã a gente devolve ele. Do jeito que estiver...
“Um pouco mais tarde no corredor de celas da delegacia entre as portas gradeadas dos dois lados, eu com os olhos arregalados e o outro homem mais velho andamos a frente de dois policiais seguindo em fila indiana. Um dos presos gritou de dentro de uma cela:”
- Bem vindo ao lar domingos!
“Outro preso completou:
- Quem é o franguinho? Seu filho ou seu amante?
“Uma outra voz falou bem alto:”
- Oba! Carne nova no pedaço!
“Domingos falou alto também.”
- Minha casa é mais bonita que esse esgoto. Vou ficar por pouco tempo! E tem mais... Não quero que ninguém toque no garoto. Ele é meu peixe. Se alguma coisa acontecer com ele alguém vai se dar mal...
“Um dos guardas, o policial Antunes, repreendeu Domingos.
- Feche o bico! Não está mais entre tuas nêgas. Além disso o garoto não vai ficar no mesmo buraco que você.
“Resignado e com medo, fui empurrado sozinho na cela superlotada aberta pelo policial. Vários homens de bermuda, camiseta e chinelos estavam espalhados por toda parte. Varais com roupas estendidas entre as grades tinham roupas dependuradas e as paredes que não tinham grades estavam cheias de pôsteres de mulheres nuas pregadas.”
“Naquele momento não entendi a atitude de Domingos. Mas isso fazia parte de sua personalidade. Ele tentara me ajudar porque percebera que eu não fazia parte daquele mundo. Usou a sua reputação para me proteger. Mas ela não foi suficiente...”
“Permaneci de pé, paralisado, próximo a entrada da cela lotada como se procurasse um lugar para ficar. De um dos cantos veio uma voz.”
- Então tu é peixe do Domingos, hein?!
“Por entre os presos surgiu um homem gordo e com aspecto sujo. Ficou ali de pé, com um bigode ralo e o cabelo desgrenhado, suado, com braços e pernas cabeludos. Vestia uma bermuda e uma camiseta surradas, usava chinelos velhos e trazia um palito de dentes no canto da boca e uma toalha encardida sobre o ombro esquerdo. Sorriu maliciosamente os dentes cariados.”
- Vai dar uma bela noiva!
 “Eu poderia dizer que nada aconteceu naquela noite... que a manhã me encontrou do mesmo jeito que a tarde me deixara... Mas não... Na verdade não me lembro de muita coisa. Lembro-me da dor, da humilhação, de ser largado no chão como um trapo velho dolorido e sangrando. De como a raiva e o ódio cresceram dentro de mim como a lava de um vulcão até explodir naquela mesma madrugada. Quando dei por mim o homem gordo e suado estava deitado de bruços embaixo de meus joelhos. Eu estava sobre suas costas pressionando as omoplatas contra o chão sujo e com as minhas mãos firmemente seguras nas duas pontas da toalha encardida enrolada em torno do seu pescoço enquanto ele se debatia. Aquela foi a primeira vez que eu matei um homem”.
“Todos sabiam o que tinha acontecido, mas ninguém falou nem fez nada. Talvez tenha sido algo que Domingos gritou de sua cela para os detentos naquela noite e que eu não lembro. Acho que ninguém gostava do ‘xerife’ da cela... Ou então seguiram a "lei do silêncio" ou coisa parecida. Não sei. Só descobririam o corpo na próxima revista. Já do lado de fora no dia seguinte como fora combinado, eu estava novamente só. Domingos estava de pé diante da delegacia como dissera acendendo um cigarro com a mão em concha protegendo o fogo do vento fresco que soprava.
- Teve coragem em fazer o que fez lá dentro, garoto. Eles poderiam ter te matado também, sabia?
- Não importa. Não foi coragem. Foi ódio, desespero e desejo de vingança.
Domingos solta uma baforada do cigarro e olha em volta.
- Tem para onde ir, garoto?
“Naquele dia não voltei mais para a favela. Na verdade nunca mais voltei lá. Domingos me adotou como filho. Me ensinou o manejo de todos os tipos de arma. Domingos era um excelente atirador e um PERCOR; um perito em luta com facas. Fora discípulo de um mestre nesta arte, um boliviano que conheceu quando esteve na penitenciária. Hoje eu também sou.”
“Convivi com ele por dez anos. Era um homem bom, embora um tanto calado. Mas eu também era. Acho que era por isso que nos dávamos bem. Nos separamos quando consegui o meu primeiro trabalho. Sem lágrimas, sem abraços... como tinha que ser. Todo predador precisa de uma grande área de caça. Gente como nós sempre trabalha melhor sozinho.
(Continua) 

domingo, 4 de abril de 2010

Renzo: Em Busca do Horizonte (Parte 3 de 7)

Capítulo 03

Tocaia

Uma semana depois o Delegado Guerra entra no escritório de sua casa cansado após um dia de trabalho e joga seu paletó sobre o sofá colocado rente a parede para acender a luz.
Ele veste uma calça de linho cinzenta, camisa branca de mangas compridas arregaçadas e porta um coldre de axila de couro, com uma pistola calibre 45 do lado esquerdo e dois pentes para a arma no outro lado.
- Merda! Hoje foi um dia de cão. Ainda tenho que ligar para aquele boçal do Eliseu na delegacia, para ver se ele conseguiu alguma pista do Renzo. O cara desapareceu. Será que saiu da cidade?
- Está me procurando, Guerra?
Renzo está recostado sob a luz mortiça que entra pela porta aberta pelo Delegado numa poltrona acolchoada com braços e espaldar alto, por trás da grande escrivaninha do escritório que tem as cortinas fechadas. Tem um cigarro na boca seguro pelo indicador e polegar da mão esquerda, enquanto o cotovelo direito apoiado no tampo da mesa sustenta uma pistola 9 mm com silenciador apontado na direção do teto.
Guerra acende a luz acionando sem olhar o interruptor quase atrás de si. Está surpreso com a presença de Renzo dentro de sua sala.
- O que está fazendo aqui?
- Vim cobrar a cerveja que você me prometeu, lembra? E nem tente ser esperto em puxar esse trambolho que tem ai embaixo do braço. Sabe que sou melhor nisso do que você.
Guerra ergue as mãos.
- Você veio me matar, não é?
- Quanta perspicácia, senhor Delegado. Finalmente vai ter a prova que tanto desejava. Um flagrante verdadeiro. Pena que não vai servir para nada no lugar para onde você vai.
- Não vai se sair bem dessa. Seja qual for o canalha que te pagou para me pegar vai...
Renzo apaga o cigarro num cinzeiro sobre a escrivaninha e levanta-se.
- Você é um hipócrita, Guerra! Um canalha sujo! É claro que você sabe quem mandou te matar! Seja honesto pelo menos na hora de morrer!
Guerra deixa-se cair pesadamente sobre o sofá, como se estivesse resignado com sua sorte.
- Tem razão... Eu tinha certeza que isso iria acontecer mais dia ou menos dia. Não é possível se envolver com um homem como Nicolletti sem se sujar na lama em que ele está metido...
Renzo está de pé, com o braço direito estendido e puxa para trás o cão da pistola com o polegar num ruído seco.
- É tarde demais para pensar nisso. Faça suas preces, por que sua hora chegou...
Guerra espera o tiro, mas ele não vem. Renzo continua de pé, com o braço direito estendido e a arma apontada para o Delegado.
- Sabe, Guerra...Eu vim aqui decidido a te mandar para o inferno. Mas mudei de idéia... Antes de fazer o serviço, em consideração a sua inconveniente perseguição a minha pessoa, acho que deveria saber por que me tornei o que sou.
Guerra fica de pé como se estivesse paralisado num misto de medo, surpresa e raiva.
- Acabe logo com isso. Acho que sua fama não é verdadeira afinal...
Renzo senta-se novamente por trás da escrivaninha. A sua mão direita está segurando a pistola e pousada calmamente sobre o tampo da mesa. A esquerda está sob o queixo.
- Não brinque com a sorte, Guerra, eu conheço muitas maneiras de matar um homem, e algumas são bastante lentas e dolorosas.
O Delegado tem um semblante resignado com um ar de certo enfado.
- Então, antes de me matar quer me fazer de seu confessor... O que eu posso fazer? Você é que tem a arma...
Renzo aponta para um cabideiro vertical à esquerda do Delegado com o cano da arma.
- Exatamente. E por falar nisso... Tire esse canhão que você leva com a mão esquerda bem devagar e pendure ali ao lado. Não vai mais precisar dele.
Guerra levanta-se e pendura o coldre de axila num dos braços do cabide.
- Você está facilitando muito. Minha mulher está pra chegar e...
- Não seja ridículo. Me poupe dos seus truques de segunda. Sua mulher a essa hora deve estar num dos brinquedos da Disney com o seu filho. Você está sozinho com seu carrasco.
- Bom... Pelo menos espero que me conte algo interessante... Detestaria morrer tendo como a última coisa que escutei, as lamúrias de um perdedor.
(Continua) 

sábado, 3 de abril de 2010

Renzo: Em Busca do Horizonte (Parte 2 de 7)

Capítulo 02

A Casa do Guerra

Alguns dias depois na calçada em frente a uma casa num condomínio fechado com gramado e um caminho de lajes de pedra até a porta de frente para a rua, um menino de seis anos, com cabelos e olhos escuros brinca com um carrinho de brinquedo.
Renzo observa a cena de longe, do outro lado da rua.
“Nicolletti não me deixou muita escolha. Mas, se tenho que fazer a coisa, terá de ser do meu jeito. Não tenho a intenção de colocar minha cabeça a prêmio.”
Um carro de polícia encosta no meio fio próximo ao garoto e dentro dele está o Delegado Guerra.
“Confirmei com alguns informantes o que Nicolletti disse. O Delegado Guerra realmente está metido até a medula em negócios sujos. Ele é um tira corrupto. Acho que estou ficando mesmo desatualizado...”
O carro de polícia para e Guerra pega no colo o garoto que se atira sobre ele alegremente.
- E aí, filhão? Cadê sua mãe?
- Foi na feira.
“Pensei que o Guerra fosse mais esperto. Esse condomínio deve custar uma fortuna. Ele nunca poderia ter uma dessas só com o salário da polícia.”
O Delegado entra na casa, levando o garoto.
- ...E deixou você com a empregada? Tenho que conversar com sua mãe sobre isso... Vamos buscá-la. Vou dispensar a Maria e vamos ao shopping almoçar e fazer umas compras.
- Que bom, - diz o garoto contando nos dedos - Vamos comer um hambúrguer e sorvete e...
O carro de polícia arranca enquanto uma mulher negra e jovem, vestindo um vestido simples dá adeus ao veículo.
“Essa era a oportunidade que eu esperava. A segurança daqui é fraca demais para o dinheiro que esses caras pagam bastou um uniforme da empresa de Tv a cabo e entrei mole. Esse serviço requer uma estratégia perfeita ou então eu sou um homem morto.”
Renzo anda em direção da entrada da casa enquanto joga fora a ponta do cigarro.
“Uma visita a casa do Guerra vai me dar condições de encontrar um meio de despistar de qualquer suspeita contra mim. Depois é só arranjar um álibi convincente e pronto.”
Ele entra facilmente pelos fundos e percorre os cômodos. A casa tem móveis e quadros caros com tudo muito limpo e arrumado.
“Esse cara mora bem mesmo. Tudo comprado com o dinheiro sujo do Nicolletti.”
A suíte do casal tem uma grande cama, um guarda-roupa embutido e cômoda de madeira.
“Tenho que encontrar algo que possa servir para o meu plano... “
De repente um ruído vem da porta da frente.
“Era só o que faltava... Ser pego em flagrante como um ladrãozinho comum...”
Guerra entra no quarto com seu filho
- Sua mãe não existe... Fazer a gente voltar para colocar as compras na cozinha... Porque não deixou tudo no carro e depois guardava quando a gente voltasse?
O rosto de Renzo escondido no closet está emoldurado pelas listas horizontais formadas pela luz que passa através das ripas da porta.
- Vem cá, filhote. – Diz Guerra está sentando-se na cama - Vamos aproveitar que sua mãe está lá dentro e vamos conversar. Quero te contar um segredo.
- Um segredo? – pergunta o menino sentando-se em seu colo.
- Lembra daquela viagem que eu prometi? Vai ser no final desse mês. Papai conseguiu um dinheiro extra e vai poder te dar ela de presente. E na volta, vou mandar reformar a casa e colocar o quarto do jeito que você quer.
O garoto explode de alegria.
- A gente vai pra Disneylândia? Mesmo!? Oba! Que legal! E eu vou poder ter um quarto do jeito que eu quiser? Oba! Que legal!
- Isso mesmo, Só não pode falar nada com a sua mãe. É um segredo meu e seu, tá? E uma surpresa para ela.
- Você é o melhor pai do mundo! O maior de todos!.
De dentro do armário Renzo observa quando garoto abraça fortemente o pescoço do pai.
(Continua) 

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Renzo: Em busca do Horizonte (Parte 1 de 7)

Minha primeira missão está cumprida. No último post terminei o livro de poesias e meditações que disse que colocaria para apreciação pública. Agora vamos começar uma nova etapa. Não quero cansar meus dois leitores com mais poesia. Sim. Ainda há muito mais, entretanto vou postar a partir de hoje um pequeno conto. Ele era inicialmente uma História em Quadrinhos cuja ideia me foi inspirada na época que eu fazia a faculdade . O roteiro original que eu elaborei nunca saiu do papel, então resolvi passar para o formato de conto. É um conto curto em 7 capítulos que acho ideal para o formato de um blog. Nem muito grande, nem muito pequeno senão vira Twitter. Bem... Lá vai.

Renzo: Em busca do Horizonte

 

Capítulo 01

 O Serviço

Uma rua estreita e deserta próxima do centro da cidade, muito suja e molhada como se tivesse acabado de chover. Caixotes e pedaços de papel solto esvoaçam pelo ar em meio a paredes e postes escuros de sujeira que emolduram o emaranhado de fios da rede elétrica suspensos dos dois lados.
Um homem caminha pela calçada do lado direito fumando um cigarro. Veste uma calça e jaqueta jeans, sobre uma camisa de malha e botas de alpinista. Tem estatura mediana, não usa barba, nem óculos, tem cabelos pretos e olhos castanhos. Atrás dele, rente ao meio-fio, um carro de polícia aproxima-se com um mínimo de ruído sem que ele perceba.
Sozinho com seus pensamentos o homem reflete sobre sua vida:
O carro de polícia emparelha e pára bruscamente ao seu lado, acendendo todas as luzes e ligando a sirene, assustando e chamando a atenção dele.
O motorista sozinho no carro, um homem grande, de óculos escuros, sobrancelhas grossas, nariz adunco, cabelo curto cortado em "escovinha" e bigode ficando grisalhos.
- E aí Renzo, vai matar alguém hoje?
Ele continua fumando o seu cigarro sem se abalar e reage com desdém a pergunta do policial
- Não estou entendendo o que está falando, Guerra. Você sabe que sou um cidadão honesto e cumpridor dos meus deveres.
O policial retira os óculos escuros e retruca ironicamente.
- Sei... E eu sou a Branca de Neve. Só estou esperando você dar um passo em falso, Renzo, e quando isso acontecer, eu te pego.
- Vê se larga do meu pé, Guerra - Gesticula com o cigarro aceso entre os dedos - Você não tem nada contra mim. Estou indo até o Bar. Não quer me pagar uma cerveja?
Guerra repõe os óculos.
- Você sabe que eu não bebo em serviço, talvez em uma outra ocasião... Isso se eu não te meter na cadeia antes.
O policial arranca com o carro e parte em direção ao fim da rua e Renzo continua de pé. Lança fora a guimba e pisa na brasa do cigarro que acabou de jogar no chão.
O carro de polícia ainda some na distância quando um homem enorme aparece a sua frente barrando-lhe a passagem; é louro, com o cabelo cortado em estilo militar e veste um terno escuro mal cortado.
- O chefe quer falar com você!
Renzo recua sobre a calçada e atrás dele surge um outro homem que ele não percebe, negro, tão alto e forte como o louro e com a cabeça raspada, vestindo um terno do mesmo modelo de seu colega e tão mal cortado quanto o dele.
- Só que eu não quero falar com ele. Diga ao Nicolletti que eu vou pagar o que devo assim que arranjar um trabalho legal. É só uma questão de tempo e eu....
Renzo não completa a frase porque recebe uma violenta joelhada que faz com que se dobre de dor.
- Acho que você não entendeu...
O homem louro agora ostenta um sorriso maquiavélico no rosto
- O chefe mandou te levar... Mas não falou nada sobre em que estado...
O homem negro segura Renzo por trás, pelos braços, levantando-o e fazendo-o virar-se enquanto o homem louro atinge-o novamente, desta vez no estômago.
Renzo geme e pensa caído no chão apoiado na mão esquerda e comprimindo o abdome com a direita.
“Tinha mais um... Caí como um patinho. Preciso tomar mais cuidado.”
Para completar o serviço, o homem negro chuta violentamente as costelas de Renzo, fazendo seu corpo arquear com o impacto e fala para o louro:
- É isso que eu gosto no chefe, ele nunca complica nosso serviço.
Ajoelhado com ambas as mãos no abdome e dobrados pelas dores ele não perde a lucidez.
“Acho que quebrou uma costela, isso é mau.”
- Eu adoro o meu trabalho!
O homem louro fala com um sorriso malvado enquanto chuta o rosto de Renzo violentamente, arremessando-o para o alto e para frente, fazendo-o desmaiar sentindo um gosto de sangue na boca.
Horas mais tarde ao voltar a si, Renzo está caído sobre um carpete. Seu rosto tem um hematoma e da sua boca contra o chão corre um filete de sangue. É um luxuoso escritório com o chão e as paredes cobertas por tábuas corridas envernizadas, obras de arte em bronze e quadros caros nas paredes. À esquerda há uma grande janela com vidros quadrados guarnecida por pesadas cortinas escuras mostrando uma paisagem campestre como de uma fazenda.
À frente dele, encostado na grande escrivaninha de madeira escura com vários objetos em cima, está um homem branco, grande, vestindo um impecável terno Armani de seis botões, sapatos de cromo alemão, anéis e um alfinete de gravata de ouro, não tem barba, é forte e com cabelos na altura dos ombros muito bem tratados e empastados com creme, de modo a ficarem colados a sua cabeça.
Por trás de Renzo os homens que o trouxeram estão de pé à espera de ordens.
- Não foi uma boa idéia deixá-lo aí, rapazes, está sujando todo o meu tapete persa de sangue. Sabem quanto custa lavar essa porcaria?
Renzo começa a levantar-se apoiando-se nos joelhos.
- Você é mais durão do que eu pensava, Renzo.
- A vida me fez duro, Nicolletti - Diz Renzo levantando-se e retirando o sangue do canto da boca com a ponta do dedo médio da mão direita - Não precisava ter mandado seus gorilas atrás de mim. Como eu tentei explicar a eles, não vou te dar o calote. Assim que pintar um bom trabalho, vou pagar cada centavo do que eu te devo.
Nicolletti abre uma caixa de madeira colocada sobre a escrivaninha.
- Aquela vaca te estrepou mesmo! Aceita um charuto?
Renzo apalpa suas costelas.
- Não acredito que você tenha me trazido aqui para falar da minha vida particular. Já lhe disse que vou te pagar o que devo. Me diga o que quer ou me deixa ir embora.
Nicolletti tem um grande charuto entre os dedos e o oferece ao jovem.
- Como é que é, homem, vai querer o charuto ou não? Esse é dos bons, faz nascer cabelos no peito.
Renzo se senta numa cadeira posta por um dos homens a sua esquerda.
- Eu não fumo charutos, eles matam muito lentamente, eu prefiro os cigarros, são mais rápidos.
Nicolletti acende o charuto.
- É. E devo admitir que disso você entende... Eu não fumo mais cigarros. Charutos são mais finos, exigem todo um ritual para sua degustação. Não é assim Benneti? "degustação"?
O homem louro que atacara Renzo se surpreende com a pergunta. Ao seu lado o homem negro permanece calado olhando para ele.
- Não sei, chefe, eu não fumo, faz mal a saúde.
Nicolletti solta uma baforada de fumaça do charuto
- Pior para você. Não sabe o que está perdendo... Mas, isso não importa, estou precisando que faça um trabalho para mim.
Renzo acende um cigarro que tirou do bolso sentado na cadeira
- Quem você quer que eu apague?
Nicolletti está com o charuto fumegante entre os dedos.
- Gosto de você, Renzo, é um homem direto. Sendo assim: quero que elimine o Delegado Adhemar Guerra.
- Sem chance. O Guerra é muito importante no departamento. Ele é um símbolo. Se alguma coisa acontecer com ele, o responsável vai ser caçado como um cão raivoso.
Nicolletti fala batendo o charuto no cinzeiro que tem a sua frente.
- Aquela garota te deixou mesmo fora de circulação... Quanto tempo faz? Dois anos? Deixa eu te contar uma coisa: o Delegado Guerra, como metade da polícia desta cidade está na minha folha de pagamento. Quem você pensa que dá cobertura as minhas transações com drogas e prostituição? Não seja ingênuo!
- Então porque quer eliminá-lo?
- A Corregedoria está no pé dele. E eu não posso correr o risco de que ele dê com a língua nos dentes. Há muito em jogo aqui, compreende? Ele sabe demais.
- Tudo bem, mas a grande maioria das pessoas lá fora vai querer a pele de quem tocar num só fio do cabelo do Guerra. Jamais vai passar pela cabeça de alguém que foi uma queima de arquivo.
Nicolletti fica de pé, apoiado com as duas mãos no tampo da mesa enquanto fala. Do charuto entre seus dedos sobe uma fina coluna de fumaça.
- Você não está entendendo... Eu não te escolhi para esse trabalho porque é o melhor. Eu te escolhi porque você me deve dinheiro, e muito. E também porque parece que tem um dom de sair sempre limpo dos trabalhos que faz.
- A discrição é um dos meios de se ter vida longa na minha profissão. Mas, mesmo assim, eu...
- Você não tem escolha, Renzo, se não aceitar, eu vou contratar outro para o serviço. Terei que pagar mais, porque afinal de contas, serão dois ao invés de um, mas o que se pode fazer? A vida é assim.
Nicolletti vira-se olhando pela janela de costas para Renzo com as mão unidas às costas.
- Infelizmente Não posso esperar que você me pague "quando tiver condições". No meu ramo, esse tipo de coisa não é bom para os negócios. Abre precedentes perigosos. É preciso dar exemplos, sabe? Um homem não chega na minha posição sem alguns esqueletos no armário. E então o que me diz?
Renzo apaga o cigarro no cinzeiro em cima da mesa e levanta-se.
- Me dê trinta dias. Até o final desse prazo terá o que quer.
(Continua) 

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Considerações sobre aVida e o Tao (Texto Final)

CONSIDERAÇÕES SOBRE A VIDA E O TAO
Tenho-me instado a perguntar,
A sentir talvez...
O suave bailado da vida ao meu redor.
Vendo também a frenética dança
Na qual se transforma algumas vezes

Entendo pouco e fico surpreso
Quando não percebo o que se passa.
Quando a imensidão do Cosmos
Me reduz a um mero ponto no infinito,
Minúsculo grão de areia
Nas praias do universo.

E como tantos outros homens
Na longa estrada do tempo
Procuro tecer considerações
Acerca do que não entendo.

Usando minha fraca visão
Iluminada aqui e ali
Por lampejos do Conhecimento Verdadeiro,
Procuro descobrir o Real Significado.

A Realidade é como uma tessitura,
Seus fios são interligados infinitamente
Agindo e interagindo uns com os outros,
Tocando-se e interceptando-se mutuamente.

E ao homem que tem capacidade de discernimento
Não é possível ver nem sentir
Mais do que algumas poucas polegadas
Desse Tecido Cósmico.

Apenas uns poucos dentre nós
Conseguirão intuir o que se passa
Sentir em seu âmago toda a extensão
Como se sente a brisa sobre uma colina.

E mesmo esses poucos
Que não precisam provar nada a ninguém
(Até porque não conseguem)
Tem pouco mais para mostrar
Do que sua própria experiência.

Surgem aqui e ali
Anúncios de novas verdades,
Novos caminhos
Que desvendam todos os mistérios,

Novos deuses, novas utopias
Embaladas pela cobiça,
Ou pior, Pela incerteza.

Indiferente a isso está o Tao.
Aberto para quem o aceita
Simples para quem o almeja
E mesmo assim tão difícil.

Nossas mentes estão preparadas
Para o que é complexo
Para a dificuldade e sacrifício.

Para soluções mirabolantes
Encantamentos e magias
Ou para um salvador,
Um deus ex-machina.

O Princípio Imanente,
Aquele que permeia a tudo
(seja qual for o nome
Que se queira dar)
Está indiferente a isso também.

Está lá
Eterno e visível
Como a assinatura de um pintor
Na sua obra de arte.

Quem tem olhos para ver, Veja!
Quem tem ouvidos para ouvir, Ouça!
Já dizia o Mestre!

Não são necessários recursos volumosos
Pirotecnias, tão pouco malabarismos
De corpo ou mente
Para se chegar ao Pai.
Não é necessário
Ostentar sua devoção
Ou alardear sua fé
Aos quatro ventos.

Basta sentir.
Polir a Pérola Divina
Que cada um tem dentro de si
No santuário
Onde o Deus Interior está presente.

A simplicidade do Caminho
É o que o torna tão difícil,
Exige perseverança
E Serenidade Interior.

É um lento avançar
Em direção a uma meta
Que não se sabe com certeza
Se está lá.

A Fé
É o que empurra o homem a frente
E o sentimento sem palavras
Sempre presente.

É algo que aquece o coração
Conforta e alivia
Não traz melhorias materiais na vida
Mas ajuda a viver melhor.

Ensina a ter Esperança,
A confiar no Destino
E trabalhar incansavelmente
Para fazê-la melhor.

Dizem que alcançar o Tao
Através da Virtude
Não é melhor
Do que alcançar a Virtude
Através do Tao.

O certo é que a Virtude
Não é mais do que ela mesma
E não encerra em si
Nenhum benefício ou dádiva,
Apenas a satisfação
De se ESTAR no Caminho.

Só trazendo resultados
Quando se manifesta
Sem esforço consciente,
Como Verdadeira Natureza
Sem apego e obsessão.

Grandes filósofos
Tentaram achar
A Raiz do Conhecimento
E a explicação para a Vida.

Ficaram somente
Na ante-sala da Verdade
Buscando com a lógica fria
Apreender o calor do Tao
E as suas manifestações.

Está no alcance de qualquer um
(E nisso reside o perigo inerente
Que representa perante
As instituições conhecidas)
Atingir o Caminho.
Na verdade todos estão Nele.

O Homem Sábio
Apenas tem consciência disso
E vibra em Harmonia com o Tao
Ou Nirvana, ou Espírito Santo
Ou seja lá que nome tiver
Essa Grande Consciência Incriada.

Esse Conhecimento,
Essa Sapiência que transforma,
Que traz a Paz e a Felicidade,
A Paciência e a Tolerância,
A Firmeza e a Lucidez de Pensamento

Pode ser visto, mas não enxergado,
Pode ser tocado, mas não sentido,
Pode ser relegado,
Se o espírito não estiver aberto para ele.

Se não se desejar ardentemente
Abandonar a vida efêmera (Sem deixá-la)
E assumir a única forma de Imortalidade possível:
O retorno a Fonte Primordial
Da Qual todo Homem faz parte!